Arquivos de categorias: Diálogos

Data: 2012.01.15 | Categoria: Diálogos, Solilóquio | Comentário: 1

Aqui, solilóquios de quem se aventurar “a criar fronteiras flexíveis, através da ousadia necessária para abrir espaços de questionamentos”. (TROCMÉ-FABRE, Hélène. Reinventar o Ofício de Aprender TRIOM, 2010) .

Embora muitos dicionários registrem as palavras solilóquio (Do latim “solilóquium” (solus = sozinho e loqui = falar); conversa de alguém consigo mesmo) e monólogo como sinônimas, outros advertem: “. Distingue-se do monólogo (fala ou discurso por uma única pessoa em teatro ou oratória, etc.) porque, embora etimologicamente de igual significado, o Solilóquio é uma espécie de diálogo do autor com sua alma, com sua consciência, um “autodialogo” …”

“O solilóquio s é uma técnica frequentemente usada nos palcos teatrais ou nos romances. Termo de procedência latina, ele tem o sentido de ‘falar sozinho’. Enquanto no monólogo o personagem se dirige ao espectador ou ao leitor, nesta arte o enunciador dialoga consigo mesmo ou com sua alma, com a diferença de que não resume seus pensamentos ao plano de sua consciência, como no monólogo interior, mas os enuncia em voz alta diante de outrem, embora ignore sua presença. No monólogo interior as expressões orais estão restritas ao nível subconsciente, portanto elas são emitidas irracionalmente, sem lógica alguma; os sentimentos jorram desprovidos de qualquer coerência. Contrário a este recurso, o solilóquio é organizado segundo padrões lógicos e com nexos racionais, mesmo que os pensamentos procedam de uma fonte psíquica e não do plano da razão.

Monólogos e solilóquios têm em comum o fato dos pensamentos e emoções partirem de um único ser, ou seja, a fala se resume somente a ele, portanto não há interlocutores que dialogam, mas sim uma criatura que derrama no palco ou nas páginas de um romance suas idéias e sentimentos. “
(Ana Lucia Santana in http://www.infoescola.com/comunicacao/soliloquio/)

Neste janeiro 2012, como nos anteriores, dedico-me à leitura literária e trarei alguns trechos do livro Clarabóia, obra de José Saramago publicada postumamente, que ganhei de presente. Clarabóia é uma palavra linda, antiga, que sugere respiro, ventilação, passagem da luz. (segundo os dicionários “ s.f. Abertura envidraçada, com caixilhos, feita no teto ou na parede externa de prédios ou casas, a fim de permitir a passagem da luz; olho-de-boi.”).

jose saramago claraboia 1

“Tia Amélia nunca dizia palavras supérfluas. Apenas as necessárias e não mais que as indispensáveis. Mas dizia-as de uma maneira que aqueles que a ouviam ficavam a apreciar o valor da concisão. As palavras pareciam nasce-lhe na boca no momento em que eram ditas: vinham ainda repletas de significação, pesadas de sentido, virgens. Por isso dominavam e convenciam.”
(José Saramago. Clarabóia. Companhia das Letras, 2011, p.18)

Ainda não sei porque as palavras clarabóia e solilóquio entrelaçaram-se aqui…
TCris

Data: 2011.05.11 | Categoria: Companheiros de Aprendizagem, Diálogos, Notícias, Trans | Comentário: 0

DSC08087   Olere… “E a canoa saiu se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
… Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa…
… A gente teve que se acostumar com aquilo… a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade”.

Guimarães Rosa – A terceira margem do rio

Dando continuidade à série Diálogos Transdisciplinares, o Centro de Educação Transdisciplinar – CETRANS convida a todos para a apresentação de OLERÊ, QUERO VER: CONTRADIÇÃO – CONCEITOS E
REPRESENTAÇÕES, que será realizada no dia 18/05/2011 às 20 hs, em sua sede: R. Paracatu, 309 – salão de eventos – Saúde – São Paulo – SP.

Adriana Caccuri, Maria F. de Mello e Vitória M. de Barros compartilharão o trabalho apresentado no II Ateliers sur la Contradiction, realizado em março deste ano, na École Nationale Supérieure des Mines de Saint-Etienne – França.

