Arquivos de categorias: Diálogos

Data: 2010.05.06 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 2

Escuta

Vários autores interessados na questão da formação do humano (R. Barbier, P. Bordieu, D. Bois, I. Gerber, etc.) vêm falando, à sua maneira, de um retorno do sensível, de um despertar para o sensível.

Em nossa vida pessoal e profissional, em atividades voluntárias e nas práticas formativas da Companhia temos percebido o valor, a importância de desenvolver e exercitar especialmente a escuta sensível (como pode ser visto em nosso FAQ).

A cada dia, percebemos o quanto esse escutar-agir, característico da escuta sensível, vai se incorporando em nós.

É claro que somos influenciados pelos esquemas de percepções, representações e ações que nos vêm da família e do grupo sócio-cultural a que pertencemos, e que podem nos levar a um conformismo inconsciente. Também é claro que os papéis e posições que assumimos em diferentes organizações nos impõem obediência à ordem estabelecida por elas, oferecendo em troca uma ilusória estabilidade.

Mas o que isso tem a ver com a escuta sensível? É que na escuta sensível nos recusamos a fixar o outro numa posição, num território, negando-lhe a abertura para outros modos de existência. Ela supõe uma inversão da atenção. Ao invés de procurar situar o outro em seu território, tratamos de reconhecê-lo em seu ser, em sua qualidade de pessoa complexa dotada de liberdade e de imaginação criativa. Desse modo, podemos aprender a sentir o seu universo afetivo, imaginário e cognitivo, para poder compreender suas atitudes e comportamentos, seus sistemas de idéias e valores, de símbolos e mitos, sua existencialidade interna.

Não é fácil… Pois quem escuta começa por não interpretar, por suspender todo julgamento, buscando sentir e compreender o sentido adicional que se manifesta na situação, e que vai além da fala, deixando-se surpreender pelo outro e pelo desconhecido.

É claro que quem escuta é também composto por sua experiência, sua formação, suas leituras, que poderão ser disponibilizadas quando necessárias, se o outro desejar. Mas não se deve perder de vista que cada experiência é única, não podendo ser reduzida a um modelo qualquer. E também é preciso estar aberto às reformulações, próprias e do outro, pois tudo pode ser retraduzido em função do contexto.

A escuta sensível parece ser, sobretudo, uma experiência meditativa. Mas, não aquela que pode levar a um transe místico, a um êxtase exuberante. E sim, simplesmente, a experiência de estar presente no que acontece, aqui e agora, no menor gesto, na menor atividade. Nela, há uma suspensão não só de toda teoria e conceitualização, mas também de toda representação imaginária do mundo, e inclusive do desejo de fazer algo.

Quando nos encontramos nesse estado meditativo – de presença em si, de esvaziamento e atenção – nossa consciência não está dispersa, nos encontramos em um outro nível de percepção. É por isso que a escuta sensível fica mais fina, mais aprimorada. E passa a ser uma escuta-ação espontânea, atuando até mesmo sem o pensamento. E a ação é imediata, adaptando-se e respondendo muito melhor ao que se apresenta, em benefício de todos.

Fonte: BARBIER, René. “Las nociones-bifurcaciones en la investigación-ación”, em cuadernos Visión Docente Con-Ciencia, Puerto Vallarda: C. E. U. Arkos, Ano VIII, nº 45, nov-dez 2008, p. 05-20.

Marly Segreto

Data: 2010.04.21 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 3

CARTAS VIAJANTES CARTOGRAFIAS

Norrin RoadCartas

“… toda viagem destina-se a ultrapassar fronteiras, tanto dissolvendo-as como recriando-as. Ao mesmo tempo em que demarca diferenças, singularidades ou alteridades, demarca semelhanças, continuidades, ressonâncias. Tanto singulariza como universaliza… Sob vários aspectos, a viagem desvenda alteridades, recria identidades e descortina pluralidades.” (1)

“O homem que viaja geralmente opera segundo linhas geográficas, dedicando-se a espacializar, a ampliar cada vez mais os horizontes. Vistas como processo de desenraizamento, construção de uma nova cartografia e circulação intermitente, as viagens constituem os sujeitos. Duas figurações nelas se destacam: o viajante e o estrangeiro, duas faces de uma só moeda: sujeitos que se deslocam, que mudam de lugar, de paisagens. (2)

