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Data: 2010.05.16 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 4

holosGenesisP. Meirieu, no artigo Educação ambiental: por quê? como? Do mundo-objeto ao mundo-projeto, oferece três pistas do que poderia ser uma proposta mais consequente para a educação ambiental:

1. “fazer existir um mundo”; 2. “fazer os outros existirem no mundo”; 3. “passar de um mundo-objeto para um mundo-projeto“.

“Fazer existir um mundo”, em sua concretude e em sua diversidade, “como universo que resiste a nós e que não nos pertence”, significa ajudar a compreender que “o mundo não se reduz ao que eu gosto, ao que quero ou ao que desejaria que ele fosse, mas que ele existe, e que ele existe exteriormente a mim mesmo… ainda que eu faça parte dele”.

“Fazer os outros existirem no mundo”… não é simples. Trata-se de “construir a distinção básica entre espaço privado e espaço público”. De compreender que “os interesses privados não podem ser impostos ou competir ferozmente com o espaço público”. E, ao mesmo tempo, reconhecer o espaço privado como direito à intimidade, como um espaço em que cada um pode se expressar, com suas necessidades e desejos, em seu processo de autodescoberta. Da difícil confrontação entre os interesses individuais entre si e com o espaço público, “pode nascer o interesse comum. O interesse de todos. O do conjunto dos homens e do planeta em que vivem”.

“Passar de um mundo-objeto para um mundo-projeto”

O que é um mundo-objeto (MO)? O que é um mundo-projeto (MP)?

Um MO é o mundo shopping-center, do consumismo. Um MP é o “mundo-tesouro, espaço de busca oferecido à nossa inventividade”.

Um MO “é o mundo que eu possuo, que me fascina, me aterroriza, me espanta…”. Um MP “é o mundo que eu interrogo, questiono, interpelo…”.

Um MO “é o mundo como totalidade exterior a mim, que me condena ao parasitismo”. Um MP “é o mundo como conjunto de um universo de interações, e sobre o qual, onde quer que esteja, eu posso agir”.

Um MO “é o mundo em que o eu é prisioneiro do nós, o nós prisioneiro do a gente”. Um MP “é o mundo em que o eu participa livremente do nós, em que o nós é gerador de solidariedade”.

Um MO “é o mundo em que preciso me impor, conquistar um lugar ao sol, encontrar um grupo que me aceite em seu território”. Um MP “é o mundo em que sou aceito em minha singularidade assumida e que me convida a nele exercer um papel”.

Um MO “é o mundo em que me submeto à lei imposta pelos outros”. Um MP “é o mundo em que participo da elaboração da lei”.

Um MO “é o mundo em que a imagem se impõe a mim como opinião normativa”. Um MP “é o mundo em que posso contestar a opinião buscando a minha verdade”.

Um Mo “é o mundo em que a organização é percebida como dependente da ordem das coisas”. Um MP “é o mundo em que a organização é percebida como dependendo da vontade dos homens”.

Um Mo “é o mundo que está unicamente nas mãos das forças econômicas”. Um MP “é o mundo que depende da decisão política, da vontade de todos que se associam livremente e que recusam toda forma de imposição, inclusive a do mercado”.

“A Educação Ambiental, tal como tentei propor, é uma educação para a responsabilidade e para a cidadania planetária, e como tal, ela é o próprio exercício (…) do princípio de responsabilidade em relação ao futuro (…), a pedra de toque de nossa moral coletiva” – finaliza Meirieu.

MEIRIEU, Philippe. Éduquer à l’environnement: pourquoi? comment? – Du monde-objet au monde-projet
http://www.meirieu.com/ARTICLES/MONDE%20OBJET_PROJET-RTF.pdf

P. Meirieu é professor universitário em Ciências da Educação – Lumière-Lyon 2 – França. Responsável pedagógico da cadeia de televisão CAP CANAL. Dirige a coleção “Pédagogies” da ESF editor.

Imagem – http://transnet.ning.com/forum/topics/educacao-ambiental-e-a-onda

Compilação e tradução – Marly Segreto

Data: 2010.05.06 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 2

Escuta

Vários autores interessados na questão da formação do humano (R. Barbier, P. Bordieu, D. Bois, I. Gerber, etc.) vêm falando, à sua maneira, de um retorno do sensível, de um despertar para o sensível.

Em nossa vida pessoal e profissional, em atividades voluntárias e nas práticas formativas da Companhia temos percebido o valor, a importância de desenvolver e exercitar especialmente a escuta sensível (como pode ser visto em nosso FAQ).