“… lançar insights e tornar conceitos básicos sobre contradição mais acessíveis a uma comunidade mais ampla, que atua fora do campo da filosofia ou da lógica. Mais especificamente, depois de revisitar exemplos representativos do desenvolvimento histórico da dialética e da trialética, construímos marcos que consideramos relevantes, explorando dois aspectos. O primeiro aspecto é ilustrar alguns conceitos em expressões poéticas, em representações virtuais e físicas. O segundo aspecto é delinear as características básicas destes marcos conceituais e as relações entre eles. A intenção em revisitar alguns destes campos de conhecimento e de sabedoria, suas dinâmicas e processos emergiram da necessidade de melhor compreender, integrar e comunicar o ciclo percepção-ação na esfera do sendo e fazendo”

Adriana Caccuri é uma das criadoras da Companhia de Aprendizagem. Estaremos lá!

Os interessados deverão confirmar presença até 17/05 através do e-mail cetrans@cetrans.com.br

Imagem obtida em http://cetrans.ning.com/

Data: 2010.11.22 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Itinerância | Comentário: 0

O Carro de Feno - Bosch
O Carro de feno – Hieronymus Bosch

Fomos para Itaici – um local aprazível e tranquilo que descansa o corpo e inspira a alma. Fizemos um curso/retiro sobre nosso olhar para o Sagrado através do estudo dos Ícones que o professor – o jesuíta Pe. Fernandes, diretor do Centro Loyola de Fé e Cultura, ligado a PUC-Rio -, tão brilhantemente ministrou.

Finalizando o curso ele apresentou a obra medieval de Hieronymus Bosch, O Carro de Feno, criada cerca de 1516 e hoje alojada no Museu do Prado de Madri. A obra tríptica baseia-se em um provérbio flamengo que diz: “O mundo é como um carro de feno e cada um colhe o que pode”. O feno, como matéria-prima necessária na idade média, servia para alimentar os animais que garantiam a subsistência, aquecer do frio e iluminar como pavios de tochas, mas também era de frágil consistência pois apodrecia e era altamente inflamável. Após a apresentação detalhada da leitura simbólica das imagens criadas pelo artista e conduzida pelo professor, o grupo de participantes do curso chegou à conclusão inequívoca que a pintura atemporal retrata também os dias de hoje.

Disse-nos o professor, que 80% da produção cultural da humanidade é uma tentativa de apreender, registrar, flagrar o Sagrado (o Invisível que está além de nós). Foi aí que fez uma importante distinção: o que achamos bonito pertence à dimensão filosófica da Estética (como área do Conhecimento) e onde existe a Beleza temos a manifestação do Sagrado. Aprendi então que existe uma Teologia da Beleza, o que muito me encantou, pois sempre acreditei leigamente que a Beleza educa e transforma.

Abraços a todos
TCris e Monica

Data: 2010.09.03 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 1

desaprender
Muita coisa aprendi
No decurso da minha vida
Mas só no fim da vida
Aprendi a arte dificílima
De desaprender…
Desaprender os erros sem conta
Que os sentidos percebem
Na sua erudita ignorância…
Aprendera ele que os fatos externos
São a própria Realidade.
Aprendera que este mundo
Que os sentidos percebem
E o intelecto concebe,
São a realíssima
E única Realidade…
E por largos anos
Andei escravizado por essa ilusão.
Pois, que admira?
Se, por tantos séculos e milênios,
Dormira a humanidade nas trevas,
Como poderia eu, em poucos decênios,
Despertar para a luz?
Até que, finalmente, descobri
A Realidade para além das facticidades,
A alma do eterno Ser
No corpo desse efêmero parecer.
Hoje sei que os fatos são meros reflexos
No espelho bidimensional de tempo e espaço,
Reflexos da Realidade,
Que está em sentido oposto
A esses fatos refletidos
No espelho de tempo e espaço.

Mas só Deus sabe quanto esforço,
Quantos sofrimentos,
E quanta agonia me custou
Essa nova atitude,
Essa meia-volta que tive de dar
Ante o espelho do mundo das velhas ilusões,
Para enxergar o novo mundo da verdade!
Esse movimento de 180 graus,
Que dei em face do refletor,
Essa conversão dos conhecidos finitos
Para o desconhecido Infinito
Me custou o holocausto do meu ego,
Esse sangrento egocídio,
Que a verdade me exigiu.