“… o viajante se desenraíza, solta, liberta. Pode lançar-se pelos caminhos e pela imaginação, atravessar fronteiras e dissolver barreiras, inventar diferenças e imaginar similaridades. A sua imaginação voa longe, defronta-se com o desconhecido, que pode ser exótico, surpreendente, maravilhoso, ou insólito, absurdo, terrificante, tanto se perde como se encontra, ao mesmo tempo se reafirma e modifica. No curso da viagem há sempre alguma transfiguração, de tal modo que aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa”. (1)

Foi Deleuze que introduziu a idéia da cartografia como uma prática do conhecer, referindo-se ao traçado de mapas processuais de um território existencial. O território pode ser tanto o espaço vivido, como um sistema no qual o viajante se sente “em casa”. Mas o território pode se desterritorializar, abrir-se em linhas de fuga, mudar o seu curso.

Então, o cartógrafo tem que estar aberto ao que acontece, agenciando-se, experimentando, atento aos movimentos e às necessidades que surgem, estabelecendo a conexão viajante-mundo, no presente. A cartografia é um método em processo de criação, que se inventa enquanto caminha. Não se trata de desenhar um mapa fixo ou histórico, mas de perceber as relações, as forças em movimento, enquanto acontecem. E de perceber as forças que constituem e desfazem as formas subjetivas, continuamente em formação. O desafio do cartógrafo será sempre o de entrar pela forma e direcionar-se para as forças que a constituem, algo parecido com o processo de criação na arte.

Imagem: NORRIN ROAD

(1) IANNI. Revista de Cultura Vozes, p. 3 e 19

(2) OLIVEIRA. De viagens e de viajantes, p. 12

Marly Segreto

Data: 2010.03.09 | Categoria: Agenciamento, Diálogos | Comentário: 1

“A missanga, todas a vêem.
Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo.”

Meia culpa, meia própria culpa

(…) Nunca quis. Nem muito, nem parte. Nunca fui eu, nem dona, nem senhora. Sempre fiquei entre o meio e a metade. Nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade. Daí o meu nome: Maria Metade.

Fosse eu invocada por voz de macho. Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semimacho. Para ambos sermos casal, necessitaríamos, enfim, de sermos quatro.

A meu esposo chamavam de Seis. Desde nascença ele nunca ascendeu a pessoa. Em vez de nome lhe puseram um número. O algarismo dizia toda a sua vida: despegava às seis, retornava às seis. Seis irmãos, todos falecidos. Seis empregos, todos perdidos.

E acrescento um segredo: seis amantes, todas actuais. Das poucas vezes que me falou, nunca para
mim olhou. Estou ainda por sentir seus olhos pousarem em mim. Nem quando lhe pedi, em momento de amor: que me desaguasse uma atenção. Ao que retorquiu:

- Tenho mais onde gastar meu tempo.

Engravidei, certa vez. Mas foi semiprenhez. Desconcebi, em meio tempo, meio sonho, meia esperança.
O que eu era: um gasto, um extravio de coisa nenhuma. Depois do aborto, reduzida a ninguém, meu sofrer foi ainda maior. Sendo metade, sofria pelo dobro…”

Homenagem à estas mulheres, na prosa crua, arguta e sensível de Mia Couto.

Meia culpa, meia própria culpa in: Mia Couto. O fio das missangas. Companhia das Letras.

A coluna partida   1944 Frida Khalo

A coluna partida, 1944 – Frida Khalo

Data: 2010.01.09 | Categoria: Agenciamento, Diálogos | Comentário: 3

Já de antes de janeiro, muita chuva… Meu projeto de ler um livro de literatura a cada inicio de ano, jaz malemolengo à espera. Começo hoje, a ler O fio das missangas, do Mia Couto, que ganhei de presente da Marly; é um livro de contos. Belo!

Mia Couto faz uma síntese de linguagem que irradia poesia – intraduzível em outras palavras, tem um ritmo próprio que combina palavras, períodos, pontuação. Uma morfologia singular; às vezes me lembra Borges, mas é mais visceral, cru.

