Arquivos de categorias: Diálogos

Data: 2008.09.29 | Categoria: Diálogos | Comentário: 1

” – Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; – e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da exístência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. ‘Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração’. Vejam bem esta frase: a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma… ”

Fragmento – O espelho. Machado de Assis in: Papéis Avulsos (contos), 1882

TCris

Data: 2008.09.14 | Categoria: Diálogos | Comentário: 2

O que os autores dizem sobre o ato de escrever, de ler e sobre o sentido do livro sempre possibilita uma ampliação do meu olhar e da compreensão do que me faz ser uma amante dos livros.

J. L. Borges, por exemplo, diz que os instrumentos criados pelo homem são extensões do seu corpo, mas o livro é uma extensão da memória e da imaginação. Ele conta que, quando foi professor, sugeria aos seus alunos que não lessem críticas e sim diretamente os autores dos livros. E mesmo que entendessem pouco sempre gostariam, pois estariam ouvindo a voz de alguém. E que o mais importante de um autor é a sua entonação, o mais importante de um livro é a voz do autor, essa voz que chega a nós.

Mais que lidos, os livros podem ser ouvidos!!!

E é sempre bom procurar ouvir, além do conteúdo da fala, quem fala, quando e de onde fala, ou seja, a partir de que nível ou dimensão o autor se expressa e em qual contexto espaço-temporal sua expressão se insere. Quem sabe, desse modo, possamos estar mais próximos do sentido imprimido pelo autor.

Marly

Fonte: BORGES, J. L. – Borges oral (El Libro). Buenos Aires: Emecé, 1979.
Citado em http://www.con-versiones.com

Data: 2008.09.12 | Categoria: Diálogos | Comentário: 3

TCris pensando sobre…

“Escrever nada tem a ver com significar, mas com agrimensar, cartografar, mesmo que sejam regiões ainda por vir.”

Deleuze, Guattarri – Mil platôs

Data: 2008.08.29 | Categoria: Diálogos | Comentário: 0

Intraníveis do diálogo
ou da experiência do paradigma do sensível

(…) ”E´ graças a uma relação da consciência e
do sentir com sua experiência que a pessoa se descobre a si mesma como sujeito”

BOIS, Danis; AUSTRY, Didier. A emergência do paradigma do sensível.

Foi ontem, que eu cheguei à página 17 da segunda leitura do artigo “A emergência do paradigma do sensível”. Parei e respirei fundo, deixando ressoar as palavras do texto: (…) “Para nós, uma pessoa assume o estatuto de sujeito quando cuida da presença em relação a si mesma e descobre, em plena consciência, as vivências internas ligadas à presença interior do Sensível…. É considerado como vivência todo fenômeno sentido, percebido e conscientizado pelo sujeito em tempo real.”

Aqui, o vento de agosto assolava a tarde enferruscada de sábado; também é bonito esse vento girante, pensei _ também tem a sua função como tudo que é vivo. Por causa do vento, tive o impulso de recolher minhas orquídeas floridas, do quintal para a varanda, para protege-las. Mas, instantâneamente, lembrei que elas estão no lugar que lhes é próprio e rememorei o compromisso que estou mantendo com a primeira palavra do ensinamento hesicasta – a oração do coração – sobre a qual ando meditando: Assenta-te.

Assentar. Manter o estado de imobilidade interior, deixar ser o que é, exercício a que tenho me dedicado ultimamente. A leitura e estudo do instigante artigo “A emergência do Paradigma do Sensível” feito durante toda esta última semana, os e-mails divulgando-o para alguns amigos, a proposta ao grupo de estudos para sua leitura, como impulso para nosso próximo trabalho, fazem parte do movimento inverso e complementar, a mobilidade.

(…)”o âmago da experiência [da imobilidade? pergunto-me ] orienta a atenção e a atitude do sujeito e o predispõe a certos conteúdos de experiência e não a outros [da mobilidade?].”

A experiência orientadora de todo esse movimento imobilidade-mobilidade, pode ser traduzida pelo mote Assenta-te, que traduz uma dinâmica de imobilidade. A partir dela, entrei em contato com a leitura de diferentes textos, todos ressoantes entre si, até chegar a este citado.

