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Data: 2010.09.03 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 1

desaprender
Muita coisa aprendi
No decurso da minha vida
Mas só no fim da vida
Aprendi a arte dificílima
De desaprender…
Desaprender os erros sem conta
Que os sentidos percebem
Na sua erudita ignorância…
Aprendera ele que os fatos externos
São a própria Realidade.
Aprendera que este mundo
Que os sentidos percebem
E o intelecto concebe,
São a realíssima
E única Realidade…
E por largos anos
Andei escravizado por essa ilusão.
Pois, que admira?
Se, por tantos séculos e milênios,
Dormira a humanidade nas trevas,
Como poderia eu, em poucos decênios,
Despertar para a luz?
Até que, finalmente, descobri
A Realidade para além das facticidades,
A alma do eterno Ser
No corpo desse efêmero parecer.
Hoje sei que os fatos são meros reflexos
No espelho bidimensional de tempo e espaço,
Reflexos da Realidade,
Que está em sentido oposto
A esses fatos refletidos
No espelho de tempo e espaço.

Mas só Deus sabe quanto esforço,
Quantos sofrimentos,
E quanta agonia me custou
Essa nova atitude,
Essa meia-volta que tive de dar
Ante o espelho do mundo das velhas ilusões,
Para enxergar o novo mundo da verdade!
Esse movimento de 180 graus,
Que dei em face do refletor,
Essa conversão dos conhecidos finitos
Para o desconhecido Infinito
Me custou o holocausto do meu ego,
Esse sangrento egocídio,
Que a verdade me exigiu.

Mas agora, de costas para os fatos
E de rosto para a Realidade,
Me sinto grandemente liberto
E jubilosamente feliz
E, em vez de amar o mundo sem Deus,
Amo o mundo em Deus
Porque vejo em cada fato efêmero
O reflexo da Realidade eterna.

(Huberto Rohden – Escalando o Himalaia – Ed. Martin Claret)

Huberto Rohden (1893 – 1981) filósofo, educador e teólogo catarinense, radicado em S. Paulo. Padre jesuíta durante o início da carreira literária, escreveu mais de 100 obras enfatizando o autoconhecimento, a autoeducação e a autorealização. Graduou-se em Ciências, Filosofia e Teologia pelas Universidades de Innsbruck (Áustria), Valkenburg (Holanda) e Nápoles (Itália). Fundador da Instituição Cultural e Beneficente Alvorada (1952), lecionou na Universidade de Princeton e na American University (EUA), e na Universidade Mackenzie (SP).

Imagem obtida em: http://reserva-literaria.blogspot.com

Data: 2010.08.04 | Categoria: Diálogos, Para refletir..., Trans | Comentário: 1

pena escrevendo Certo dia, uma formiga que caminhava perdida sobre uma folha de papel viu uma pena que escrevia em finos e negros movimentos ritmados.

— Que maravilha! – exclamou. — Essa coisa notável possui vida própria! E faz rabiscos tão extensos e com tanta energia nesta bela superfície que chega a se igualar aos esforços de todas as formigas do mundo. Os rabiscos que faz! Parecem formigas! Não uma, mas milhões de formigas correndo juntas!

Ela repetiu suas idéias para uma companheira, que ficou interessada em sua história e elogiou seus poderes de observação e reflexão. Mas outra formiga disse:

— Aproveitando-me de seus esforços, devo admiti-lo, tenho observado esse estranho objeto e cheguei à conclusão de que ele não é o dono de seu próprio trabalho. Você falhou em observar que a pena está ligada a outros objetos que a rodeiam e conduzem. Estes devem ser considerados como a origem de seu movimento e reconhecidos como tal.

Desse modo as formigas descobriram os dedos.

Passado algum tempo, outra formiga escalou os dedos e percebeu que eles compreendiam a mão, que ela explorou total e minuciosamente, ao estilo da sua espécie. Voltou então para junto de suas companheiras e gritou-lhes:

— Formigas! Tenho importantes notícias para vocês. Aqueles pequenos objetos que rodeiam a pena fazem parte de outro muito maior. E este é que realmente dá movimento a todos eles.

