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MUTANTE

A relação homem/ser é uma relação de identidade?
(…) ” Quando vi a palavra “remembramento” no texto, lembrei-me do mito egípcio de Osiris, que foi enganado por seu irmão Set, aprisionado numa arca e lançado às águas do Nilo.

Depois, para evitar que ele fosse encontrado por Isis, que queria sepultá-lo, Set despedaçou o corpo de Osíris espalhando os pedaços por diversos lugares. Mas Isis, numa busca incansável, conseguiu encontrar e reunir os pedaços, faltando apenas um, que foi engolido por um peixe.
Como Osiris era uma divindade agraria associada ao movimento de germinação-decomposição das plantas, o sentido de morte e regeneração está presente nesse mito. Parece-me que ele também traz um sentido de delimitação, de separação numa individualidade (aprisionamento na arca) que é lançada no fluxo da vida. Em seguida, vem a consciência da mutilação, dissociação, desintegração, fragmentação de um eu plural que ainda não encontrou verdadeiramente a sua singularidade. Isis poderia representar aquela parte em nós que, ciente desse desmembramento, vai em busca dos pedaços para poder reuní-los, uma consciência unificadora. A parte que ficou faltando, engolida pelo peixe, passa o sentido da potencialidade, sempre presente, de uma reintegração em um nível mais elevado e primordial.
Esse mito nos fala dessa busca de uma unidade integrativa de nossas fragmentações.”
Postagem de Marly Segreto sobre a obra Formação do Sujeito e Transdisciplinaridade, de Patrick Paul .
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Imagens de leveza…







Marly
3 comentários »Diálogo com o Milênio - Convite
Estamos convidando você para um novo diálogo com seu próprio processo de Autoformação - onde aprendemos conosco, com os outros e com o entorno. Todos juntos em contínua co-formação! Ser…conviver…interagir…transformar…vir a ser.
Desta vez focando Italo Calvino e sua obra póstuma ” Seis propostas para o próximo milênio”, trabalho a que o autor referia-se como Lições americanas, e que acabou por transformar-se em subtítulo da publicação póstuma.
Convidado pela Universidade de Harvard, em 1984, para oferecer um ciclo de seis conferências, faleceu em 1985, em Siena, na Itália. Deixou prontos os textos das cinco primeiras: e a que seria a última, Consistência, Calvino havia deixado para preparar em Harvard. Ficou o legado literário de uma dos maiores escritores do século XX, uma referência nos caminhos da literatura do terceiro milênio.
Não é um diálogo de especialistas em literatura, mas de leitores de sua própria arte & vida, como cada um de nós:
“Em meio a cada vez mais aguda crise contemporânea da linguagem, o grande escritor italiano identifica a seis qualidades que apenas a literatura pode salvar – Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, Multiplicidade, Consistência - , virtudes a nortear não apenas as atividades dos escritores, mas cada um dos gestos de nossa existência.” (contracapa da obra: CALVINO, Ítalo – Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.).
Obras diversas de Calvino ou de outros autores de qualquer área do conhecimento poderão compor e enriquecer esse painel reflexivo sobre a vida no milênio em que vivemos.
Sejam todos bem-vindos, companheiros de Aprendizagem!
6 comentários »Poemas que aparecem no nosso dia e deixam recado…
LEITURA
Adélia Prado
Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.
EIXO
Eixo, principio, a vésica que permite proporcionalidade, mediação, consciência. Sim “consciência equilibradora” entre o imutável e o mutável, entre o reino arquetípico e o reino sensível, entre realidade e realismo, entre unificação e pluralismo (Lawlor, Robert. Geometria sagrada).
CONSCIÊNCIA UNIVERSAL
CONSCIÊNCIA EQUILIBRADORA (vésica)
CONSCIÊNCIA EMPÍRICA
O campo visual muda para pessoas que vivem em habitats diferentes.
O campo visual muda para quem vê de outras maneiras.
O campo visual de um aleijado sentado no meio da calçada da Av. Paulista é outro, não é como o de alguém que se mantém em sua verticalidade.
Eu posso enxergar como as imagens criadas pelo pintor Francis Bacon.

Esta forma visual de ver o mundo me permite sair das linhas que constantemente definem os objetos que estão a minha volta, ao meu redor, e me traz flexibilidade.
Assim como os esquimós que, pela luz e brancos intensos e múltiplos, perdem a noção da linha de horizonte e se permitem verticalidades diferentes das nossas em sua arte, eu, no obscuro de um buraco macular vejo outro mundo: o vazio semi-obscuro das possibilidades e de novas configurações.
Wolfflin, um historiador de Arte, utiliza a palavra malesich para designar “a massa por oposição ao contorno”. Mal, deriva de mácula, a mancha, de onde malen é pintar e maler, pintor” (Deleuze, Gilles. A lógica da sensação).
O rizoma é uma forma de organização em que os elementos não seguem linhas de subordinação hierárquica e não tem centro (eixo).
Viver, ser na vertical.
Morrer, ser na horizontal.
Viver e morrer , desprender-se.
Perder o eixo.
Deslizar o eixo
Deslocar o eixo.
Largar o eixo.
(???????????????)
…………………………………………………..
Está aberto o diálogo…
Adriana
2 comentários »Repercussão e ressonâncias

Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma cousa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(Álvaro de Campos)
A palavra, a locução só é possível a partir de um lócus que lhe dá suporte, de um centro de emissão e de ressonância, diz Gerard de Sorval (La Marelle, ou les sept marches du paradis). Trata-se de encontrar um lugar no interior da alma a partir do qual se realiza um estado primordial, de participar de uma luz interior que não é o reflexo de uma luz do mundo exterior.
E na linguagem poética, a imagem isolada, a frase que a desenvolve, o verso ou o que é irradiado por ele formam espaços de linguagem, diz G. Bachelard (A poética do espaço).
Como é que o aparecimento de uma imagem poética singular pode atuar em outras almas, em outros corações, apesar de todas as barreiras do senso comum, de todos os pensamentos “sensatos”, felizes em sua imobilidade?
A poesia é uma alma inaugurando uma forma e fazendo dela a sua morada.
O leitor não deve encarar a imagem poética como um objeto, muito menos como um substituto do objeto, mas captar sua realidade específica. O poeta fala no limiar do ser. A imagem poética emerge na consciência como um produto direto do coração da alma, do ser do homem tomado em sua atualidade. E ela terá uma sonoridade de ser quando sentirmos sua repercussão.
Bachelard nos convida a ultrapassar as ressonâncias sentimentais com que recebemos a obra de arte. “As ressonâncias dispersam-se nos diferentes planos da nossa vida no mundo; a repercussão convida-nos a um aprofundamento da nossa própria existência. Na ressonância ouvimos o poema; na repercussão o falamos, ele é nosso. A repercussão opera uma inversão do ser. Parece que o ser do poeta é o nosso ser. A multiplicidade das ressonâncias sai então da unidade de ser da repercussão. Dito de maneira mais simples: trata-se aqui de uma impressão bastante conhecida de todo leitor apaixonado por poemas: o poema nos toma por inteiro”.
O par ressonância-repercussão reanima profundezas em nosso ser, fazendo com que um poder poético se erga em nós. É depois da repercussão que podemos experimentar ressonâncias sentimentais, recordações do nosso passado, pois a imagem atingiu as profundezas antes de emocionar a superfície. “E isso é verdade numa simples experiência de leitura. Essa imagem que a leitura do poema nos oferece torna-se realmente nossa. Enraíza-se em nós mesmos. Nós a recebemos, mas sentimos a impressão de que teríamos podido criá-la, de que deveríamos tê-la criado. A imagem torna-se um ser novo da nossa linguagem, nos expressa tornando-nos aquilo que ela expressa - noutras palavras, ela é ao mesmo tempo um devir de expressão e um devir do nosso ser. Aqui, a expressão cria o ser”.
Marly
3 comentários »Olhares…

Podemos observar partes de um objeto, de um fenômeno ou de nós mesmos, mas não podemos perder de vista a relação dessas partes com o todo em que estão inseridas, suas interligações e articulações, seu contexto. Além disso, é preciso considerar a existência de pontos cegos, do ainda não visto, pois não conseguimos esgotar o que há p/ ser conhecido. O que nos coloca diante da necessidade de reconher a incompletude do conhecimento e seu devir possível.
Hoje, a neutralidade do observador vem sendo questionada. O sujeito é visto como implicado no processo de observação: a auto-referência. Mas podemos cair na armadilha do « subjetivismo ». Daí a importância de nos observarmos observando, de perceber o que está envolvido em nosso próprio processo de observação. Além disso, as trocas intersubjetivas nos permitem sair de uma observação exageradamente auto-centrada, abrindo outros olhares, sentidos e significados que podem ampliar os nossos e nos ajudar a perceber os aspectos em que estamos fixados e que nos impedem de avançar no processo de conhecimento e de autoconhecimento. São olhares que nos ajudam a ver melhor.
O olhar partidário, ou seja, os princípios teórico/conceitual/filosófico/existencial, os pressupostos em que nos apoiamos em nossa observação podem nos fazer crer que tudo pode ser determinado, previsto e controlado dentro dos parâmetros rígidos que nos impusemos. E o que escapa a estes parâmetros é desconsiderado. Essa unilateralidade nos impede de perceber a riqueza contida no indeterminado, no imprevisível, no emergente. Nossa observação pode atravessar esses muros, valorizar a não linearidade, os saltos, os vazios potencializadores e o que se apresenta em cada momento, num processo de observação que vai se fazendo ao observar.
Estes três limites são indissociáveis uns dos outros, estão em permanente interrelação. Cabe a nós ultrapassá-los… ou nos conformarmos com o já visto, o já sabido, o já experimentado…
Em Uma arte de cuidar – estilo alexandrino, Jean Yves Leloup propõe uma Escola do Olhar , que pode nos ajudar a melhorar a qualidade do nosso olhar em nosso trabalho de auto-observação :
O primeiro olhar é o do ver – eu vejo (constato)
O segundo é o olhar da ciência – eu observo, eu analiso (aprofundo o que vejo)
O terceiro olhar é o que pergunta – eu interrogo (o que é, como se manifesta?)
O quarto olhar é o que se pergunta – eu me interrogo (como é que vejo, como conheço?)
O quinto olhar se abre para o sentido – eu acolho o sentido (antes de interpretá-lo).
O sexto olhar é o da interpretação – eu interpreto (de maneira criadora)
O sétimo olhar é o que direciona e liberta – vá com sentido! (Vá rumo a você mesmo, você não está só!)
Marly
3 comentários »