A cada dia, percebemos o quanto esse escutar-agir, característico da escuta sensível, vai se incorporando em nós.

É claro que somos influenciados pelos esquemas de percepções, representações e ações que nos vêm da família e do grupo sócio-cultural a que pertencemos, e que podem nos levar a um conformismo inconsciente. Também é claro que os papéis e posições que assumimos em diferentes organizações nos impõem obediência à ordem estabelecida por elas, oferecendo em troca uma ilusória estabilidade.

Mas o que isso tem a ver com a escuta sensível? É que na escuta sensível nos recusamos a fixar o outro numa posição, num território, negando-lhe a abertura para outros modos de existência. Ela supõe uma inversão da atenção. Ao invés de procurar situar o outro em seu território, tratamos de reconhecê-lo em seu ser, em sua qualidade de pessoa complexa dotada de liberdade e de imaginação criativa. Desse modo, podemos aprender a sentir o seu universo afetivo, imaginário e cognitivo, para poder compreender suas atitudes e comportamentos, seus sistemas de idéias e valores, de símbolos e mitos, sua existencialidade interna.

Não é fácil… Pois quem escuta começa por não interpretar, por suspender todo julgamento, buscando sentir e compreender o sentido adicional que se manifesta na situação, e que vai além da fala, deixando-se surpreender pelo outro e pelo desconhecido.

É claro que quem escuta é também composto por sua experiência, sua formação, suas leituras, que poderão ser disponibilizadas quando necessárias, se o outro desejar. Mas não se deve perder de vista que cada experiência é única, não podendo ser reduzida a um modelo qualquer. E também é preciso estar aberto às reformulações, próprias e do outro, pois tudo pode ser retraduzido em função do contexto.

A escuta sensível parece ser, sobretudo, uma experiência meditativa. Mas, não aquela que pode levar a um transe místico, a um êxtase exuberante. E sim, simplesmente, a experiência de estar presente no que acontece, aqui e agora, no menor gesto, na menor atividade. Nela, há uma suspensão não só de toda teoria e conceitualização, mas também de toda representação imaginária do mundo, e inclusive do desejo de fazer algo.

Quando nos encontramos nesse estado meditativo – de presença em si, de esvaziamento e atenção – nossa consciência não está dispersa, nos encontramos em um outro nível de percepção. É por isso que a escuta sensível fica mais fina, mais aprimorada. E passa a ser uma escuta-ação espontânea, atuando até mesmo sem o pensamento. E a ação é imediata, adaptando-se e respondendo muito melhor ao que se apresenta, em benefício de todos.

Fonte: BARBIER, René. “Las nociones-bifurcaciones en la investigación-ación”, em cuadernos Visión Docente Con-Ciencia, Puerto Vallarda: C. E. U. Arkos, Ano VIII, nº 45, nov-dez 2008, p. 05-20.

Marly Segreto

Data: 2010.04.21 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 3

CARTAS VIAJANTES CARTOGRAFIAS

Norrin RoadCartas

“… toda viagem destina-se a ultrapassar fronteiras, tanto dissolvendo-as como recriando-as. Ao mesmo tempo em que demarca diferenças, singularidades ou alteridades, demarca semelhanças, continuidades, ressonâncias. Tanto singulariza como universaliza… Sob vários aspectos, a viagem desvenda alteridades, recria identidades e descortina pluralidades.” (1)

“O homem que viaja geralmente opera segundo linhas geográficas, dedicando-se a espacializar, a ampliar cada vez mais os horizontes. Vistas como processo de desenraizamento, construção de uma nova cartografia e circulação intermitente, as viagens constituem os sujeitos. Duas figurações nelas se destacam: o viajante e o estrangeiro, duas faces de uma só moeda: sujeitos que se deslocam, que mudam de lugar, de paisagens. (2)

“… o viajante se desenraíza, solta, liberta. Pode lançar-se pelos caminhos e pela imaginação, atravessar fronteiras e dissolver barreiras, inventar diferenças e imaginar similaridades. A sua imaginação voa longe, defronta-se com o desconhecido, que pode ser exótico, surpreendente, maravilhoso, ou insólito, absurdo, terrificante, tanto se perde como se encontra, ao mesmo tempo se reafirma e modifica. No curso da viagem há sempre alguma transfiguração, de tal modo que aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa”. (1)

Foi Deleuze que introduziu a idéia da cartografia como uma prática do conhecer, referindo-se ao traçado de mapas processuais de um território existencial. O território pode ser tanto o espaço vivido, como um sistema no qual o viajante se sente “em casa”. Mas o território pode se desterritorializar, abrir-se em linhas de fuga, mudar o seu curso.