Mas então as formigas descobriram que a mão estava ligada a um braço; que o braço estava ligado a um corpo; que não existia uma, e sim duas mãos; e que existiam pés, que não escreviam.

As investigações prosseguiram e, assim, as formigas puderam formar uma idéia clara da mecânica da escrita. Porém, através de seu método de investigação costumeiro, não conseguiram descobrir o sentido e a intenção do que estava escrito, nem como aquilo era, em última análise, governado.

Idries Shah, Caravan of Dreams. London, Octagon Press, 1991
Citado por Mônica Cavalcante Lepri – As “idéias vivas” de Gregory Bateson, em Ciência Hoje, vol. 38, nº. 228, julho/2006, p. 19.

Esta pequena história me pareceu exemplificar, de uma maneira simples e metafórica, a incompletude de nosso conhecimento. Sempre vamos nos defrontar com algo não percebido, não considerado, não sabido… que impulsiona a continuidade do processo de descoberta.

Ela também nos fala que o conhecimento das partes não pode ser conclusivo sem o conhecimento do todo, e vice versa, exigindo o desenvolvimento de um pensamento complexo, transdisciplinar, que leva em conta a interdependência de todos os fatores, o seu sentido e contexto, o “padrão que liga”, como diz Gregory Bateson.

Aliás, as idéias de Bateson merecem vários posts, por sua abrangência e originalidade. Aguardem…

Marly Segreto

Data: 2010.07.24 | Categoria: Diálogos, Para refletir..., Trans | Comentário: 0

O primeiro contato que tive com Louis Lavelle foi através de uma citação num artigo de P. Galvani (1), que vem conduzindo nossas reflexões sobre o processo de autoformação desde o início da Companhia. Eu havia ficado impressionada com a profundadidade de seu pensamento. E, por esses “acasos” que acontecem, chegou em minhas mãos um livro de Lavelle, do qual traduzo um trecho para compartilhar com vocês.

espelho  1  1

Conhecimento de si e do outro

“Ser é sempre mais que conhecer. Pois o conhecimento é um espetáculo que nós apresentamos a nós mesmos. Também, não há nada que seja mais desconhecido do que o ser que nós somos; nós não chegaremos alguma vez a abandonar nossa imagem. Num certo sentido, posso dizer que todo homem sabe mais de mim do que eu mesmo: mas isso não é para ele uma vantagem. Pois não é preciso saber com muita exatidão o que se é para ser de fato aquele que se é.

É natural que eu conheça melhor os outros que a mim mesmo, já que estou bem ocupado em me construir. E é por isso que há tanta presunção, falsa aparência e perda de tempo nesse cuidado com que eu me considero, que me atrasa quando me é preciso agir; eu devo abandoná-lo ao outro que não tem, de modo algum, o encargo direto do que virei a ser e que, inversamente a mim, interessa-se mais por meu ser realizado do que pelo ato que o realiza. Ele só vê em mim o homem manifestado, aquele que se distingue de todos os outros por seu caráter e por suas fraquezas, e não o homem que eu desejo ser e que procura sempre ultrapassar sua natureza e curar suas imperfeições. Eu experimento em mim, indefinidamente, a presença de uma potência que ainda não foi empregada, de uma esperança que ainda não foi frustrada. Um outro somente observa em mim o ser que eu posso mostrar, e eu, o ser que não mostrarei jamais. Inversamente ao que ele faz, eu tenho sempre os olhos fixados sobre o que eu não sou, bem mais do que sobre o que eu sou, sobre o meu ideal mais do que sobre meu estado, sobre a realização de meus desejos mais do que sobre a distância que me separa deles.

O mal-entendido que reina entre os homens provém sempre da perspectiva diferente pela qual cada um se vê e vê o outro. Pois cada um só vê em si mesmo as suas potencialidades e só vê no outro as suas ações. E o crédito que dá a si mesmo, recusa ao outro. Uma afinidade começa a uni-los a partir do momento em que ambos, ultrapassando o que podem mostrar, entram nessa confiança mútua, que já é uma muda cooperação.

