Arquivos de categorias: Sons & Imagens
Diz Thierry Huort, ilustrador do livro Reinventar o ofício de aprender:
“… com desenhos de origem que, a priori, apresentam apenas uma ínfima diferença, uma simples ação sobre alguns parâmetros, é suficiente para nos mostrar um mundo repleto de diversidade. Mais do que a exatidão do dado inicial, o mais importante é a sua biografia.
Em outras palavras, cada experiência (repetição) e cada mudança de ponto de vista (focal) sobre essa experiência, conduz-nos a ganhar maior grau de complexidade, a modificar nossa estrutura, enriquecer nosso desenho pessoal, atualizar nosso potencial e exercer nosso ofício natural: o ofício de aprender”.
O vídeo Opening [Abertura], com música de Philip Glass, me parece oferecer sons, imagens e movimentos que nos permitem compreender melhor o que Thierry propõe.
Marly Segreto
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce e se adelgaça
até que noutra música emudece,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, aguda torre, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desvanece:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
Octavio Paz, in “Liberdade sob Palavra”
De origem africana, Burkina Faso, e filho do griot e ator Sotigui Kouyaté (que atuou no filme Mahabharata de Peter Broock), a aprendizagem de Hassane Kassi Kouyaté foi permeada pela tradição griot. Contadores de histórias, os griots são considerados “senhores da palavra” e responsáveis pela transmissão da genealogia do continente africano para o povo. Ainda hoje eles atuam no equilíbrio da sociedade, são mediadores entre famílias e casais e com a palavra vivem de louvores que endereçam aos poderosos, das narrações históricas que declamam nas festas, dos contos morais que contam ou cantam por ocasião das cerimônias em que participam ou dos serviços que oferecem quando intervêm em conflitos.
Contador de histórias, ator, músico, dançarino e diretor de teatro, Kouyaté atuou em várias companhias africanas e tem atuado em vários teatros europeus, como diretor de companhias, ator de seus projetos e como convidado. Atualmente, é diretor artístico da companhia Dois Tempos Três Movimentos, em Paris. Seu propósito não é perpetuar de maneira tradicional a herança recebida. O que ele mantém do griot é a essência da função, a arte do gesto, a maestria do tempo.
Numa entrevista, respondendo se considera ter também uma missão de griot, ele disse: “Sim, modestamente. É difícil que o pássaro voe e seus filhotes rastejem. É como se a gente tivesse essa vocação nos genes. Nós sempre estivemos numa família empreendedora. Eu não sei se poderia viver sem realizar ações que pudessem fazer as coisas avançarem. Eu seria apenas uma concha vazia se não me engajasse. Tenho a necessidade de me sentir útil, e faço isso por mim também”.
Hassane Kouyaté trabalha essencialmente sobre o conto: espetáculo, adaptação, estágios, animação de ateliers. Partilha sua vida entre Paris e Bobo Dioulasso, em Burkina Faso, onde dirige a Casa da Palavra: Centro Regional das Artes da Narrativa e da Literatura Oral. Baseado na tradição africana, seu trabalho foi enriquecido com a experiência européia.
Ele criou a associação Tama Evénements, que produz e organiza eventos culturais e artísticos em colaboração com as municipalidades, festivais, coletividades, empresas, associações e artistas.
Do dia 17 a 21 de maio, Hassane conduz uma oficina no SESC Ipiranga (destinada a atores com experiência comprovada), explorando práticas coletivas e individuais em trabalho com o Rei Lear, de Shakespeare. Nesses encontros, vai lidar com a arte de narrar e com o aprofundamento da escuta, das relações entre tempo, ritmo e palavra, corpo e palavra, cena e público.
No dia 18 de maio acontece o Encontro com o griot, com abordagem sobre tradição e a vida em Paris e em Bobo Dioulasso, no Burkina Faso.
No dia 22 de maio é a vez do griot demonstrar a arte da narrativa em espetáculos. Os encontros, com tradução consecutiva, são gratuitos, mas a retirada de ingressos deveria ter sido feita até o dia 10/5. Podem já estar esgotados. Talvez a gente ainda consiga, não é? Vamos tentar…
O SESC Ipiranga fica na R. Bom Pastor, 822- tel.: (11) 3340-2000 – São Paulo – SP
Foto obtida em http://www.sescsp.org.br/sesc/revistas/subindex.cfm?ParamEnd=1&IDCategoria=7053
Vídeo-exposição de YANN ARTHUS-BERTRAND e da FUNDAÇÃO GOODPLANET, dirigido por Sibylle d’Orgeval e Baptiste Rouget-Luchaire
de 20 de abril a 10 de julho de 2011
Galeria Clemente de Faria – subsolos do MASP
Este magnífico projeto mobilizou dezenas de reporteres que, durante 5 anos, percorreram 78 países colhendo 5600 depoimentos de homens e mulheres sobre temas como amor, família, felicidade, casa, pais, desafios, perdão, sonhos, clima, progresso, etc.
A riqueza e o respeito à diversidade dão o tom da exposição, com depoimentos de pessoas de diferentes etnias, meios sociais, faixas etárias, profissões e opções religiosas.
“O jornalista não aparece em imagem ou som. O entrevistado olha diretamente para a câmara, dirigindo-se ao espectador. Imagens coloridas de alta qualidade técnica mostram um tecido da diversidade cultural do planeta através de rostos, idiomas, marcas faciais e adereços. Essa abordagem direta cria o laço de intimidade e identificação, mostrando porque o maior espetáculo para o ser humano é o próprio ser humano. Narrativas de todos os cantos da Terra se sobrepõem e se ombreiam, capturam e encantam a atenção do espectador, mostrando em que somos idênticos e diferentes”.
O projeto 6 Bilhões de Outros está aberto à participação de todos. Os interessados poderão responder às mesmas 40 questões feitas aos entrevistados através do site www.6bilhõesdeoutros.org . Há também na exposição um espaço cyber para uso dos visitantes.
A Fundação GoodPlanet foi criada, em 2005, pelo fotógrafo e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand com a missão de sensibilizar e educar o público para a proteção ao meio ambiente. Seu objetivo é propor soluções realistas e otimistas e encorajar cada indivíduo a agir pelo planeta. Para tanto desenvolve programas voltados a estudantes, empresas, associações e população em geral. Mais informações: www.goodplanet.org
Realmente, “o maior espetáculo para o ser humano é o próprio ser humano”. Não percam.
Imagem: banner do MASP
“Como estás vendo, não valeu a pena tanto esforço:
a urgência na construção da Arca
o rigor na escolha dos sobreviventes
a monotonia da vida a bordo desde os primeiros dias
a carestia aceita com resmungos nos últimos dias
os olhos cansados de buscar um sol continuamente adiado.
E no entanto sabias de antemão que seria assim. Sabias que a pomba iria trazer não um ramo de oliva mas de espinheiro.
Sabias e não disseste nada a nós, teus tripulantes, que ora vês lavrando com as mesmas enxadas de Caim e Abel a terra mal enxuta do Dilúvio.
Aliás, se nos dissesses, nós não te acreditaríamos.”
JOSE PAULO PAES . Mundo novo in: Prosas seguidas de Odes Mínimas, 1992
TCris


