Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo da categoria ‘Diálogo com o Milênio’

Diálogo com o Milenio - Uma pausa nas alturas…

Apresentamos aqui o Edson Struminski (Du Bois), companheiro de Aprendizagem quando se trata de Calvino. Ele é montanhista e traçou um paralelo entre a proposta de Exatidão de Calvino e o montanhismo, no seu artigo Escalando com Ítalo Calvino, parte 3 postado em Abril de 2009.

Fomos lá conferir, postamos um comentário e ele gentilmente nos retornou. Enquanto isso confira alguns trechos que ele escreveu:

“Calvino nos lança esta pergunta. Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Ele nos lembra, finalmente, que cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis, por isto, para ele, escrever vale à pena.”

Contemplando  o Pico Paraná
Momentos de partilha que o montanhismo oferece…

“Gostaria de terminar esta minha análise do livro do escritor italiano Ítalo Calvino em que ele apresentou propostas para o novo milênio (1), imaginando que se houver um leitor, mesmo que somente um entre os tantos que passam por este blog diariamente, que eventualmente se torne uma pessoa interessada nas propostas de Calvino para aperfeiçoar a literatura e que enxergue nestas propostas uma estranha, ainda que possível fonte de diálogo com o montanhismo (e com possibilidade de aperfeiçoá-lo), então estes textos terão valido a pena ser escritos.”

Valeu, Edson!

Conheça na íntegra o artigo acessando o link.

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Diálogo com o Milênio - a busca da Exatidão

Cynthia Gavião -  ateliercynthiagaviao.blogspot.com/
[Precisão] A exatidão
peça da Coleção Six Memos de Cynthia Gavião inspirada na proposta de Calvino

A palavra associa o traço visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo. Por isto o justo emprego da linguagem é, para mim, aquele que permite o aproximar-se das coisas (presentes ou ausentes) com discrição, atenção e cautela, respeitando o que as coisas (presentes ou ausentes) comunicam sem o recurso das palavras. “

Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990.p.90-91

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Diálogo com o Milênio - Complementaridade entre sintonia e focalização

Para finalizar essa breve reflexão sobre os diferentes ritmos do tempo - assunto sobre o qual há tratados escritos em diferentes ramos do conhecimento - que nos suscitou Calvino no seu ensaio sobre a Rapidez, onde ele frisa bem - “O tema que aqui nos interessa não é a velocidade física, mas a relação entre velocidade física e velocidade mental… ” - trazemos suas considerações finais.

Nelas o autor passeia pela mitologia grega e cita: “Segundo o autor [André Virel, Histoire de notre image. Genebra, 1965)] , um estudioso do imaginário coletivo, de escola – creio – junguiana, Mercúrio e Vulcano representam as duas funções vitais inseparáveis e complementares. Mercúrio, a sintonia ou seja a participação no mundo que nos rodeia; Vulcano a focalização, ou seja a concentração construtiva. Mercúrio e Vulcano são ambos filhos de Júpiter, cujo reino é o da consciência individualizada e socializada.

… A concentração e “craftmanship” de Vulcano são as condições necessárias para se escrever as aventuras e metamorfoses de Mercúrio. A mobilidade e agilidade de Mercúrio são as condições necessárias para que as fainas intermináveis de Vulcano se tornem portadoras de significado, e da ganga mineral informe assumam forma os atributos divinos, cetros ou tridentes, lanças ou diademas.

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O trabalho do escritor deve levar em conta tempos diferentes: o tempo de Mercúrio e o tempo de Vulcano, uma mensagem de imediatismo obtida á força de paciente e minuciosos ajustamentos; uma intuição instantânea que apenas formulada , adquire o caráter definitivo daquilo que não poderia ser de outra forma; mais igualmente o tempo que flui sem outro intento que o de deixar as idéias e os sentimentos se sedimentarem , amadurecerem, libertarem-se de toda impaciência e de toda contingência efêmera.”

Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990.p.66

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A rapidez e o instante

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Ao ler a 2ª proposta de I. Calvino, a Rapidez, lembrei-me de um livro que me acompanha há muitos anos e que me parece novo a cada releitura: Sendas de Oku, de Matsuo Bashô, poeta japonês do séc. XVII. Vislumbrei, então, a possibilidade de fazer uma ponte entre a ocidental rapidez literária, proposta por Calvino como “riqueza das formas breves, com tudo aquilo que elas pressupõem como estilo e como densidade de conteúdo”, e a oriental poética do instante de Bashô.