Então, o cartógrafo tem que estar aberto ao que acontece, agenciando-se, experimentando, atento aos movimentos e às necessidades que surgem, estabelecendo a conexão viajante-mundo, no presente. A cartografia é um método em processo de criação, que se inventa enquanto caminha. Não se trata de desenhar um mapa fixo ou histórico, mas de perceber as relações, as forças em movimento, enquanto acontecem. E de perceber as forças que constituem e desfazem as formas subjetivas, continuamente em formação. O desafio do cartógrafo será sempre o de entrar pela forma e direcionar-se para as forças que a constituem, algo parecido com o processo de criação na arte.

Imagem: NORRIN ROAD

(1) IANNI. Revista de Cultura Vozes, p. 3 e 19

(2) OLIVEIRA. De viagens e de viajantes, p. 12

Marly Segreto

Data: 2010.04.20 | Categoria: Notícias, Trans | Comentário: 0

UA Comunidade CETRANS

Nossa companheira Adriana Caccuri apresentará alguns enfoques de sua dissertação de Mestrado MULTIPLICIDADES. A partir de sua pesquisa sobre a investigação da aplicabilidade do conceito de Multiplicidade, de Deleuze e Guattari, especificamente a da figura 3: livro rizoma, ela elaborou um livro-objeto de arte em suas variações, onde procurou soluções para o desenho e para o discurso.

Se você é interessado em Arte, Design ou processos de criação está convidado a assistir este projeto de vanguarda e abordagem transdisciplinar.

Data: 2010.04.09 | Categoria: Diálogos - PONTO EM QUESTÃO, Trans | Comentário: 3

“A CONTRADIÇÃO É A TEXTURA DO UNIVERSO”

    stephanelupasco Essa é a idéia central do pensamento de Lupasco, diz Basarab Nicolescu, ao falar dos impactos da filosofia do 3º incluído de Stéphane Lupasco (1900-1988) na entrevista feita por JL ML para Ouvertures, por ocasião do colóquio internacional “À la confluence de deux cultures: Lupasco aujourd’hui” [Na confluência de duas culturas: Lupasco hoje], realizado em 24 de março de 2010.

    Destacamos algumas respostas dadas por Nicolescu nessa entrevista:

    (…) Tudo o que está no mundo, e não somente o que está em nosso pensamento ou em nossas proposições, resulta de uma tensão entre os contraditórios.

    (…) O mundo não é uma unidade fusional e harmoniosa de tipo Parmênides, mas uma unidade de tipo Heráclito, na qual a tensão é constitutiva das coisas. Há sempre um terceiro (o terceiro incluído) entre as coisas e eventos opostos que permite considerá-los simultaneamente, mesmo que eles sejam inconciliáveis (salvo, é o que acrescento pessoalmente, em outros níveis de realidade). Um exemplo célebre é a dualidade onda-corpúsculo, que é um dos fundamentos da mecânica quântica…

    (…) A mecânica quântica não utiliza esse termo [3º incluído]: ela parte do “princípio de superposição”. Muitos homens de ciência admitem essa realidade provada sem poder verdadeiramente representá-la. Na física clássica, há ou sim, ou não; ou um elétron vai para a direita, ou para a esquerda, não os dois ao mesmo tempo. Em mecânica quântica, sim e não devem ser pensados juntos.

    O que os cientistas tiveram dificuldade em aceitar foi a ampliação dessa estranha constatação aos níveis da psicologia, da história, da política ou da sociedade.

    Um pensador como Edgar Morin, com sua teoria da complexidade, apreendeu bem a dimensão do pensamento de Lupasco, que coloca a contradição no centro das coisas.

    Ele oferece alguns exemplos concretos de aplicação do 3º incluído:

    (…) no universo social, a questão dos conflitos que nos perturbam, seja no meio escolar ou no plano político-religioso. A mediação é a busca desse terceiro a ser incluído entre dois pensamentos que se opõem para se ter acesso a um outro nível de realidade em que o compromisso seja possível.

    (…) em política, pode-se fazer viver o terceiro incluído: o que é de interesse da nação, por exemplo, pode favorecer a ultrapassagem das convicções partidárias. Ou a feminilização dos postos de alta responsabilidade.

    Ele utiliza a palavra “feminilização” no sentido metafórico e simbólico, e não no sentido de gênero, mas da abertura (em todos!) para os valores geralmente sustentados pelas mulheres.

    Lembrando o sketch de Raymond Devos – em que um homem tenta a todo custo separar a duas extremidades de um bastão cortando-o várias vezes – ele diz: Entre as duas extremidades, haverá sempre o terceiro, infinitamente incluído.

