Arquivo da categoria ‘Sons & Imagens’
Antonio Vitor - Inquietudes geradas pelo Real
Fonte: www.saobernardo.sp.gov.br/secretarias/sec/cul…
“Para mim, o caminho do Mistério passa pelo Real. Vem daí, quero crer, o imperativo do circunstancial em meu trabalho, empenhado sempre no delineamento de situações humanas, sejam elas triviais feito as do cotidiano, ou mais visivelmente solenes como Amor, Nascimento e Morte. Do contato com o circunstancial nasce-me, enfim, o impulso de trabalhar: o desejo de dar forma a visões, estados de alma, inquietudes geradas pela constatação de que o Real existe.” Antonio Vitor
http://www.dangaleria.com.br/exposicao/expovitor/realidade.htm
Companhia de Aprendizagem celebra 2010

EUPHORIA - David Gerstein (1944, Jerusalém) pintor e escultor contemporâneo
“O que faz andar a estrada?
É o sonho.
Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva.
É para isso que servem os caminhos,
para nos fazerem parentes do futuro”.
-
Mia Couto. Terra sonâmbula
A COMPANHIA DE APRENDIZAGEM deseja a todos,
-
Caminhos abertos para o futuro em 2010
Arte deslizante
Este é um famoso quadro chinês, tesouro cultural do país e patrimônio do Museu de Xangai, que leva multidões a apreciá-lo demoradamente.
Ele foi pintado entre 1085 e 1145, mede cerca de 24.5 por 5,28 m.
Apreciem-no, basta clicar no link abaixo, e deslocando o cursor pode-se aumentar e diminuir a velocidade de rolagem da pintura. Quando aparecerem quadrados brancos, cliquem em cima, uma nova tela aparecerá e uma história será contada. É muito bem feito!!!
http://www.npm.gov.tw/exh96/orientation/flash_4/index.html
Dialógo com o Milenio - Tornar visível o mundo interior
Depois de descrever as nuances do processo criativo e da função capital do imaginário nele, Calvino realça:
(…)”…mas sempre revestida por um invólucro imaginoso, afetivo, de vozes monologantes e dialogantes.” p.105
Concluindo:
(…)“Em suma, meu processo procura unificar a geração espontânea das imagens e a intencionalidade do pensamento discursivo. Mesmo quando o impulso inicial vem da imaginação visiva que põe em funcionamento sua lógica própria, mais cedo ou mais tarde ela vai cair nas malhas de uma outra lógica imposta pelo raciocínio e a expressão verbal. Seja como for, as soluções visuais continuam a ser determinantes, e vez por outra chegam inesperadamente a decidir situações que nem as conjeturas do pensamento nem os recursos da linguagem conseguiriam resolver.” p. 106
E volta a instigar o leitor:
(…) Mas há uma outra definição na qual me reconheço plenamente: a da imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.” p. 106
“Digamos que diversos elementos concorrem para formar a parte visual da imaginação literária: a observação direta do mundo real, a transfiguração fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura em seus vários níveis, e um processo de abstração, condensação e interiorização da experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização quanto na verbalização do pensamento.” p. 110
Finalizando numa declaração apaixonante pelo ato da escrita (mais uma vez, trazendo a complementaridade dos opostos):

