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Repercussão e ressonâncias

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(Álvaro de Campos)
A palavra, a locução só é possível a partir de um lócus que lhe dá suporte, de um centro de emissão e de ressonância, diz Gerard de Sorval (La Marelle, ou les sept marches du paradis). Trata-se de encontrar um lugar no interior da alma a partir do qual se realiza um estado primordial, de participar de uma luz interior que não é o reflexo de uma luz do mundo exterior.
E na linguagem poética, a imagem isolada, a frase que a desenvolve, o verso ou o que é irradiado por ele formam espaços de linguagem, diz G. Bachelard (A poética do espaço).
Como é que o aparecimento de uma imagem poética singular pode atuar em outras almas, em outros corações, apesar de todas as barreiras do senso comum, de todos os pensamentos “sensatos”, felizes em sua imobilidade?
A poesia é uma alma inaugurando uma forma e fazendo dela a sua morada.
O leitor não deve encarar a imagem poética como um objeto, muito menos como um substituto do objeto, mas captar sua realidade específica. O poeta fala no limiar do ser. A imagem poética emerge na consciência como um produto direto do coração da alma, do ser do homem tomado em sua atualidade. E ela terá uma sonoridade de ser quando sentirmos sua repercussão.
Bachelard nos convida a ultrapassar as ressonâncias sentimentais com que recebemos a obra de arte. “As ressonâncias dispersam-se nos diferentes planos da nossa vida no mundo; a repercussão convida-nos a um aprofundamento da nossa própria existência. Na ressonância ouvimos o poema; na repercussão o falamos, ele é nosso. A repercussão opera uma inversão do ser. Parece que o ser do poeta é o nosso ser. A multiplicidade das ressonâncias sai então da unidade de ser da repercussão. Dito de maneira mais simples: trata-se aqui de uma impressão bastante conhecida de todo leitor apaixonado por poemas: o poema nos toma por inteiro”.
O par ressonância-repercussão reanima profundezas em nosso ser, fazendo com que um poder poético se erga em nós. É depois da repercussão que podemos experimentar ressonâncias sentimentais, recordações do nosso passado, pois a imagem atingiu as profundezas antes de emocionar a superfície. “E isso é verdade numa simples experiência de leitura. Essa imagem que a leitura do poema nos oferece torna-se realmente nossa. Enraíza-se em nós mesmos. Nós a recebemos, mas sentimos a impressão de que teríamos podido criá-la, de que deveríamos tê-la criado. A imagem torna-se um ser novo da nossa linguagem, nos expressa tornando-nos aquilo que ela expressa - noutras palavras, ela é ao mesmo tempo um devir de expressão e um devir do nosso ser. Aqui, a expressão cria o ser”.
Marly
3 comentários »Olhares…

Podemos observar partes de um objeto, de um fenômeno ou de nós mesmos, mas não podemos perder de vista a relação dessas partes com o todo em que estão inseridas, suas interligações e articulações, seu contexto. Além disso, é preciso considerar a existência de pontos cegos, do ainda não visto, pois não conseguimos esgotar o que há p/ ser conhecido. O que nos coloca diante da necessidade de reconher a incompletude do conhecimento e seu devir possível.
Hoje, a neutralidade do observador vem sendo questionada. O sujeito é visto como implicado no processo de observação: a auto-referência. Mas podemos cair na armadilha do « subjetivismo ». Daí a importância de nos observarmos observando, de perceber o que está envolvido em nosso próprio processo de observação. Além disso, as trocas intersubjetivas nos permitem sair de uma observação exageradamente auto-centrada, abrindo outros olhares, sentidos e significados que podem ampliar os nossos e nos ajudar a perceber os aspectos em que estamos fixados e que nos impedem de avançar no processo de conhecimento e de autoconhecimento. São olhares que nos ajudam a ver melhor.
O olhar partidário, ou seja, os princípios teórico/conceitual/filosófico/existencial, os pressupostos em que nos apoiamos em nossa observação podem nos fazer crer que tudo pode ser determinado, previsto e controlado dentro dos parâmetros rígidos que nos impusemos. E o que escapa a estes parâmetros é desconsiderado. Essa unilateralidade nos impede de perceber a riqueza contida no indeterminado, no imprevisível, no emergente. Nossa observação pode atravessar esses muros, valorizar a não linearidade, os saltos, os vazios potencializadores e o que se apresenta em cada momento, num processo de observação que vai se fazendo ao observar.