Eu nunca sei para onde me conduz a leitura – desta vez há um fio…

TCris

“EVELINA: A BORDADEIRA

Na varanda, ia bordando Evelina, a mais nova. Seus olhos eram assim de nascença ou tinham clareado de tanto bordar? Certa vez, ela se riu e foi tão tardio, que se corrigiu como se alma estrangeira à boca lhe tivesse aflorado. Lhe doía se lhe dissessem ser bonita. Mas não diziam. Porque além do pai, só por ali havia as irmãs. E, a essas, era interdito falar de beleza. As irmãs faziam ponto final. Ela, em seu ponto, não tinha fim.
Dizem que bordava aves como se, no tecido, ela transferisse o seu calcado voo. Recurvada, porém, Evelina, nunca olhava o céu. Mas isso não era o pior. Grave era ela nunca ter sido olhada pelo céu.
Às vezes, de intenção, ela se picava. Ficava a ver a gota engravidar no dedo. Depois, quando o vermelho se excedia, escorrediço, ela nem injuriava. Aquele sangue, fora do corpo, era o seu desvairo, o convocar da amorosa mácula.

www.sxc.hu//green leaf in blue

Em ocasiões, outras, sobre o pano pingavam cristalindas tristezas. Chorava a morte da mãe? Não. Evelina chorava a sua própria morte.”

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Data: 2009.09.22 | Categoria: Diálogos, Trans | Comentário: 1

gaudi escalera 2 1
O Profundo é imanente, encarnado, aqui e agora, mutável.
A Profundidade é transcendente, inapreensível, não racionalizável, além do tempo e do espaço, inominável, sem nascimento e sem morte, englobante.
Entre o Profundo e a Profundidade, um necessário vínculo de reciprocidade e o espaço do imaginário.
Um dia, a Profundidade é fogo. O Profundo nasce do Superficial, como a labareda da faísca.
A Profundidade conhece sempre o lado primaveril do Superficial. O Profundo é arrancado do Superficial e acredita sonhar.
No mundo dos Superficiais, o Profundo se torna repentinamente cego, surdo e mudo. A Profundidade restitui-lhe a palavra, abre duas vezes seus olhos, fazendo-o ouvir o som da erva sob o aço.
Quando o Superficial acredita ter vencido a Profundidade, abre-se o mundo das imagens fechadas.
O Superficial porta o Religioso como um guarda-sol. O Profundo prefere olhar o sol de frente para compreender de onde vem a noite.
Para roçar a Profundidade é preciso ser profundo como um gato. Para ser Profundo até o fim, é preciso não temer chegar perto da Profundidade.
A relação entre o Profundo e a Profundidade é um princípio de vida e uma ligação com o desconhecido. Ela instaura a categoria do Aberto e do Sagrado no mundo. Ela abre as comportas do Simbólico.
A Profundidade não precisa de dogmas, de rituais e de Grandes Sacerdotes para existir. Ela é dada de antemão à tudo que vive. Ela está na existência como a cor no ramo de flores, o oceano na onda.
A Profundidade dá ao Profundo a sua luz e seu sentido.
O Profundo dá existencia concreta e voz à Profundidade, sempre incompletas.
Por sua existencialidade, o Profundo dá origem às categorías de ambivalencia, complexidade e finitude. Sua relação com a Profundidade é conflituosa, pois o Profundo exige um sentido e a Profundidade é, ao mesmo tempo, o desconhecido do sentido e o chamado para o sentido.
É possível aproximar-se da Profundidade de uma maneira vertical, horizontal ou transversal, entre outras…
Na abordagem vertical, o Profundo se aguça, se aviva, se encrava, se perde, mas também se encerra numa solidão radical e numa incomunicalidade total.
Na abordagem horizontal, o Profundo se amplifica, se doa, se solidariza, se multiplica, sob o risco de perder sua singularidade viva, sua rebelião particular.
Na abordagem transversal, o Profundo atravessa os extremos, afina a ambivalencia, a contradição, o paradoxo, o conflito, a dúvida. Para ele, o azul pavimenta a sua noite cristalina.
Quanto mais a Profundidade se atualiza, mais o Profundo se torna calmo e simples, dando menos importância ao jogo social e ao espírito analítico.
Em sua maior simplicidade, o Profundo está imerso no oceano da Profundidade. Completamente aqui, com seus semelhantes, ele está simultaneamente além daqui, livre como o vôo da águia.
Quanto mais a Profundidade se potencializa, mais o Profundo se torna inquieto e complicado, afirmando sua onipotência sobre as coisas e os seres.
Em sua maior complicação, o Profundo parece sair da Profundidade para chegar ao nada da modernidade, na intolerancia ou na indiferença.
Nos dois modos de existencia, o Profundo canta ao extremo.
No Oriente do primeiro modo, a Profundidade é superficie, o Profundo subterrâneo.
No Ocidente do segundo modo, a Profundidade não tem rosto e o Profundo se existencializa no absurdo.