    O 3º incluído também pode ser pensado na estética, na arte em geral e na espiritualidade. Mas não numa espiritualidade atrelada às religiões: trata-se de uma espiritualidade laica, livre em sua busca do terceiro incluído entre mim e o mundo, e que pode nos reconciliar. (…) uma espiritualidade sem dogma.

    Esse pensamento, que é complexo, poderia ser ensinado de modo simples?

    Sim, isso é feito mesmo sem saber, com os contos de fadas ou com os oxímoros, nos quais os opostos aparecem juntos. As crianças aceitam isso sem nenhum problema. Elas não têm o espírito esclerosado pelo pensamento binário, que é um pensamento de exclusão. Efetivamente, quando se exclui o outro, não se exclui somente o outro exterior, mas também o outro que está dentro de nós e o terceiro que faz a ponte entre o outro e nós.

      basarabBasarab Nicolescu é Físico, presidente-fundador do Centre International de Recherches et Études Transdisciplinaires (CIRET) e co-fundador do Groupe de Réflexion sur la Transdisciplinarité junto à UNESCO.

      Tradução: Marly Segreto

Data: 2010.04.09 | Categoria: Companheiros de Aprendizagem, Notícias, Trans | Comentário: 0

Estendemos este convite a todos os Companheiros de Aprendizagem!

Gialógos TRANSD  Amancio Friaca

Sobre o Tema

A Vida no Universo: A Astrobiologia, Geradora de Transdisciplinaridade

A astrobiologia é um novo campo de conhecimento que trata da origem, distribuição e futuro da vida no Universo. Ela ganha rapidamente a atenção dos cientistas e do público. O apelo da astrobiologia é devido às questões fundamentais colocas: o que é a vida? Como surgiu a vida? Estamos sós no Universo? Qual será o futuro da vida na Terra e além? A astrobiologia já nasce como um empreendimento transdisciplinar, ao criar um ambiente de indagação com pesquisadores originários de vários campos do saber. Ela tem uma capacidade prodigiosa de integrar várias ciências, graças às suas questões profundas, que ignoram fronteiras disciplinares.

Sobre o Palestrante Amâncio Friaça

Astrofisico, professor associado do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. Pesquisador nas áreas de Cosmologia, Astrobiologia e Transdisciplinaridade. Organizador e co-autor do livro “Astronomia: uma visão do Universo”, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti – 2001 na categoria “Melhor Livro de Ciências Exatas, Tecnologia e Informática.”. Organizador e co-autor do livro “Educação e Transdisciplinaridade”. Organizador de várias escolas e congressos científicos, entre eles o “First Brazilian Workshop on Astrobiology e a “XV IAG/USP Advanced School on Astrophysics “From Galaxy to Life”.

Data: 2010.03.30 | Categoria: Diálogos - PONTO EM QUESTÃO, Trans | Comentário: 4

Um simples detalhe – sem importância aparente em meio à intensa e rica variedade de experiências vividas no II Encontro de Membros do CETRANS – teimou em voltar à minha mente numa nítida imagem: na porta de entrada do Celeiro, local designado para nossas reflexões sobre o 3º incluído e o Sagrado, via-se chinelos e pantufas, de diferentes formas e cores, espalhados pelo chão como um convite-pedido para deixarmos nossos sapatos do lado de fora.
Não houve estranhamento, mesmo não sendo um costume ocidental, pois essa prática já vem sendo encontrada em vários espaços, geralmente terapêuticos e/ou dedicados a práticas meditativas e espirituais orientais.
Mas então por que essa imagem ficou tão presente? O que esse simples gesto de descalçar os sapatos para entrar no recinto estava querendo dizer?
Comecei a lembrar das diferentes acepções simbólicas dos sapatos, que poderiam clarear o sentido do que trazemos em nossos sapatos e do que é deixado de fora quando os descalçamos.