(…)“ Seja como for , todas as “realidades” e as “fantasias” só podem tomar forma através da escrita, na qual exterioridade e interioridade , mundo e ego, experiência e fantasia aparecem compostos pela mesma matéria verbal; as visões polimorfas obtidas através dos olhos e da alma encontram-se contidas nas linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas, , de parêntesis; páginas inteiras de sinais alinhados, encostados uns aos outros como grãos de areia, representando o espetáculo variegado do mundo numa superfície sempre igual e sempre diversa, como as dunas impelidas pelo vento do deserto. “ p. 114<
Ítalo Calvino, “Visibilidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990
Diálogo com o Milênio - A visibilidade e o futuro do potencial criativo humano
Depois de introduzir o tema da visibilidade de forma brilhante, recorrendo a exemplos clássicos na literatura , onde ele foi fundamental (como na obra de Dante por exemplo), Calvino alerta sobre a ” imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.” p. 106
Aprofunda então a questão já levantada no ensaio anterior (Exatidão) nos alertando para os rumos que estamos tomando:
“Resta-me esclarecer a parte que nesse golfo fantástico cabe ao imaginário indireto, ou seja, o conjunto de imagens que a cultura nos fornece , seja ela cultura de massa ou outra forma qualquer de tradição. Esta questão suscita de imediato uma outra: que futuro está reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar a “civilização da imagem”? O poder de evocar imagens in absentia continuará a desenvolver-se numa humanidade cada vez mais inundada pelo dilúvio das imagens pré-fabricadas?
Antigamente a memória visiva de um indivíduo estava limitada ao patrimônio de suas experiências diretas e a um reduzido repertório de imagens refletidas pela cultura; a possibilidade de dar formas a mitos pessoais nascia do modo pelo qual os fragmentos dessa memória se combinavam entre si em abordagens inesperadas e sugestivas.

Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos segundos na televisão. Em nossa memória se depositam, por estratos sucessivos, mil estilhaços de imagens, semelhantes a um depósito de lixo, onde é cada vez menos provável que uma delas adquira relevo.” p.107
Ítalo Calvino, “Visibilidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990
Coração de água e madeira
Da Amazonia, Du Bois, nosso companheiro de aprendizagem tem mandado Cartas amazônicas.

De madeira lilás ( ninguém me crê )
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e porque abriga
em seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói?, pergunta quem me vê
os braços verdes, os olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas densas que me deram raça
e cantam nas raízes do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras.
Já não faz mal que doa
meu bravo coração de água e madeira.
Thiago de Mello - O animal da floresta
Barreirinha, fim de 2000
Imagens nas alturas
Estamos mergulhados num mundo repleto de imagens. Algumas enxergamos, mas não vemos, não despertam nossa atenção. Outras achamos bonitas, porém logo as esquecemos, não deixam marcas. Mas há aquelas que provocam em nós uma profunda impressão, nos atravessam e nos trans-portam.
Foi o que aconteceu comigo ao assistir o vídeoarte que Ghuga Távora criou em sua passagem por Alcântara: Imagens nas alturas.

Não tive a oportunidade de viajar para Alcântara - Maranhão, apesar do desejo de conhecer esse lugar “que poderia ter sido mas não foi, e por isso mesmo acabou sendo o que é”, como diz a fotógrafa Andrea D’Amato na revista Vida Simples. Mas em outras viagens que fiz, percebi que por mais que procuremos explicar essa parada no tempo, materializada nas pedras dessas cidades em ruínas, nos defrontamos com o inexplicável e, ouvindo o eco de sua história, sentimos na pele a transitoriedade da vida e seus mistérios.
As imagens nas alturas de Ghuga me ofereceram algo a mais: o vôo dos pássaros desenhando no céu uma geometria invisível foi um convite ao silêncio e a me deixar flutuar com eles pelos ares.
Não foi a toa que os pássaros emprestaram suas asas para a representação dos anjos, os mensageiros. A leveza de seu vôo, a ligação que fazem entre céu e terra, seu melodioso canto anunciando a aurora e se despedindo do dia, nos conduzem a uma sensação de ouvir ao longe, num suave sussurro, uma linguagem há muito esquecida: a linguagem dos pássaros, caminho de conhecimento e sabedoria que a tradição mística islâmica e a hebraica procuram nos fazer relembrar.
Quem me dera ganhar asas e voar! Desejo perseguido e realizado pelos homens com suas máquinas-voadoras. Mas as asas e o vôo também evocam a possibilidade de vencer a atração da gravidade terrestre, de deixar os desejos, sonhos e projetos ganharem altura e, com olhos de águia, tomar distância e ver, aprender, apreender, se surpreender, absorver e se transportar para dentro e para além de si mesmo.
Gracias Ghuga, por seu inspirado trabalho!
Marly
3 comentários »Diálogo com Clarice [Sobre o Não entender]

“E era bom.
“Não entender” era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não-entender. Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.
Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro – preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana.
No entanto às vezes, adivinhava…Eram manchas cósmicas que substituiam entender.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.43-44
8 comentários »