René Barbier

Tradução livre: Marly Segreto
Fonte: site de René Barbier www.barbier-rd.nom.fr/
Imagem: Escada – Gaudi

Data: 2009.09.14 | Categoria: Diálogos, Trans | Comentário: 2

novo olhar “Sou mutante. Não anseio a majestades cristalizadas em palavras que não voltam atrás. Eu volto palavras, gestos e sentimentos. Mudam tempos, momentos, situações, mundo… Por que não mudo eu? Livrai-me do engessamento burro da prepotência! Peço desculpas e me sinto aliviada. Se o outro vai desculpar ou não depende do grau de irredutibilidade dele. Aí já não é comigo. Repensar é consertar. Eu não sou sempre da minha opinião. Considero a sua e, se for o caso, reconsidero a minha.” (Paul Valéry)

Data: 2009.08.01 | Categoria: Diálogos, Trans | Comentário: 1

(…) ” Quando vi a palavra “remembramento” no texto, lembrei-me do mito egípcio de Osiris, que foi enganado por seu irmão Set, aprisionado numa arca e lançado às águas do Nilo.

www.companiarte.hpg.ig.com.br/html/mito_mito de osiris

Depois, para evitar que ele fosse encontrado por Isis, que queria sepultá-lo, Set despedaçou o corpo de Osíris espalhando os pedaços por diversos lugares. Mas Isis, numa busca incansável, conseguiu encontrar e reunir os pedaços, faltando apenas um, que foi engolido por um peixe.

Como Osiris era uma divindade agraria associada ao movimento de germinação-decomposição das plantas, o sentido de morte e regeneração está presente nesse mito. Parece-me que ele também traz um sentido de delimitação, de separação numa individualidade (aprisionamento na arca) que é lançada no fluxo da vida. Em seguida, vem a consciência da mutilação, dissociação, desintegração, fragmentação de um eu plural que ainda não encontrou verdadeiramente a sua singularidade. Isis poderia representar aquela parte em nós que, ciente desse desmembramento, vai em busca dos pedaços para poder reuní-los, uma consciência unificadora. A parte que ficou faltando, engolida pelo peixe, passa o sentido da potencialidade, sempre presente, de uma reintegração em um nível mais elevado e primordial.

Esse mito nos fala dessa busca de uma unidade integrativa de nossas fragmentações.”

Postagem de Marly Segreto sobre a obra Formação do Sujeito e Transdisciplinaridade, de Patrick Paul .
Participe: www.centrans.com.br/moodle Encontros Abertos – Forum : A relação homem/ser é uma relação de identidade? , basta se cadastrar.

Data: 2009.05.12 | Categoria: Diálogo com o Milênio, Diálogos, Trans | Comentário: 3

Juan Miro   Dancer 1…na dança de Juan Miró…
Alexandra Kuechenberg. bricked thread askew2 1…no vestígio na parede de Alexandra Kuechenberg…
Jen Stark. Piece of an infinite wholeROLL…nos papéis coloridos de Jen Stark…
Paul Friedlander…nas luzes de Paul Friedlander…
Peter Crane. Kew Gardens. Transpar  ncia…nas transparências de Peter Crane…
Quinn. Planet. Chatsworth House…no baby Planet de Quinn…Sue Blackwell…no livro de Sue Blackwell.

Marly