Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo da categoria ‘Para refletir...’

O saber da Experiência

 Buddha in His Youth   Odilon Redon - http://www.lifeasmyth.com/Redon_Buddha_in_His_Youth.jpg

(…) ”A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. “

Notas sobre a experiência e o saber da experiência. JORGE LARROSA BONDÍA
Universidade de Barcelona, Espanha
http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BONDIA.pdf

TCris

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A INCOMPLETUDE DO CONHECIMENTO

pena escrevendo - pena escrevendo
Certo dia, uma formiga que caminhava perdida sobre uma folha de papel viu uma pena que escrevia em finos e negros movimentos ritmados.

— Que maravilha! – exclamou. — Essa coisa notável possui vida própria! E faz rabiscos tão extensos e com tanta energia nesta bela superfície que chega a se igualar aos esforços de todas as formigas do mundo. Os rabiscos que faz! Parecem formigas! Não uma, mas milhões de formigas correndo juntas!

Ela repetiu suas idéias para uma companheira, que ficou interessada em sua história e elogiou seus poderes de observação e reflexão. Mas outra formiga disse:

— Aproveitando-me de seus esforços, devo admiti-lo, tenho observado esse estranho objeto e cheguei à conclusão de que ele não é o dono de seu próprio trabalho. Você falhou em observar que a pena está ligada a outros objetos que a rodeiam e conduzem. Estes devem ser considerados como a origem de seu movimento e reconhecidos como tal.

Desse modo as formigas descobriram os dedos.

Passado algum tempo, outra formiga escalou os dedos e percebeu que eles compreendiam a mão, que ela explorou total e minuciosamente, ao estilo da sua espécie. Voltou então para junto de suas companheiras e gritou-lhes:

— Formigas! Tenho importantes notícias para vocês. Aqueles pequenos objetos que rodeiam a pena fazem parte de outro muito maior. E este é que realmente dá movimento a todos eles.

Mas então as formigas descobriram que a mão estava ligada a um braço; que o braço estava ligado a um corpo; que não existia uma, e sim duas mãos; e que existiam pés, que não escreviam.

As investigações prosseguiram e, assim, as formigas puderam formar uma idéia clara da mecânica da escrita. Porém, através de seu método de investigação costumeiro, não conseguiram descobrir o sentido e a intenção do que estava escrito, nem como aquilo era, em última análise, governado.

Idries Shah, Caravan of Dreams. London, Octagon Press, 1991
Citado por Mônica Cavalcante Lepri – As “idéias vivas” de Gregory Bateson, em Ciência Hoje, vol. 38, nº. 228, julho/2006, p. 19.

Esta pequena história me pareceu exemplificar, de uma maneira simples e metafórica, a incompletude de nosso conhecimento. Sempre vamos nos defrontar com algo não percebido, não considerado, não sabido… que impulsiona a continuidade do processo de descoberta.

Ela também nos fala que o conhecimento das partes não pode ser conclusivo sem o conhecimento do todo, e vice versa, exigindo o desenvolvimento de um pensamento complexo, transdisciplinar, que leva em conta a interdependência de todos os fatores, o seu sentido e contexto, o “padrão que liga”, como diz Gregory Bateson.

Aliás, as idéias de Bateson merecem vários posts, por sua abrangência e originalidade. Aguardem…

Marly Segreto

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CONHECIMENTO DE SI E DO OUTRO

O primeiro contato que tive com Louis Lavelle foi através de uma citação num artigo de P. Galvani (1), que vem conduzindo nossas reflexões sobre o processo de autoformação desde o início da Companhia. Eu havia ficado impressionada com a profundadidade de seu pensamento. E, por esses “acasos” que acontecem, chegou em minhas mãos um livro de Lavelle, do qual traduzo um trecho para compartilhar com vocês.

espelho  1  1 - espelho  1  1

Conhecimento de si e do outro

“Ser é sempre mais que conhecer. Pois o conhecimento é um espetáculo que nós apresentamos a nós mesmos. Também, não há nada que seja mais desconhecido do que o ser que nós somos; nós não chegaremos alguma vez a abandonar nossa imagem. Num certo sentido, posso dizer que todo homem sabe mais de mim do que eu mesmo: mas isso não é para ele uma vantagem. Pois não é preciso saber com muita exatidão o que se é para ser de fato aquele que se é.