Mas agora, de costas para os fatos
E de rosto para a Realidade,
Me sinto grandemente liberto
E jubilosamente feliz
E, em vez de amar o mundo sem Deus,
Amo o mundo em Deus
Porque vejo em cada fato efêmero
O reflexo da Realidade eterna.

(Huberto Rohden – Escalando o Himalaia – Ed. Martin Claret)

Huberto Rohden (1893 – 1981) filósofo, educador e teólogo catarinense, radicado em S. Paulo. Padre jesuíta durante o início da carreira literária, escreveu mais de 100 obras enfatizando o autoconhecimento, a autoeducação e a autorealização. Graduou-se em Ciências, Filosofia e Teologia pelas Universidades de Innsbruck (Áustria), Valkenburg (Holanda) e Nápoles (Itália). Fundador da Instituição Cultural e Beneficente Alvorada (1952), lecionou na Universidade de Princeton e na American University (EUA), e na Universidade Mackenzie (SP).

Imagem obtida em: http://reserva-literaria.blogspot.com

Data: 2010.08.04 | Categoria: Diálogos, Para refletir..., Trans | Comentário: 1

pena escrevendo Certo dia, uma formiga que caminhava perdida sobre uma folha de papel viu uma pena que escrevia em finos e negros movimentos ritmados.

— Que maravilha! – exclamou. — Essa coisa notável possui vida própria! E faz rabiscos tão extensos e com tanta energia nesta bela superfície que chega a se igualar aos esforços de todas as formigas do mundo. Os rabiscos que faz! Parecem formigas! Não uma, mas milhões de formigas correndo juntas!

Ela repetiu suas idéias para uma companheira, que ficou interessada em sua história e elogiou seus poderes de observação e reflexão. Mas outra formiga disse:

— Aproveitando-me de seus esforços, devo admiti-lo, tenho observado esse estranho objeto e cheguei à conclusão de que ele não é o dono de seu próprio trabalho. Você falhou em observar que a pena está ligada a outros objetos que a rodeiam e conduzem. Estes devem ser considerados como a origem de seu movimento e reconhecidos como tal.

Desse modo as formigas descobriram os dedos.

Passado algum tempo, outra formiga escalou os dedos e percebeu que eles compreendiam a mão, que ela explorou total e minuciosamente, ao estilo da sua espécie. Voltou então para junto de suas companheiras e gritou-lhes:

— Formigas! Tenho importantes notícias para vocês. Aqueles pequenos objetos que rodeiam a pena fazem parte de outro muito maior. E este é que realmente dá movimento a todos eles.

Mas então as formigas descobriram que a mão estava ligada a um braço; que o braço estava ligado a um corpo; que não existia uma, e sim duas mãos; e que existiam pés, que não escreviam.

As investigações prosseguiram e, assim, as formigas puderam formar uma idéia clara da mecânica da escrita. Porém, através de seu método de investigação costumeiro, não conseguiram descobrir o sentido e a intenção do que estava escrito, nem como aquilo era, em última análise, governado.

Idries Shah, Caravan of Dreams. London, Octagon Press, 1991
Citado por Mônica Cavalcante Lepri – As “idéias vivas” de Gregory Bateson, em Ciência Hoje, vol. 38, nº. 228, julho/2006, p. 19.

Esta pequena história me pareceu exemplificar, de uma maneira simples e metafórica, a incompletude de nosso conhecimento. Sempre vamos nos defrontar com algo não percebido, não considerado, não sabido… que impulsiona a continuidade do processo de descoberta.

Ela também nos fala que o conhecimento das partes não pode ser conclusivo sem o conhecimento do todo, e vice versa, exigindo o desenvolvimento de um pensamento complexo, transdisciplinar, que leva em conta a interdependência de todos os fatores, o seu sentido e contexto, o “padrão que liga”, como diz Gregory Bateson.

Aliás, as idéias de Bateson merecem vários posts, por sua abrangência e originalidade. Aguardem…

Marly Segreto

Data: 2010.07.24 | Categoria: Diálogos, Para refletir..., Trans | Comentário: 0

O primeiro contato que tive com Louis Lavelle foi através de uma citação num artigo de P. Galvani (1), que vem conduzindo nossas reflexões sobre o processo de autoformação desde o início da Companhia. Eu havia ficado impressionada com a profundadidade de seu pensamento. E, por esses “acasos” que acontecem, chegou em minhas mãos um livro de Lavelle, do qual traduzo um trecho para compartilhar com vocês.

espelho  1  1

Conhecimento de si e do outro

“Ser é sempre mais que conhecer. Pois o conhecimento é um espetáculo que nós apresentamos a nós mesmos. Também, não há nada que seja mais desconhecido do que o ser que nós somos; nós não chegaremos alguma vez a abandonar nossa imagem. Num certo sentido, posso dizer que todo homem sabe mais de mim do que eu mesmo: mas isso não é para ele uma vantagem. Pois não é preciso saber com muita exatidão o que se é para ser de fato aquele que se é.

