Arquivo da categoria ‘Diálogo com o Milênio’
Diálogo com o Milênio - Multiplicidade dos possíveis

Mas será que quanto mais o obra tender para a multiplicidade dos possíveis, mais ela se afastará da singularidade do autor, do self de quem escreve com sua sinceridade interior e sua própria verdade?
“Ao contrário”, diz Calvino, “quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis”.
E ele encerra manifestando um desejo: “quem nos dera fosse possível uma obra concebida fora do self, uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvore na primavera e a árvore no outono, a pedra, o cimento, o plástico…”.
Ítalo Calvino, “Multiplicidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.138.
Imagem: Brian Dettmer
2 comentários »Diálogo com o Milenio - Multiplicidade - uma dimensão da Complexidade?

“ Sustentava, entre outras coisas, que as catástrofes inopinadas não são jamais a consequência ou o efeito, como se costumava dizer, de um motivo único, de uma causa singular: mas são como um vórtice, um ponto de depressão ciclônica na consciência do mundo, para os quais conspirava toda uma gama de causalidades convergentes.” p.119. [citação de trecho do romance de Carlo Emilio Garda “ Aquela confusão louca da via Merulana”]
(…) “Quis começar por essa citação por me parecer prestar-se muito bem como intróito ao tema de minha conferência, que é o romance contemporâneo como enciclopédia, como método de conhecimento, e principalmente como rede de conexões entre os fatos, entre as pessoas, entre as coisas do mundo. …Escolhi Gadda não porque se trata de um escritor de minha língua, relativamente pouco conhecido por aqui ( talvez em razão de sua particular complexidade estilística, difícil mesmo para os italianos) , mas sobretudo porque sua filosofia se casa muito bem com seu discurso, no sentido em que ele vê o mundo como um “sistema de sistemas”, em que cada sistema particular condiciona os demais e é condicionado por eles. Carlo Emilio Gadda durante toda sua vida buscou representar o mundo como um rolo, uma embrulhada, um aranzel, sem jamais atenuar-lhe a a complexidade inextricável – ou melhor dizendo, a presença simultânea dos elementos mais heterogêneos que concorrem para a determinação de cada evento.”
Ítalo Calvino, “Multiplicidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.121
Dialógo com o Milenio - Tornar visível o mundo interior
Depois de descrever as nuances do processo criativo e da função capital do imaginário nele, Calvino realça:
(…)”…mas sempre revestida por um invólucro imaginoso, afetivo, de vozes monologantes e dialogantes.” p.105
Concluindo:
(…)“Em suma, meu processo procura unificar a geração espontânea das imagens e a intencionalidade do pensamento discursivo. Mesmo quando o impulso inicial vem da imaginação visiva que põe em funcionamento sua lógica própria, mais cedo ou mais tarde ela vai cair nas malhas de uma outra lógica imposta pelo raciocínio e a expressão verbal. Seja como for, as soluções visuais continuam a ser determinantes, e vez por outra chegam inesperadamente a decidir situações que nem as conjeturas do pensamento nem os recursos da linguagem conseguiriam resolver.” p. 106
E volta a instigar o leitor:
(…) Mas há uma outra definição na qual me reconheço plenamente: a da imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.” p. 106
“Digamos que diversos elementos concorrem para formar a parte visual da imaginação literária: a observação direta do mundo real, a transfiguração fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura em seus vários níveis, e um processo de abstração, condensação e interiorização da experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização quanto na verbalização do pensamento.” p. 110
Finalizando numa declaração apaixonante pelo ato da escrita (mais uma vez, trazendo a complementaridade dos opostos):

(…)“ Seja como for , todas as “realidades” e as “fantasias” só podem tomar forma através da escrita, na qual exterioridade e interioridade , mundo e ego, experiência e fantasia aparecem compostos pela mesma matéria verbal; as visões polimorfas obtidas através dos olhos e da alma encontram-se contidas nas linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas, , de parêntesis; páginas inteiras de sinais alinhados, encostados uns aos outros como grãos de areia, representando o espetáculo variegado do mundo numa superfície sempre igual e sempre diversa, como as dunas impelidas pelo vento do deserto. “ p. 114<
Ítalo Calvino, “Visibilidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990
Diálogo com o Milênio - A visibilidade e o futuro do potencial criativo humano
Depois de introduzir o tema da visibilidade de forma brilhante, recorrendo a exemplos clássicos na literatura , onde ele foi fundamental (como na obra de Dante por exemplo), Calvino alerta sobre a ” imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.” p. 106
Aprofunda então a questão já levantada no ensaio anterior (Exatidão) nos alertando para os rumos que estamos tomando:
“Resta-me esclarecer a parte que nesse golfo fantástico cabe ao imaginário indireto, ou seja, o conjunto de imagens que a cultura nos fornece , seja ela cultura de massa ou outra forma qualquer de tradição. Esta questão suscita de imediato uma outra: que futuro está reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar a “civilização da imagem”? O poder de evocar imagens in absentia continuará a desenvolver-se numa humanidade cada vez mais inundada pelo dilúvio das imagens pré-fabricadas?
Antigamente a memória visiva de um indivíduo estava limitada ao patrimônio de suas experiências diretas e a um reduzido repertório de imagens refletidas pela cultura; a possibilidade de dar formas a mitos pessoais nascia do modo pelo qual os fragmentos dessa memória se combinavam entre si em abordagens inesperadas e sugestivas.

Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos segundos na televisão. Em nossa memória se depositam, por estratos sucessivos, mil estilhaços de imagens, semelhantes a um depósito de lixo, onde é cada vez menos provável que uma delas adquira relevo.” p.107
Ítalo Calvino, “Visibilidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990
Diálogo com o Milenio - O elo entre dois níveis de realidade
[Calvino citando Francis Ponge] (…) “o melhor exemplo de um poeta que se bate com a linguagem das coisas, que parte das coisas e retorna a nós trazendo consigo toda a carga humana que nelas havíamos investido…que reconstrói a fisicidade do mundo por meio da impalpável poeira das palavras”.
Ele continua citando direções divergentes e complementares que o texto pode tomar:
“em Mallarmé a palavra atinge o máximo de exatidão tocando o extremo da abstração e apontando o nada como substância ultima do mundo; em Ponge o mundo tem a forma das coisas mais humildes, contingentes e assimétricas, e a palavra é o meio de dar conta da variedade infinita dessas formas irregulares e minuciosamente complexas.”

E finaliza: “A palavra associa o traço visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo.”
Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.90
1 comentário »Isso e aquilo
Para tratar de um tema que me parece importante na maneira como I. Calvino aborda suas seis propostas, vou utilizar um exemplo extraído de sua própria obra: O visconde partido ao meio (1951).
A trama é centrada na figura de um nobre senhor de terras do século XVII: o visconde Medrado Di Terralba. Ao participar das lutas entre cristãos e turcos, o visconde é atingido e quase estilhaçado por uma bala de canhão. O que sobrou de Medrado é recolhido ao hospital da tropa e, fantástica e maravilhosamente, ele sobrevive com um só braço, uma só perna, meia boca e um único olho.
Essa mutilação do visconde foi desastrosa para os moradores de Terralba, pois parecia ter sido o seu lado mau que sobrevivera, voltando aos seus domínios. Ele cavalgava espalhando pânico e terror por onde passava. Mas, para surpresa dos camponeses, ora ele se divertia com suas crueldades, ora era visivelmente generoso com todos e espalhava o bem. Então, seria a outra parte, a boa, que estava de volta? Os camponeses se viram confusos e divididos devido às peripécias contraditórias de Medrado.
Nessa obra, Calvino expõe a maneira fragmentária com que, em nossa cultura, vemos o mundo e a nós mesmos a partir de uma lógica de pensamento que considera que apenas um lado deve permanecer: ou isso ou aquilo.
A propósito de O visconde partido ao meio Calvino escreveu: “Penso que o divertimento seja uma coisa séria”. Essa lógica que admite a coexistência dos contrários, no caso divertimento e seriedade, pode ser encontrada em cada uma das propostas para o próximo milênio: leveza e peso, rapidez e retardamento (contração e dilatação do tempo), exatidão e imprecisão (cristal e chama) que preparam o terreno para a 5ª proposta: multiplicidade. E como ele mesmo diz: “Qualquer valor que escolha como tema de minhas conferências… não pretende excluir o seu valor contrário”.
Ele acentua, então, a impossibilidade de uma compreensão somente a partir da lógica racional binária (aristotélica), do “ou isso ou aquilo”, indicando a possibilidade de outras lógicas de pensamento que admitem os contraditórios: “isso e aquilo”.