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Por um lado, o uso dos sapatos tem uma função a ser reconhecida em nossa relação com os outros e com o mundo:

Protegendo os pés na caminhada, os sapatos podem ser associados ao viajante, em sua marcha por caminhos pedregosos e espinhosos, sendo necessários para que ele alcance a sua meta com a convicção de ter os meios para prosseguir em seu caminho. Sendo a parte do vestuário que está mais próxima ao chão, os sapatos estão ligados à nossa base de sustentação material e à nossa relação com a realidade física, psíquica e sócio-cultural. Podemos sentir que estamos “bem calçados” em certas dimensões e “mal calçados” em outras.
É interessante notar a vinculação do sapato a uma prova de identidade, como no conto Cinderela: ela é reconhecida pelo príncipe porque o sapatinho de cristal perdido no baile coube em seu pé. Havia também uma prática antiga em que se entregava um pé de sapato ao outro como garantia de um acordo ou de uma dívida, sendo um sinal de compromisso.
Mas os sapatos também podem indicar uma relação de poder, seja como afirmação egocêntrica, seja pela posição sócio-econômica. Na antiguidade, somente os escravos andavam descalços e o uso dos sapatos mostrava a condição de liberto, de cidadão. Parece que atualmente isso não mudou muito, pois os descalçados, ou mal calçados, ainda são considerados inferiores, sendo “pisados pelas botas dos poderosos”. Quanto mal pode fazer o uso de uma concepção dos sapatos no sentido da separação!

Por outro lado, há uma situação especial em que os sapatos são vistos como algo a ser removido:

“Tira os sapatos dos teus pés porque o lugar onde estás é terra santa” (Ex 3.5). Para o Antigo Testamento, Budismo, Islamismo, etc., a sola dos sapatos traz a sujeira e a impureza, que devem ser deixadas de fora ao se adentrar o templo. Bem mais do que uma medida higiênica, trata-se de uma atitude de respeito, reverência e receptividade diante do Sagrado. Descalçar os sapatos em termos iniciáticos significa um esvaziamento mental e emocional, deixando lá fora as questões existenciais cotidianas, e, nesse despojamento, poder constituir a taça vazia, aberta à revelação.

Mas estávamos no Celeiro (lugar de armazenamento de grãos, de provisões) e não num templo, mesmo que ele contivesse vários objetos rituais e o Sagrado fosse um dos temas em pauta. Não estou querendo dizer que o Sagrado não pudesse estar presente, e sim que podemos ter atitudes diferentes quando estamos num templo (espaço sagrado) e quando estamos em outro espaço (profano). Não é esta a separação maior que buscamos reunir, religar? Para isso, é de fundamental importância aprender a localizar o nível de realidade em que nos encontramos quando nos dirigimos uns aos outros, sem esquecer que o 3º incluído está estreitamente ligado aos níveis de realidade. Grande desafio! Creio que uma atitude de humildade, afetividade (afetando e se deixando afetar) e amorosidade diante das nossas inevitáveis contradições pode ser de grande auxílio nesse propósito.

Lembrei-me, então, do artigo Os sete sapatos sujos de Mia Couto, escritor moçambicano, em que ele procura responder à questão: O que nos separa do futuro que queremos? Diz ele:

(…) Estamos todos nós estreando um combate interno para domesticar os nossos antigos fantasmas. Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico.

1. a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas
2. a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho
3. o preconceito de que quem critica é um inimigo
4. a ideia que mudar as palavras muda a realidade
5. a vergonha de ser pobre e o culto das aparências
6. a passividade perante a injustiça
7. a ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros

Ele termina dizendo:

(…) Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós. (…) É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os setes mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva. Porque a verdade é uma: antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.

Quantos sapatos ainda teremos que descalçar?

Foto: encontrada na Internet, desconheço o autor.

Marly Segreto

Data: 2010.03.25 | Categoria: Agenciamento, Diálogos - PONTO EM QUESTÃO, Trans | Comentário: 12

Tenho partilhado algumas trocas com pessoas que participaram do II Encontro de Membros, com textos que dialogam com o que lá vivenciamos, com experiências cotidianas que vão discernindo, aprofudando, multiplicando, o material cognitivo e os processos lá potencializados – os agradáveis e os não, mas todos valiosos e necessários.

Neste processo de cognição viva, como diz Hélène, no seu livro A linguagem do vivente, trago para cá algumas questões que ela levanta quando escreve sobre as leis do Vivente, e que para mim soaram como ecos do Encontro:

- Como reconhecer o sentido do sagrado, sem intermediários, ou seja, indo lá onde ele se encontra a cada instante?
Monica O. Simons - Janela mágica da Casa Azul - Fazend

- Como aceitar o mistério do vivente e renunciar a utilizar “próteses” para escapar aos medos que não ousamos nomear?

- Que meios escolher para permanecermos vigilantes sem nos desencorajar para receber este presente da vida que é a lucidez?

- Como se afastar do desejo de controlar, como entrar em relação de reciprocidade e se engajar numa participação responsável? “

A linguagem do Vivente – uma voz, uma via adormecida?
Hélène Trocme-Fabre, TRIOM, 2009.

TCris