Sendas de Oku é um dos cinco diários de viagem escritos por Bashô, em que ele inicia dizendo:

“Os meses e os dias são viajantes da eternidade. O ano que se vai e o que vem também são viajantes. Para aqueles que deixam flutuar suas vidas a bordo dos barcos, ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e sua casa mesma é viagem.

Entre os antigos, muitos morreram em plena rota. A mim mesmo, já há muito tempo, como giro de nuvem arrastada pelo vento, agitavam-se em mim pensamentos de perambulação”.

Seus diários são escritos num gênero literário muito em voga na época: o haibun, texto em prosa que rodeia, como se fossem pequenas ilhas, um grupo de haikus. Poemas e passagens em prosa se completam e reciprocamente se iluminam.

Como diz Octavio Paz no mesmo livro, os haikus são construções poéticas de muita simplicidade, com uma concentração verbal em que algumas linhas trazem uma pluralidade de reflexões e alusões, convidando a ver através de suas palavras. Eles revelam o instante poético, a anotação rápida de um momento privilegiado: exclamação poética, caligrafia, pintura e meditação, tudo junto. O haiku de Bashô é também exercício espiritual. E, com delicadeza, ele não nos diz tudo, somente entrega os elementos suficientes para acender uma chispa em nós.

Trégua de vidro:
o som da cigarra
aturde rochas.

Comentando sobre a tradução que fez deste poema, Octavio Paz diz:

“Bashô opõe, sem opô-los expressamente, o material e o imaterial, o silencioso e o sonoro, o visível e o invisível, a quietude do campo perante a agitação humana, a extrema dureza da pedra e a fragilidade do canto das cigarras. Duplo movimento: a consciência intranqüila do poeta sossega e se alivia ao fundir-se na imobilidade da paisagem, a broca sonora da cigarra penetra na rocha muda, o agitado se acalma e o pétreo se abre, o sonoro invisível (o chilrear do inseto) atravessa o visível silencioso (a rocha). Todas estas oposições se resolvem, se fundem, em uma espécie de fixidez instantânea que dura o que duram as dezessete sílabas do poema e que se dissipa como se dissipa a cigarra, a rocha, a paisagem e o poeta que escreve… (…) a palavra trégua – em lugar de quietude, sossego, calma – acentua o caráter instantâneo da experiência que evoca Bashô: momento de suspensão e armistício, o mesmo no mundo natural como na consciência do poeta. Esse momento é silencioso e esse silêncio é transparente: o chio da cigarra se torna visível e transpassa a rocha. Assim, a trégua é de vidro, uma matéria que é homólogo visual do silêncio: as imagens atravessam a transparência do vidro como o som atravessa o silêncio”.

Em seus haikus, Bashô nos revela instantes, somente instantes…

BASHÔ, Matsuo - Sendas de Oku. Tradução: Olga Savary. São Paulo: Roswitha Kempf, 1983.

Marly

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Diálogo com o Milênio - Rapidez é diferente de pressa…

“Dado que me propus em cada uma destas conferências recomendar ao próximo milênio um valor que me seja especialmente caro, o valor que hoje quero recomendar é precisamente este: numa época em que outros “media” triunfam , dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando, mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita.

O século da motorização impôs a velocidade como um valor mensurável, cujos recordes balizam a história do progresso da máquina e do homem. Mas a velocidade mental não pode ser medida e não permite comparações ou disputas, nem pode dispor os resultados obtidos numa perspectiva histórica. A velocidade mental vale por si mesma, pelo prazer que proporciona àqueles que são sensíveis a esse prazer, e não pela utilidade prática que se possa extrair dela. Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza.

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…Na vida prática, o tempo é uma riqueza de que somos avaros; na literatura, o tempo é uma riqueza de que se pode dispor com prodigalidade e indiferença: não se trata de chegar primeiro a um limite preestabelecido; ao contrário, a economia de tempo é uma coisa boa, porque quanto mais tempo economizamos, mais tempo poderemos perder.

A rapidez de estilo e de pensamento quer dizer antes de mais nada agilidade, mobilidade, desenvoltura; qualidades essas que se combinam com uma escrita propensa às divagações, a saltar de um assunto para outro, a perder o fio do relato para re-encontrá-lo ao fim de inumeráveis circunlóquios.” P.59

Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.56-59

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Diálogo com o Milenio - O tempo e seus ritmos

Carlos Magno  Gloria da Idade Media - contoselendasmedi


“Começarei pelo relato de uma antiga lenda.