Este é um relato parcial, pois ainda não cheguei ao final da segunda leitura e o meu depoimento é sobre a experiência vivenciada como um todo e não apenas sobre o texto; é meu retorno reflexivo sobre a experiência, como propõe Galvani e como o utilizamos na Companhia de Aprendizagem. Aliás, encontrei nessa leitura várias ressonâncias com a consciência reflexiva da autos, de Galvani. Mas encontrei também algumas inferências que remetiam à minha própria experiência intra e inter subjetivas, ou como pontua o texto:

(…)”Já a relação do Sensível, se ela nos faz ver efetiva e permanentemente essa noção de cobertura e de mistura de duas forças opostas, cria um processo dinâmico contínuo que potencializa os contrários para fazer emergir uma terceira dimensão, abertura criativa de novos sentidos. Por exemplo, quando o sujeito percebe seu movimento interno, ele o percebe no seio da imobilidade de seu corpo; a experiência desse quiasma [entrelaçamento] lhe revela uma nova natureza de presença dele mesmo, a imobilidade revelando-lhe sua globalidade e a mobilidade mostrando-lhe uma profundidade desconhecida. “

A partir do Assenta-te como parâmetro da minha interioridade, em repouso fiz a leitura do texto. Depois, esbocei uma nova proposta de trabalho grupal, articulei os possíveis interessados nela, prescrutei a mim mesma sobre a relação desta proposta com a meu propósito pessoal, sugeri o estudo do citado texto como aporte pra desenvolve-la e enviei o texto aos que se manifestaram, numa seqüência de ações mobilizadoras.

Então, no repouso do sábado à tarde, na rede, ouvindo o vento assobiar lá fora, retornei à dinâmica da imobilidade, que permitiu esse trajeto… (…)”Para nós, o termo existência só é empregado de maneira pertinente e apropriada quando ele descreve o que sente um sujeito ativo e presente aos efeitos, na interioridade de seu corpo, daquilo que ele vive. Nesta visão, não há (re)conhecimento de si sem o sentimento interior e contínuo de uma coexistência viva e atual de si e de seu corpo, de si dentro do seu corpo. Assim, o corpo sensível é lugar de emergência perpétua de uma forma singular de ligação entre si e si, que se torna o primado da ligação entre si e o mundo.”
E depois disso tudo, experimento finalmente, a descoberta de um lampejo de compreensão da abordagem paradoxal de Yves Barel ! Mas essa já é outra história.

TCris

BOIS, Danis; AUSTRY, Didier. A emergência do paradigma do sensível. Revista @mbienteeducação, volume, número , Jan/Julho 008. Disponível em: http://www.cidadesp.edu.br/old/revista_educacao/index.. Acesso em 18.08.08Victoire 1

Data: 2008.08.19 | Categoria: Diálogos | Comentário: 0

Estou relendo os textos enviados para publicação no Livro II – são fantásticos!

Nova Aurora

Em intertextualidade, eu, eles e os textos já conhecidos da memória, dialogamos:

PG _ Suspender a Consciência intencional…
JYL _ Era preciso reaprender a ser, simplesmente a ser – sem objetivo nem motivo. Meditar como uma montanha era a própria meditação do ser “do simples fato de ser”, antes de todo pensamento, de todo prazer, de toda dor.”
TC _ Do simples fato de ser…
PG _ Co-emergir …
JYL _ Meditar como uma montanha também tinha modificado o ritmo de seus pensamentos. Havia aprendido a “ver” sem julgar , como se ele desse a tudo que brota na montanha “o direito de existir”.
PG _ Atenção não-verbal…
TC _ Aprendizagem transformadora.

TCris

(Citação: Leloup, Jean Yves. Esinamentos sobre o hesicasmo. ed. Vozes)

Data: 2008.08.14 | Categoria: Diálogos | Comentário: 1

TC _Eu nesse momento preciso do silencio. Já entrei várias vezes no blog e acabo não escrevendo…penso: será que esse é o espaço para meu momento de silêncio e dúvidas? Talvez fosse bom inserir isso… nosso espaço experimental a ser cultivado.

M _ E vale a pena passar isso. Por isso eu comecei com o escrever… habitar a tela…. Como habitar esse espaço do blog? Ontem eu vi um filme no Canal Futura que me fez refletir. É um filme japones. Acho que se chama Arata. É um lugar que as pessoas vão após a morte. E cada uma tem que lembrar de algo de sua vida e escolher dessas lembranças uma que seria o lugar em que ela permaneceria eternamente.

TC _ Me lembrou o eterno retorno de Nietzche, mas no filme a idéia parece mais profunda!
M _ Olha que coisa: onde, em tudo que vivi, eu gostaria de permanecer eternamente?
TC _ Em tudo que vi…. e o que não fui capaz de ver?
M _ No exercício de lembrar para escolher, começam a surgir coisas que não tinham sido vistas, sentidas, percebidas…
Tc _ Tá vendo como não podemos apressar esse momento do não sei e do silencio?

Diálogo no skype, na hora do almoço de uma quinta-feira chuvosa de agosto

TCris
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Arte-poesia