Estes três limites são indissociáveis uns dos outros, estão em permanente interrelação. Cabe a nós ultrapassá-los… ou nos conformarmos com o já visto, o já sabido, o já experimentado…
Em Uma arte de cuidar – estilo alexandrino, Jean Yves Leloup propõe uma Escola do Olhar , que pode nos ajudar a melhorar a qualidade do nosso olhar em nosso trabalho de auto-observação :
O primeiro olhar é o do ver – eu vejo (constato)
O segundo é o olhar da ciência – eu observo, eu analiso (aprofundo o que vejo)
O terceiro olhar é o que pergunta – eu interrogo (o que é, como se manifesta?)
O quarto olhar é o que se pergunta – eu me interrogo (como é que vejo, como conheço?)
O quinto olhar se abre para o sentido – eu acolho o sentido (antes de interpretá-lo).
O sexto olhar é o da interpretação – eu interpreto (de maneira criadora)
O sétimo olhar é o que direciona e liberta – vá com sentido! (Vá rumo a você mesmo, você não está só!)
Marly
3 comentários »As cinco qualidades do intérprete
“O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.
A primeira é a simpatia: não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar. A atitude cauta, a irônica, a deslocada – todas elas privam o intérprete da primeira condição para poder interpretar.
A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo: tem, porém, que fazê-lo depois que se usou da simpatia e da intuição. Um dos fins da inteligência, no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.
A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi a erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese, e a compreensão é uma vida. Assim, certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou ao mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.
A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.”
Fonte: PESSOA, Fernando - O Eu profundo e outros eus. 7ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, p.43-44.
Simpatia, Intuição, Inteligência, Compreensão, Graça.
Marly
6 comentários »A jornada interpretativa

Diz o poeta:
é preciso caminhar na escuridão e se encontrar com o coração do homem, com os olhos da mulher, com os desconhecidos das ruas, dos que a certa hora crepuscular ou em plena noite estrelada precisam nem que seja de um único verso… Esse encontro com o imprevisto vale pelo tanto que a gente andou, por tudo que a gente leu e aprendeu… É preciso perder-se entre os que não conhecemos para que subitamente recolham o que é nosso da rua, da areia, das folhas caídas mil anos no mesmo bosque. (NERUDA, P. Confesso que vivi. São Paulo: Círculo do Livro, 8ª. 1980, p. 274)
Assim sendo, a jornada interpretativa, que se pode entender como gnose, se dá numa intelecção amorosa, isto é, num amor inteligente que ama a própria compreensão.
Foto: Edson Pedroso
Texto: FERREIRA SANTOS, Marcos. Espaços crepusculares: poesia, mitohermenêutica e educação de sensibilidade. Revista @mbienteeducação, volume 1, número 1, Jan/Julho 2008.
Na jornada interpretativa somos, ao mesmo tempo, o cenário, o viajante e a viagem.
Marly
1 comentário »Sagrados desejos
Diálogo no Skype:
M - Hiero-formaçao… Formação do Sagrado…
TC - Aventurosa formação - que expressão linda!
M - É uma dimensão da formação nem sempre considerada.
TC - Adoro as pessoas ousadas que abrem trilhas… Pensei na imagem da trilha, de bicicleta…
M - Mas como ele diz, esse é um caminho de realização, mas também de ilusões e aprisionamentos…
TC - Todos os caminhos são de ilusão e de aprisionamento se detemos a caminhada.
M - Veja como ele fala de uma relação pessoal com o sagrado, sem necessariamente passar pelas instituições religiosas. Esse tema é muito interessante, porque poderíamos falar de aproximações do sagrado, relacionadas a diferentes níveis de consciência.
TC - Sim… É que há certas linguagens que soam mais familiares à nossa experiência. Por isso a diversidade é importante.
M - Aí entra o Deleuze… Multiplicidades… Sair das hegemonias… Abraçar a diversidade.
TC - Veja que quaisquer que sejam as descrições sobre o processo, com ângulos, relevos ou linguagens diversas, todos convergem para o próprio processo.
M - Acho que esse reconhecimento vai se dando na construção. O devir… sempre o devir… traz essa possibilidade.