É natural que eu conheça melhor os outros que a mim mesmo, já que estou bem ocupado em me construir. E é por isso que há tanta presunção, falsa aparência e perda de tempo nesse cuidado com que eu me considero, que me atrasa quando me é preciso agir; eu devo abandoná-lo ao outro que não tem, de modo algum, o encargo direto do que virei a ser e que, inversamente a mim, interessa-se mais por meu ser realizado do que pelo ato que o realiza. Ele só vê em mim o homem manifestado, aquele que se distingue de todos os outros por seu caráter e por suas fraquezas, e não o homem que eu desejo ser e que procura sempre ultrapassar sua natureza e curar suas imperfeições. Eu experimento em mim, indefinidamente, a presença de uma potência que ainda não foi empregada, de uma esperança que ainda não foi frustrada. Um outro somente observa em mim o ser que eu posso mostrar, e eu, o ser que não mostrarei jamais. Inversamente ao que ele faz, eu tenho sempre os olhos fixados sobre o que eu não sou, bem mais do que sobre o que eu sou, sobre o meu ideal mais do que sobre meu estado, sobre a realização de meus desejos mais do que sobre a distância que me separa deles.

O mal-entendido que reina entre os homens provém sempre da perspectiva diferente pela qual cada um se vê e vê o outro. Pois cada um só vê em si mesmo as suas potencialidades e só vê no outro as suas ações. E o crédito que dá a si mesmo, recusa ao outro. Uma afinidade começa a uni-los a partir do momento em que ambos, ultrapassando o que podem mostrar, entram nessa confiança mútua, que já é uma muda cooperação.

Mas o egoísmo produz uma cegueira que, no momento em que descubro em mim um ser que sente, que pensa e que age, só deixa aparecer aos outros os objetos que devo descrever ou os instrumentos de que pude me servir. Não é preciso, então, ficar espantado pelo fato de que aquele que conhece todas as coisas em si não conheça a si mesmo, nem mesmo que, devido ao sentido contrário, cada um permaneça desconhecido ao mesmo tempo para si mesmo e pelos outros.

O mais difícil em nossas relações com os outros seres, é aquilo que parece ser talvez o mais simples: reconhecer essa existência própria, que os faz semelhantes a nós e, no entanto, diferente de nós, essa presença neles de uma individualidade única e insubstituível, de uma iniciativa e de uma liberdade, de uma vocação que lhes pertence e que nós devemos ajudá-los a realizar, ao invés de nos mostrar ressentidos, ou tentar curvá-los para conformá-los à nossa. Para nós, essa é a primeira palavra da caridade, e pode talvez ser também a última.”

LAVELLE, Louis. L’erreur de Narcisse, Paris: La Table Ronde, 2003.

L. Lavelle (1883-1951) - Filósofo francês, foi professor no College de France a na Sorbonne, membro da Academie des Sciences Morales et Politiques, sua principal obra é La Dialectique de l’éternel présent, em 4 volumes.

(1) GALVANI, P. “Autoformação, uma perspectiva transpessoal, transdisciplinar e transcultural”, em Educação e Transdisciplinaridade II, Coord. Exec. CETRANS, São Paulo: Triom, 2002, p. 101-102.

Imagem: Espelho. http://assisbrasil.org/joao/elvio.htm

Marly Segreto

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Alerta ambiental

Agencia Leo Burnett   Malasia   Arts and Earth festival - Agencia Leo Burnett   Malasia   Arts and Earth festival

Continue poluindo, e logo você talvez não tenha escolha.

Campanha realizada pela agência Leo Burnett, em Kuala Lumpur - Malásia, junto ao Arts & Earth festival organizado por Global Environment Center.

Mas a mensagem é universal, não é mesmo?

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Quando as máscaras são retiradas…

giacometti  alexander liberman 1955 - giacometti  alexander liberman 1955

“Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, se não terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro. Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando-se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente. Mais precisamente moral, sem dúvida. Mas, afinal, é talvez a essa condição inumana, a esse agenciamento inelutável que devemos a nostalgia de uma civilização que procura se aventurar fora do que é mensurável. É a obra de Giacometti, creio, que torna nosso universo ainda mais insuportável, pois parece que esse artista soube afastar o que perturbava seu olhar para descobrir o que restará do homem quando as máscaras forem retiradas. Mas a Giacometti talvez tivesse sido igualmente necessária essa condição inumana a nós imposta, para que sua nostalgia se tornasse tão grande a ponto de lhe dar força para lograr sua busca. Seja como for, toda a sua obra me parece ser essa procura, visando não só o homem, mas também não importa o quê, o mais banal dos objetos. E quando consegue despojar o objeto, ou o ser que escolheu, de suas máscaras utilitárias, a imagem que nos dá é magnífica. Recompensa merecida, mas previsível.

A beleza tem apenas uma origem: a ferida, singular, diferente para cada um, oculta ou visível, que o indivíduo preserva e para onde se retira quando quer deixar o mundo para uma solidão temporária, porém profunda. Há, portanto, uma diferença imensa entre essa arte e o que chamamos o miserabilismo. A arte de Giacometti parece querer descobrir essa ferida aberta de todo ser e mesmo de todas as coisas, para que ela se ilumine”.

o ateli   de giacometti 1 2 - o ateli   de giacometti 1 2

GENET, Jean. O ateliê de Giacometti. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 11-13.

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PALAVRAS…

Palavras - Palavras

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras,
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

(Cecília Meireles)

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