É natural que eu conheça melhor os outros que a mim mesmo, já que estou bem ocupado em me construir. E é por isso que há tanta presunção, falsa aparência e perda de tempo nesse cuidado com que eu me considero, que me atrasa quando me é preciso agir; eu devo abandoná-lo ao outro que não tem, de modo algum, o encargo direto do que virei a ser e que, inversamente a mim, interessa-se mais por meu ser realizado do que pelo ato que o realiza. Ele só vê em mim o homem manifestado, aquele que se distingue de todos os outros por seu caráter e por suas fraquezas, e não o homem que eu desejo ser e que procura sempre ultrapassar sua natureza e curar suas imperfeições. Eu experimento em mim, indefinidamente, a presença de uma potência que ainda não foi empregada, de uma esperança que ainda não foi frustrada. Um outro somente observa em mim o ser que eu posso mostrar, e eu, o ser que não mostrarei jamais. Inversamente ao que ele faz, eu tenho sempre os olhos fixados sobre o que eu não sou, bem mais do que sobre o que eu sou, sobre o meu ideal mais do que sobre meu estado, sobre a realização de meus desejos mais do que sobre a distância que me separa deles.

O mal-entendido que reina entre os homens provém sempre da perspectiva diferente pela qual cada um se vê e vê o outro. Pois cada um só vê em si mesmo as suas potencialidades e só vê no outro as suas ações. E o crédito que dá a si mesmo, recusa ao outro. Uma afinidade começa a uni-los a partir do momento em que ambos, ultrapassando o que podem mostrar, entram nessa confiança mútua, que já é uma muda cooperação.

Mas o egoísmo produz uma cegueira que, no momento em que descubro em mim um ser que sente, que pensa e que age, só deixa aparecer aos outros os objetos que devo descrever ou os instrumentos de que pude me servir. Não é preciso, então, ficar espantado pelo fato de que aquele que conhece todas as coisas em si não conheça a si mesmo, nem mesmo que, devido ao sentido contrário, cada um permaneça desconhecido ao mesmo tempo para si mesmo e pelos outros.

O mais difícil em nossas relações com os outros seres, é aquilo que parece ser talvez o mais simples: reconhecer essa existência própria, que os faz semelhantes a nós e, no entanto, diferente de nós, essa presença neles de uma individualidade única e insubstituível, de uma iniciativa e de uma liberdade, de uma vocação que lhes pertence e que nós devemos ajudá-los a realizar, ao invés de nos mostrar ressentidos, ou tentar curvá-los para conformá-los à nossa. Para nós, essa é a primeira palavra da caridade, e pode talvez ser também a última.”

LAVELLE, Louis. L’erreur de Narcisse, Paris: La Table Ronde, 2003.

L. Lavelle (1883-1951) – Filósofo francês, foi professor no College de France a na Sorbonne, membro da Academie des Sciences Morales et Politiques, sua principal obra é La Dialectique de l’éternel présent, em 4 volumes.

(1) GALVANI, P. “Autoformação, uma perspectiva transpessoal, transdisciplinar e transcultural”, em Educação e Transdisciplinaridade II, Coord. Exec. CETRANS, São Paulo: Triom, 2002, p. 101-102.

Imagem: Espelho. http://assisbrasil.org/joao/elvio.htm

Marly Segreto

Data: 2010.05.30 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 1

organic cosmos

Sob o ponto de vista sistêmico, o dinamismo é inerente aos organismos vivos, cujas formas visíveis são “manifestações estáveis de processos subjacentes”. A compatibilidade entre os processos e as manifestações estáveis acontece quando “os processos formam modelos rítmicos – flutuações, oscilações, vibrações, ondas. Na dinâmica da auto-organzação, as flutuações são decisivas, por ser a base da ordem no mundo vivo: as estruturas ordenadas resultam de modelos rítmicos”.