TC - Sim… Fico pensando na maravilha que é o (s) exato(s) instante(s) em que percebemos o sagrado.
M – É como uma explosão!
TC - Quando as pessoas que falam, vivem o sagrado, elas irradiam a própria dimensão da sacralidade no que falam… Lembro de Leloup, Pineau, Ubiratan e do Barbier também…
M - Agora pensei que o acesso ao corpo sensível pode ser uma forma de encontrar o sagrado em nós. Esses processos, para mim, não acontecem em todas as dimensões do ser ao mesmo tempo. Ora uma, ora outra vão atingindo mais clareza, mas sempre resta alguma que não foi percebida e temos que voltar à obra nessa dimensão.
TC - Sim… Isso nos faz vivenciar nossa própria complexidade e para isso precisamos aprender a transitar com mais consciência pela nossa multidimensionalidade. E quando penso nisso, penso naquele comentário do Danis Bois sobre a nossa pobreza perceptiva, que precisa ser trabalhada.
M - Temos que aprender a dar passagem ao que se passa conosco…. E me lembro do Nômade de Deleuze.
TC - Essa construção talvez exija que busquemos essas sínteses: entre o que queremos e não queremos mais.
M - E aí entramos na esfera do desejo… Por isso eu pus o texto no blog. Como vemos essa questão do desejo?
TC - Fico pensando que essa questão do desejo não é facilmente reconhecida… As pessoas não reconhecem o desejo nessa dimensão interior de poder escolher - isso talvez seja difícil mesmo.
M - A maneira como Deleuze fala do desejo abriu novas pistas para mim. Desejo como construção de agenciamentos. O desejo nos mobiliza a estabelecer novas ligações, novas alianças… E as novas alianças retroalimentam o desejo. O desejo não é minha propriedade, não é apenas meu, mas envolve os outros e o mundo.
TC - Mas eu tenho uma participação nele… Todos têm e ampliam o desejo.
M - Sim, com certeza, mas ele foi construído com a participação de outras coisas também. Aliás, tudo é construído com participação de muitas coisas… que ignoramos. E desvelar essa participação faz parte do processo de autoformação, que de certa maneira, é sempre em co-formação… Quando tomamos consciência disso.
TC - Como será que o desejo de Deleuze dialoga com o desejo de Lacan?
M - Agora vc me pegou… Não tenho a mínima idéia! Nunca me interessei muito por Lacan, mas é uma ligação possível.
TC - Vou propor essa questão para Bety Saporiti… Quem sabe ela topa estabelecer esse diálogo aqui no Blog da Companhia?
Diálogo - entre nossas duas almas
” - Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro… Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da exístência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. ‘Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração’. Vejam bem esta frase: a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma… ”
Fragmento - O espelho. Machado de Assis in: Papéis Avulsos (contos), 1882
TCris
1 comentário »E falando em escrever…
O que os autores dizem sobre o ato de escrever, de ler e sobre o sentido do livro sempre possibilita uma ampliação do meu olhar e da compreensão do que me faz ser uma amante dos livros.
J. L. Borges, por exemplo, diz que os instrumentos criados pelo homem são extensões do seu corpo, mas o livro é uma extensão da memória e da imaginação. Ele conta que, quando foi professor, sugeria aos seus alunos que não lessem críticas e sim diretamente os autores dos livros. E mesmo que entendessem pouco sempre gostariam, pois estariam ouvindo a voz de alguém. E que o mais importante de um autor é a sua entonação, o mais importante de um livro é a voz do autor, essa voz que chega a nós.
Mais que lidos, os livros podem ser ouvidos!!!
E é sempre bom procurar ouvir, além do conteúdo da fala, quem fala, quando e de onde fala, ou seja, a partir de que nível ou dimensão o autor se expressa e em qual contexto espaço-temporal sua expressão se insere. Quem sabe, desse modo, possamos estar mais próximos do sentido imprimido pelo autor.
Marly
Fonte: BORGES, J. L. - Borges oral (El Libro). Buenos Aires: Emecé, 1979.
Citado em http://www.con-versiones.com
Diálogo de uma nota só
TCris pensando sobre…
“Escrever nada tem a ver com significar, mas com agrimensar, cartografar, mesmo que sejam regiões ainda por vir.”
Deleuze, Guattarri - Mil platôs
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