O imperador Carlos Magno, já em avançada idade, apaixonou-se por uma donzela alemã. Os barões da corte andavam muito preocupados vendo que o soberano, entregue a uma paixão amorosa que o fazia esquecer sua dignidade real, negligenciava os deveres do império. Quando a jovem morreu subitamente, os dignatários respiraram aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. O imperador mandou embalsamar o cadáver e transporta-lo para sua câmara, recusando separar-se dele.

anel
O arcebispo Turpino, apavorado com essa paixão macabra suspeitou que havia ali um sortilégio e quis examinar o cadáver. Oculto sob a língua da morta, encontrou um anel com uma pedra preciosa. A partir do momento em que o anel passou às mãos de Turpino, Carlos Magno apressou-se em mandar sepultar o cadáver e transferiu seu amor pela pessoa do arcebispo. Turpino, para fugir àquela embaraçosa situação, atirou o anel no lago Constança. Carlos Magno apaixonou-se então pelo lago e nunca mais quis se afastar de suas margens.
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Ítalo Calvino, “Rapidez”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.45

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O Mito e a Literatura

Ao tratar da leveza, a primeira das Seis propostas para o próximo milênio, Ítalo Calvino diz ser melhor deixar que seu “discurso se elabore com as imagens da mitologia”, buscando encontrar no mito de Perseu em seu combate com a Medusa uma “alegoria da relação do poeta com o mundo”.

Ortega y Gasset considera o mito como o ponto de partida de toda poesia. E Thomas Mann diz que o mito é um “esquema sem tempo” e que ele é “sem tempo” naquilo em que está sempre presente, como um constante lembrete.

Desse modo, personagens míticas como Perseu, Ulisses e tantos outros, podem ser considerados sempre presentes e são revividos para significar uma situação humana que perdura, independentemente de tempo e lugar.

A palavra mito provém do grego mÿthos, que significa palavra expressa, relato, narração. Como tradição transmitida oralmente, o mito se apresenta na cultura grega antiga como um relato vindo de um tempo que já existiria antes que alguém iniciasse sua narração. “Nesse sentido, o relato mítico não resulta da invenção individual nem da fantasia criadora, mas da transmissão e da memória…”, diz Jean-Pierre Vernant.

É notável o quanto os antigos mitos gregos continuam a alimentar reflexões fundamentais em nossa cultura. Desde a passagem da cultura oral para a cultura escrita, a literatura vem fazendo renascer (atualizando uns ou criando outros) motivos e símbolos que compõem o universo mítico. O texto literário atua como mediador entre a função simbólica e a dimensão mítica da consciência humana.

Segundo Mircea Eliade, “compreender os mitos equivale a reconhecê-los como fenômenos humanos, fenômenos de cultura, criação do espírito – e não como irrupção patológica de instintos, bestialidade ou infantilidade. O mito, oferecendo regras práticas para a orientação do homem, é um ingrediente vital da civilização humana; longe de ser uma fabulação vã, ele é, ao contrário, uma realidade viva, à qual se recorre incessantemente”.

Como diz Calvino, “não devemos ser apressados com os mitos; é melhor deixar que eles se depositem na memória, examinar pacientemente cada detalhe, meditar sobre seu significado…”.

Temos, então, que sair dos quadros habituais do pensamento (escapando do olhar da Medusa?) e, com um olhar indireto, ver o que as imagens revelam a nós e sobre nós.

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Sir Edward Coley Burne-Jones - Perseu mostra a Andrômeda a cabeça da Medusa.

Marly

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Diálogo com o Milenio - escolhendo a Leveza

“Resta ainda aquele fio que começarei a desenrolar logo ao princípio: a literatura como função existencial: a busca da leveza como reação ao peso de viver… p.39

Ghuga Tavora   A Walk in the Clouds - Ghuga Tavora   A Walk in the Clouds
www.flickr.com/photos/oimaginauta

“Evoquei aqui, o xamã e o herói das fábulas, a privação sofrida que se transforma em leveza e permite voar ao reino em que todas as necessidades serão magicamente recompensadas. Falei de bruxas que voavam usando utensílios domésticos, tão modestos quanto pode ser uma cuba. Mas o herói deste conto de Kafka não parece dotado de poderes xamânicos ou feiticeirescos; nem o reino para além das Montanhas de gelo parece aquele em que a cuba vazia encontrará algo que possa enche-la. Tanto mais que se estivesse cheia não teria conseguido voar.

Assim, a cavalo em nossa cuba, iremos ao encontro do próximo milênio sem esperar encontrar nele nada além daquilo que seremos capazes de levar-lhe. A leveza, por exemplo, cujas virtudes esta conferencia procurou ilustrar.” p.41

Ítalo Calvino, “Leveza”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990

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