Mas o egoísmo produz uma cegueira que, no momento em que descubro em mim um ser que sente, que pensa e que age, só deixa aparecer aos outros os objetos que devo descrever ou os instrumentos de que pude me servir. Não é preciso, então, ficar espantado pelo fato de que aquele que conhece todas as coisas em si não conheça a si mesmo, nem mesmo que, devido ao sentido contrário, cada um permaneça desconhecido ao mesmo tempo para si mesmo e pelos outros.

O mais difícil em nossas relações com os outros seres, é aquilo que parece ser talvez o mais simples: reconhecer essa existência própria, que os faz semelhantes a nós e, no entanto, diferente de nós, essa presença neles de uma individualidade única e insubstituível, de uma iniciativa e de uma liberdade, de uma vocação que lhes pertence e que nós devemos ajudá-los a realizar, ao invés de nos mostrar ressentidos, ou tentar curvá-los para conformá-los à nossa. Para nós, essa é a primeira palavra da caridade, e pode talvez ser também a última.”

LAVELLE, Louis. L’erreur de Narcisse, Paris: La Table Ronde, 2003.

L. Lavelle (1883-1951) – Filósofo francês, foi professor no College de France a na Sorbonne, membro da Academie des Sciences Morales et Politiques, sua principal obra é La Dialectique de l’éternel présent, em 4 volumes.

(1) GALVANI, P. “Autoformação, uma perspectiva transpessoal, transdisciplinar e transcultural”, em Educação e Transdisciplinaridade II, Coord. Exec. CETRANS, São Paulo: Triom, 2002, p. 101-102.

Imagem: Espelho. http://assisbrasil.org/joao/elvio.htm

Marly Segreto

Data: 2010.07.16 | Categoria: Agenciamento, Projetos 2010, Trans | Comentário: 0

O HOMEM QUE CORRE… QUE CORRE… O HOMEM

Mal  vitch. L homme qui court 1

Trinta quadrados fazem cantar as cores:
vinte para representar o céu
e dez para representar a terra.

Casa branca, teto vermelho,
casa vermelha, teto preto.
Cruz vermelha, cruz branca:
um crucifixo plantado na terra?
Uma espada ensanguentada?
Signos erigidos, fixados,
ferindo o azul do céu,
apoiados no horizonte.

O horizonte, como uma esteira rolante
de faixas que desfilam,
vermelho contra negro,
negro contra verde,
branco contra amarelo…

Cores pisoteadas,
com grandes passos,
um homem de torso verde,
um homem sem rosto
passa a fronteira do céu.

O infinito se estende diante dele.
É “O homem que corre”
de Casemir Malévitch.

Richard Nicolas

Malevitch. capaMalevitch.contracapaMalevitch.quebra cabe  a 1 2 3

Obras de Malevitch na Internet:

http://www.artchive.com/artchive/M/malevich.html

http://www.artcyclopedia.com/artists/malevich_kasimir.html

Adriana Caccuri

Data: 2010.07.13 | Categoria: Agenciamento, Projetos 2010, Trans | Comentário: 4

A CRUZ E SEUS SENTIDOS

cruz florida passoapasso.weblog.com.pt

Em todos os Encontros da Companhia de Aprendizagem adotamos uma imagem simbólica, que mobiliza o entrecruzamento das dimensões do sentido – como orientação, significado e sensibilidade – do que estamos produzindo juntos. Desta vez, emergiu a imagem da Cruz, que nos fez batizar o morro em que nos reunimos no 1º dia de Morro da Cruz.

A presença da cruz é visível na natureza: no ser humano de braços abertos, no vôo dos pássaros… e nas construções humanas: no mastro do navio; no desenho das ruas, avenidas e praças das cidades; no recorte, ordenação e medida dos espaços sagrados, como os templos…

Longe de pertencer exclusivamente ao cristianismo, a cruz é um símbolo que aparece sob formas diversas (e com uma pluralidade de sentidos, como todos os símbolos), em quase toda parte do mundo (Egito, China, Creta…), desde épocas bem remotas.