“Dois princípios ou noções antagonistas deveriam aparentemente repelir um ao outro, mas eles são indissociáveis e indispensáveis para compreender uma mesma realidade”, diz Edgar Morin.
Meu objetivo é destacar o quanto é importante estarmos atentos à lógica que orienta os nossos pensamentos e constrói nossa visão de mundo e de nós mesmos, procurando sair do predomínio de uma lógica de exclusão e admitir outras lógicas que abarquem nossa diversidade e nossas contradições.
A importância do tema pode ser medida pela realização dos Ateliês sobre a contradição: nova força de desenvolvimento em ciência e sociedade, pela École Nationale Supérieure des Mines – Saint Etienne – França, em março de 2009, reunindo representantes de diversas áreas do conhecimento: ciência, filosofia, política, arte, religião, etc., com a participação de Basarab Nicolescu (CIRET) e de Maria F. de Mello e Vitória Mendonça de Barros (CETRANS). Lembrando que um dos pilares da Transdisciplinaridade é a lógica do 3º incluído, estreitamente relacionado aos outros dois pilares: complexidade e níveis de realidade.
CALVINO, Ítalo. O visconde partido ao meio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
CALVINO, Ítalo. Os nossos antepassados. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 (contendo, como no original de 1951: O visconde partido ao meio, O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente).
Imagem: Escher – Sol e Lua
Marly
5 comentários »Diálogo com o Milênio - Uma ponte da exatidão ao infinito

” Esta conferencia não se deixa conduzir na condição que me havia proposto. Eu me propunha falar da exatidão e não do infinito e do cosmo. Queria lhes falar da minha predileção pelas formas geométricas, pelas simetrias, pelas séries, pela análise combinatória, pelas proporções numéricas, explicar meus escritos em função de minha fidelidade a uma idéia de limite, de medida… Mas quem sabe não será precisamente essa idéia de limite que suscita a idéia das coisas que não tem fim, como a sucessão dos números inteiros ou as retas euclidianas?…
Em vez de lhes contar como escrevi aquilo que escrevi, talvez fosse mais interessante falar dos problemas que ainda não resolvi, que não sei como resolver e que tipo de coisa eles me levarão a escrever…
Às vezes procuro concentrar-me na história que gostaria de escrever e me dou conta de que aquilo que me interessa é uma outra coisa diferente, ou seja, não uma coisa determinada mas tudo que fica excluído daquilo que eu deveria escrever: a relação entre esse argumento determinado e todas as suas variantes e alternativas possíveis, todas as manifestações que o tempo e o espaço possam conter. E´uma obsessão devorante, destruidora, suficiente para me bloquear. Para combate-la, procuro limitar o campo do que pretendo dizer, depois dividi-lo em campos ainda mais limitados, depois subdividir também estes, e assim por diante. Uma outra vertigem então se apodera de mim, a do detalhe do detalhe do detalhe. Vejo-me tragado pelo infinitesimal, pelo infinitamente mínimo, como antes me dispersava no infinitamente vasto.”
Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990 P.83
3 comentários »Dialogo com o Milênio - sob a lógica da complementaridade
Depois de um longo passeio por aguns exemplos literários que incluem a poética do italiano Giacomo Leopardi que sustentava “que a linguagem será tanto mais poética quanto mais vaga e imprecisa for[lembrando que partindo do significado original (wandering) , a palavra “vago” traz consigo uma idéia de movimento e mutabilidade, que se associa em italiano tanto ao incerto e indefinido quanto à graça e ao agradável]:

“…a luz do sol ou da lua, vista de um lugar de onde não se possa vê-los ou não se possa descobrir a fonte luminosa, um lugar somente em parte iluminado por essa luz; o reflexo dessa luz; e os vários efeitos materiais que dela resultam; o penetrar dessa luz em lugares onde ela se torne incerta e impedida, e mal se possa distingui-la, como através de um canavial, uma floresta, uma porta de varanda entreaberta, etc. … todos estes lugares onde a luz se confunde, etc…com as sombras, como sob um pórtico, uma varanda elevada e pênsil, em meio aos penhascos e despenhadeiros, ou num vale, sobre as colinas vistas da parte da sombra, de modo a que estejam dourados os cimos; …todos esses objetos, em suma, que por diversas circunstâncias materiais e ínfimas se apresentam à nossa vista, ouvido, etc de maneira incerta, imperfeita, incompleta ou fora do ordinário, etc.”
Eis o que Leopardi exige de nós para podermos apreciar a beleza do vago e do indeterminado! Para se alcançar a imprecisão desejada, é necessário a atenção extremamente precisa e meticulosa que ele aplica na composição de cada imagem, na definição minuciosa dos detalhes, na escolha dos objetos, da iluminação, da atmosfera. Assim Leopardi, que eu havia escolhido como contraditor ideal da minha apologia da exatidão, acaba se revelando uma testemunha decisiva a meu favor. O poeta do vago só pode ser o poeta da precisão, que sabe colher a sensação mais sutil com olhos, ouvidos e mãos prontos e seguros. “
Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.75
1 comentário »