A manifestação de modelos rítmicos pode ser encontrada em todos os níveis, do micro ao macrocosmo: desde os átomos que “são modelos probabilísticos”, passando pelas moléculas que “são estruturas vibratórias”, até os organismos que são modelos de flutuações “multidimensionais e interdependentes”. Ciclos de atividade e repouso, com funções que oscilam em ritmos periódicos são característicos tanto das plantas, como dos animais e dos seres humanos. “Os componentes dos ecossistemas estão interligados através de trocas cíclicas de matéria e energia, as civilizações ascendem e caem em ciclos evolutivos, e o planeta como um todo tem seus ritmos e recorrências enquanto gira em torno de seu eixo e se move ao redor do sol”.

As diferentes formas de agir e de estar no mundo são também a expressão de modelos rítmicos. “A manifestação de uma identidade pessoal única é uma importante característica dos humanos, e parece que essa identidade pode ser essencialmente uma identidade de ritmo”. Cada um de nós pode ser reconhecido pelo modo de falar, respirar, movimentar o corpo, pelos gestos que nos são peculiares, todos eles representando diferentes tipos de modelos rítmicos. Mas também existem ritmos “fixos” como, por exemplo, as impressões digitais e a caligrafia, que identificam um único indivíduo. Os modelos rítmicos que caracterizam um ser humano em sua individualidade “são diferentes manifestações do mesmo ritmo pessoal, uma pulsação interior, que é a essência da identidade pessoal”.

O ritmo tem um papel fundamental tanto na auto-organização e auto-expressão, como na percepção sensorial e na comunicação. “Quando enxergamos, nosso cérebro transforma as vibrações da luz em pulsações rítmicas dos seus neurônios. Transformações semelhantes de modelos rítmicos ocorrem no processo auditivo, e até a percepção do odor parece estar baseada em frequências que envolvem ritmos. A noção cartesiana de objetos separados e nossa experiência com máquinas fotográficas levaram-nos a supor que nossos sentidos criam alguma espécie de imagem interna que é uma reprodução fiel da realidade. Mas não é assim que a percepção sensorial funciona”. É o nosso mundo de signos, conceitos e idéias que atribui às imagens a condição de objetos separados. “A realidade à nossa volta é uma contínua dança rítmica”, e nossos sentidos só conseguem traduzir algumas de suas vibrações de acordo com as frequências que o nosso cérebro está sendo capaz de processar.

Assim como no processo perceptivo, o ritmo tem um importante papel nos diferentes modos de comunicação e de interação dos seres vivos. Na comunicação humana há uma sincronização e uma interligação de ritmos individuais. “Toda conversação envolve uma dança sutil” (em sua maior parte invisível, ou não percebida quando não se está atento a isso) na qual se dá uma sincronização entre: o que e como se fala, os mínimos movimentos corporais de quem fala e os movimentos correspondentes de quem ouve. Todos os envolvidos na conversação “estão entrelaçados numa sequência intrincada e precisamente sincronizada de movimentos rítmicos, que dura enquanto eles permanecem atentos e envolvidos em sua conversa”.

É possível relacionar essa dança sutil da conversação com o que diz Humberto Maturana em relação à linguagem:

A linguagem como fenômeno, como um operar do observador, não ocorre na cabeça nem consiste num conjunto de regras, mas ocorre no espaço de relações e pertence ao âmbito das coordenações de ações, como um modo de fluir nelas. Se minha estrutura muda, muda meu modo de estar em relação com os demais e, portanto, muda meu linguajar. Se muda meu linguajar, muda o espaço do linguajeio no qual estou e mudam as interações das quais participo com meu linguajeio .

Daí a importância de reconhecermos que os processos de aprendizagem, de desenvolvimento e de evolução são expressões de processos de autotransformação e de autotranscendência. Pois os seres vivos trazem em si, potencialmente, a capacidade de superar a si mesmos, criando novas estruturas, novos comportamentos, novas formas de interagir. E é justamente essa auto-superação criativa em busca do novo que, em seu devido tempo, leva a um desdobramento ordenado da complexidade, que parece ser uma propriedade fundamental da vida, uma característica básica da dança do universo.