A tradição cristã enriqueceu o simbolismo da cruz, condensando nessa imagem a história da paixão e da salvação do Cristo. Ela simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Havendo uma distinção entre a cruz do patíbulo e a Cruz Gloriosa, signo do Cristo Ressuscitado (1).

Juntamente com o centro, o círculo e o quadrado, a Cruz é um dos quatro símbolos fundamentais, estabelecendo uma estreita relação com os outros três: “pela intersecção de suas duas linhas retas, que coincide com o centro, ela abre o centro para o exterior; inscreve-se no círculo, que divide em quatro segmentos; engendra o quadrado e o triângulo, quando suas extremidades são ligadas por quatro linhas retas” (2).

A Cruz associa-se à simbólica do quaternário, representando-o em seu aspecto “dinâmico”, enquanto o quadrado representa-o em seu aspecto “estático” (3). A correspondência com o quaternário ilustra a repartição dos quatro elementos: ar, terra, fogo, água, e de suas qualidades tradicionais: quente, seco, úmido e frio (1).

Apontando para os quatro pontos cardeais, a Cruz é a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem, cuja orientação total exige um triplo acordo: do sujeito em relação a si mesmo; do espaço em relação aos pontos cardeais terrestres; do tempo em relação aos movimentos dos astros (2).

A cruz apresenta, ainda, o caráter de símbolo ascensional, sendo análoga à Árvore da Vida, à ponte e à escada.

Nela se juntam o céu e a terra… Nela se confundem o tempo e o espaço… Ela é o cordão umbilical, jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. De todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. Ela é o símbolo do intermediário, do mediador, daquele que é, por natureza, reunião permanente do universo e comunicação terra-céu, de cima para baixo e de baixo para cima (2).

René Guénon estabelece uma interessante relação entre o simbolismo do Tecido e da Cruz:

Para melhor compreender o significado deste simbolismo, é preciso lembrar primeiramente que o urdume, formado por fios esticados sobre o tear, representa o elemento imutável e principial, enquanto que os fios da trama, passando em meio ao urdume pelo vaivém da navete, representam o elemento variável e contingente, ou seja, as aplicações do princípio a tais ou quais condições particulares. Por outro lado, se considerarmos um fio do urdume e outro da trama, perceberemos imediatamente que seu cruzamento forma uma cruz, da qual eles são respectivamente a linha vertical e a horizontal; e todo ponto do tecido, sendo assim o ponto de encontro de dois fios perpendiculares entre si, é por isso mesmo o centro de uma tal cruz. Ora, (…) a linha vertical representa aquilo que une entre si todos os estados de um ser ou todos os graus da Existência, religando seus pontos correspondentes, enquanto que a linha horizontal representa o desenvolvimento de um destes estados ou de um destes graus. (…) podemos dizer que o sentido horizontal figurará, por exemplo, o estado humano, e o sentido vertical o que é transcendente em relação a este estado… (4)

Para Guénon, o símbolo da cruz é uma união dos contrários…

Marly Segreto

(1) Cirlot, Juan-Eduardo. Diccionario de símbolos. Barcelona: Labor, 5ª ed., 1982, p. 154-156.
(2) Chevalier, J. & Gheerbrandt, A. Dicionário de Símbolos. 15º ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000, p. 309-317.
(3) Guénon, René. Os símbolos da ciência sagrada. São Paulo: Pensamento, 9ª ed., 1993. p. 354, nota 4.
(4) capítulo  XIV  de Guénon, R. Le Symbolisme de la Croix – “O simbolismo do tecido” (Les Éditions Vêga, Paris 1983)

http://www.reneguenon.net/guenontextostecido.html

Foto: cruz florida – passoapasso.weblog.com.pt

Data: 2010.07.11 | Categoria: Cenários, Projetos 2010, Trans | Comentário: 0

        AS MONTANHASDSCN7665

        Se as montanhas falassem
        Elas se calariam

        A força que há nelas
        é do silêncio… sendo
        é da constância… sendo

        Sem este silêncio não me escuto, escutando
        Me escuto pelo silêncio, silenciando

        Entre o silêncio e a fala: a constância

        DSCN7625

      Adriana Caccuri – poema e fotos

Data: 2010.06.14 | Categoria: Agenciamento, Itinerância, Trans | Comentário: 0

Em clima de Copa do Mundo, partilho aqui um link que me foi enviado pela Vera Laporta, muito interessante, sobre o universo linguístico, simbólico, além de outras dimensões da realidade externa e aparentemente concreta.