“Quem dança
Não é quem levanta poeira
Quem dança
é quem reinventa o chão”

(Mia Couto)

Fonte: PISTÓIA, Lenise Henz Caçula. “A perspectiva sistêmica da vida”, em Gregory Bateson e a educação: possíveis entrelaçamentos. Tese de Doutorado em Educação, UFRGS, 2009, p. 74-76.

Marly Segreto

Data: 2010.05.16 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 4

holosGenesisP. Meirieu, no artigo Educação ambiental: por quê? como? Do mundo-objeto ao mundo-projeto, oferece três pistas do que poderia ser uma proposta mais consequente para a educação ambiental:

1. “fazer existir um mundo”; 2. “fazer os outros existirem no mundo”; 3. “passar de um mundo-objeto para um mundo-projeto“.

“Fazer existir um mundo”, em sua concretude e em sua diversidade, “como universo que resiste a nós e que não nos pertence”, significa ajudar a compreender que “o mundo não se reduz ao que eu gosto, ao que quero ou ao que desejaria que ele fosse, mas que ele existe, e que ele existe exteriormente a mim mesmo… ainda que eu faça parte dele”.

“Fazer os outros existirem no mundo”… não é simples. Trata-se de “construir a distinção básica entre espaço privado e espaço público”. De compreender que “os interesses privados não podem ser impostos ou competir ferozmente com o espaço público”. E, ao mesmo tempo, reconhecer o espaço privado como direito à intimidade, como um espaço em que cada um pode se expressar, com suas necessidades e desejos, em seu processo de autodescoberta. Da difícil confrontação entre os interesses individuais entre si e com o espaço público, “pode nascer o interesse comum. O interesse de todos. O do conjunto dos homens e do planeta em que vivem”.

“Passar de um mundo-objeto para um mundo-projeto”

O que é um mundo-objeto (MO)? O que é um mundo-projeto (MP)?

Um MO é o mundo shopping-center, do consumismo. Um MP é o “mundo-tesouro, espaço de busca oferecido à nossa inventividade”.

Um MO “é o mundo que eu possuo, que me fascina, me aterroriza, me espanta…”. Um MP “é o mundo que eu interrogo, questiono, interpelo…”.

Um MO “é o mundo como totalidade exterior a mim, que me condena ao parasitismo”. Um MP “é o mundo como conjunto de um universo de interações, e sobre o qual, onde quer que esteja, eu posso agir”.

Um MO “é o mundo em que o eu é prisioneiro do nós, o nós prisioneiro do a gente”. Um MP “é o mundo em que o eu participa livremente do nós, em que o nós é gerador de solidariedade”.

Um MO “é o mundo em que preciso me impor, conquistar um lugar ao sol, encontrar um grupo que me aceite em seu território”. Um MP “é o mundo em que sou aceito em minha singularidade assumida e que me convida a nele exercer um papel”.

Um MO “é o mundo em que me submeto à lei imposta pelos outros”. Um MP “é o mundo em que participo da elaboração da lei”.

Um MO “é o mundo em que a imagem se impõe a mim como opinião normativa”. Um MP “é o mundo em que posso contestar a opinião buscando a minha verdade”.

Um Mo “é o mundo em que a organização é percebida como dependente da ordem das coisas”. Um MP “é o mundo em que a organização é percebida como dependendo da vontade dos homens”.

Um Mo “é o mundo que está unicamente nas mãos das forças econômicas”. Um MP “é o mundo que depende da decisão política, da vontade de todos que se associam livremente e que recusam toda forma de imposição, inclusive a do mercado”.

“A Educação Ambiental, tal como tentei propor, é uma educação para a responsabilidade e para a cidadania planetária, e como tal, ela é o próprio exercício (…) do princípio de responsabilidade em relação ao futuro (…), a pedra de toque de nossa moral coletiva” – finaliza Meirieu.

MEIRIEU, Philippe. Éduquer à l’environnement: pourquoi? comment? – Du monde-objet au monde-projet
http://www.meirieu.com/ARTICLES/MONDE%20OBJET_PROJET-RTF.pdf

P. Meirieu é professor universitário em Ciências da Educação – Lumière-Lyon 2 – França. Responsável pedagógico da cadeia de televisão CAP CANAL. Dirige a coleção “Pédagogies” da ESF editor.

Imagem – http://transnet.ning.com/forum/topics/educacao-ambiental-e-a-onda

Compilação e tradução – Marly Segreto