Trata-se principalmente de resgatar o contexto filosófico-linguístico de onde surge a expressão Ubuntu, agora se popularizando na mídia, em função da Copa do Mundo na Africa do Sul.

Spectrum   Greg Spalenka -http://spalenka.com/transfer/

(,,,) “Para melhor compreensão do Nommo na cultura Bantu, podemos acrescentar os conceitos de totalidade e de Ubuntu das línguas Bantu (FOSTER, 2006), (NGOENHA, 2006). A noção de totalidade é uma importante no mundo bantu. A totalidade de toda a existência seja material, espiritual e humana. A totalidade é um aspecto preponderante do cosmo. A totalidade pode ser descoberta em todas as esferas da visão de mundo das sociedades bantu. Na criação do universo o criador fez como que tudo que existe tivesse uma relação, esta relação possui uma dinâmica de transformação, podendo ser alterada pelos Muntu, visíveis e invisíveis. A noção de totalidade é semelhante a noção de sistema na matemática atual ocidental, onde seria um conjunto completo de tudo que existe e das relações passiveis entre eles. O criador realizou a criação ou continua realizado tendo como fator importante a harmonia e o equilíbrio. Entretanto a harmonia e equilíbrio são variáveis, existe a necessidade de atos dos Bantu (pessoas visíveis e invisíveis) para preservação ou constante restabelecimento da harmonia e do equilíbrio.

Na sociedade o Ubuntu representa a existência respeitosa e equilibrada entre os seres da natureza. No Ubuntu repousa a comunidade e suas relações sócias baseadas na tradição, na ética social e no reconhecimento de todos como indispensáveis. A identidade e a personalidade dos indivíduos é parte do Ubuntu. Este Ubuntu é a aplicação do conceituo de totalidade as relações humanas e as sociedades existentes. O Nommo tem haver com a preservação da harmonia.

1- Dado o preâmbulo da forma terminamos aqui como começamos.

Na raiz filosófica africana denominada de Bantu, o termo NTU designa a parte essencial de tudo que existe e tudo que nos é dado a conhecer à existência. O Muntu é a pessoa, constituída pelo corpo, mente, cultura e principalmente, pela palavra. A palavra com um fio condutor da sua própria história, do seu próprio conhecimento da existência. A população, a comunidade é expressa pela palavra Bantu. A comunidade é histórica, é uma reunião de palavras, como suas existências. No Ubuntu, temos a existência definida pela existência de outras existências. Eu, nós, existimos porque você e os outros existem; tem um sentido colaborativo da existência humana. Neste texto demos uma possibilidade de introdução a cultura e a filosofia das sociedades Bantu. “

Confira o artigo NTU de Henrique Cunha Júnior

Abraços
TCris

Data: 2010.05.30 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 1

organic cosmos

Sob o ponto de vista sistêmico, o dinamismo é inerente aos organismos vivos, cujas formas visíveis são “manifestações estáveis de processos subjacentes”. A compatibilidade entre os processos e as manifestações estáveis acontece quando “os processos formam modelos rítmicos – flutuações, oscilações, vibrações, ondas. Na dinâmica da auto-organzação, as flutuações são decisivas, por ser a base da ordem no mundo vivo: as estruturas ordenadas resultam de modelos rítmicos”.

A manifestação de modelos rítmicos pode ser encontrada em todos os níveis, do micro ao macrocosmo: desde os átomos que “são modelos probabilísticos”, passando pelas moléculas que “são estruturas vibratórias”, até os organismos que são modelos de flutuações “multidimensionais e interdependentes”. Ciclos de atividade e repouso, com funções que oscilam em ritmos periódicos são característicos tanto das plantas, como dos animais e dos seres humanos. “Os componentes dos ecossistemas estão interligados através de trocas cíclicas de matéria e energia, as civilizações ascendem e caem em ciclos evolutivos, e o planeta como um todo tem seus ritmos e recorrências enquanto gira em torno de seu eixo e se move ao redor do sol”.

As diferentes formas de agir e de estar no mundo são também a expressão de modelos rítmicos. “A manifestação de uma identidade pessoal única é uma importante característica dos humanos, e parece que essa identidade pode ser essencialmente uma identidade de ritmo”. Cada um de nós pode ser reconhecido pelo modo de falar, respirar, movimentar o corpo, pelos gestos que nos são peculiares, todos eles representando diferentes tipos de modelos rítmicos. Mas também existem ritmos “fixos” como, por exemplo, as impressões digitais e a caligrafia, que identificam um único indivíduo. Os modelos rítmicos que caracterizam um ser humano em sua individualidade “são diferentes manifestações do mesmo ritmo pessoal, uma pulsação interior, que é a essência da identidade pessoal”.

O ritmo tem um papel fundamental tanto na auto-organização e auto-expressão, como na percepção sensorial e na comunicação. “Quando enxergamos, nosso cérebro transforma as vibrações da luz em pulsações rítmicas dos seus neurônios. Transformações semelhantes de modelos rítmicos ocorrem no processo auditivo, e até a percepção do odor parece estar baseada em frequências que envolvem ritmos. A noção cartesiana de objetos separados e nossa experiência com máquinas fotográficas levaram-nos a supor que nossos sentidos criam alguma espécie de imagem interna que é uma reprodução fiel da realidade. Mas não é assim que a percepção sensorial funciona”. É o nosso mundo de signos, conceitos e idéias que atribui às imagens a condição de objetos separados. “A realidade à nossa volta é uma contínua dança rítmica”, e nossos sentidos só conseguem traduzir algumas de suas vibrações de acordo com as frequências que o nosso cérebro está sendo capaz de processar.

Assim como no processo perceptivo, o ritmo tem um importante papel nos diferentes modos de comunicação e de interação dos seres vivos. Na comunicação humana há uma sincronização e uma interligação de ritmos individuais. “Toda conversação envolve uma dança sutil” (em sua maior parte invisível, ou não percebida quando não se está atento a isso) na qual se dá uma sincronização entre: o que e como se fala, os mínimos movimentos corporais de quem fala e os movimentos correspondentes de quem ouve. Todos os envolvidos na conversação “estão entrelaçados numa sequência intrincada e precisamente sincronizada de movimentos rítmicos, que dura enquanto eles permanecem atentos e envolvidos em sua conversa”.

É possível relacionar essa dança sutil da conversação com o que diz Humberto Maturana em relação à linguagem:

A linguagem como fenômeno, como um operar do observador, não ocorre na cabeça nem consiste num conjunto de regras, mas ocorre no espaço de relações e pertence ao âmbito das coordenações de ações, como um modo de fluir nelas. Se minha estrutura muda, muda meu modo de estar em relação com os demais e, portanto, muda meu linguajar. Se muda meu linguajar, muda o espaço do linguajeio no qual estou e mudam as interações das quais participo com meu linguajeio .

Daí a importância de reconhecermos que os processos de aprendizagem, de desenvolvimento e de evolução são expressões de processos de autotransformação e de autotranscendência. Pois os seres vivos trazem em si, potencialmente, a capacidade de superar a si mesmos, criando novas estruturas, novos comportamentos, novas formas de interagir. E é justamente essa auto-superação criativa em busca do novo que, em seu devido tempo, leva a um desdobramento ordenado da complexidade, que parece ser uma propriedade fundamental da vida, uma característica básica da dança do universo.

“Quem dança
Não é quem levanta poeira
Quem dança
é quem reinventa o chão”

(Mia Couto)

Fonte: PISTÓIA, Lenise Henz Caçula. “A perspectiva sistêmica da vida”, em Gregory Bateson e a educação: possíveis entrelaçamentos. Tese de Doutorado em Educação, UFRGS, 2009, p. 74-76.

Marly Segreto