Data: 2009.01.22 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 6

“Ele reclinou-se na cadeira um pouco cansado e disse:
_Você é das que precisam de garantia. Quer saber como eu sou para me aceitar? Vou me fazer conhecer melhor por você, disse com ironia. Olhe, tenho uma alma muito prolixa e uso poucas palavras. Sou irritável e firo facilmente. Também sou muito calmo e perdôo logo.Não esqueço nunca. Mas há poucas coisas de que eu me lembre. Sou paciente mas profundamente colérico, como a maioria dos pacientes. As pessoas nunca me irritam mesmo, certamente porque eu as perdôo de antemão. Gosto muito das pessoas por egoísmo: é que elas se parecem no fundo comigo. Nunca esqueço uma ofensa, o que é uma verdade, mas como pode ser verdade, se as ofensas saem de minha cabeça como se nunca nela tivessem entrado? …
_ Tenho uma paz profunda, continuou ele, somente porque ela é profunda e não pode ser sequer atingida por mim mesmo. Se fosse alcançável por mim, eu não teria um minuto de paz. Quanto à minha paz superficial, ela é uma alusão à verdadeira paz. Outra coisa que esqueci é que há outra alusão em mim – a do mundo grande e aberto. Sou professor de Filosofia porque é o que eu mais estudei e no fundo gosto de me ouvir falando sobre o que me interessa. Tenho um senso didático pronunciado que faz com que meus alunos se apaixonem pela matéria e me procurem fora das aulas. Este meu senso didático, que é uma vontade de transmitir, eu também tenho em relação a você, Lóri, se bem que você seja a pior de meus alunos. Bom, apesar de meu ar duro, que aliás vem também do fato de meu nariz ser tão reto, apesar de meu ar duro, sou cheio de muito amor e é isso que certamente me dá uma grandeza, essa grandeza que você percebe e de que tem medo.
Como se de súbito tivesse notado que falara sério, parou e riu para desfazer tudo que dissera:
_ Meu amor pelo mundo é assim: eu perdôo as pessoas terem um nariz mal feito ou terem lábios finos demais e serem feias – todo erro dos outros e nos outros é uma oportunidade para mim amar.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.59-60
Data: 2009.01.20 | Categoria: Diálogo com Clarice, Sons & Imagens | Comentário: 8

“E era bom.
“Não entender” era tão vasto que ultrapassava qualquer entender – entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não-entender. Era uma benção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez.
Mas de vez em quando vinha a inquietação insuportável: queria entender o bastante para pelo menos ter mais consciência daquilo que ela não entendia. Embora no fundo não quisesse compreender. Sabia que aquilo era impossível e todas as vezes que pensara que se compreendera era por ter compreendido errado. Compreender era sempre um erro – preferia a largueza tão ampla e livre e sem erros que era não-entender. Era ruim, mas pelo menos se sabia que se estava em plena condição humana.
No entanto às vezes, adivinhava…Eram manchas cósmicas que substituiam entender.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.43-44
Data: 2009.01.18 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 5

“Loreley é o nome de um personagem lendário, do folclore alemão, cantado num belíssimo poema por Heine. A lenda diz que Loreley seduzia os pescadores com seus cânticos e eles terminavam morrendo no fundo do mar, já não me lembro mais dos detalhes. Não, não me olhe com esses olhos culpados. Em primeiro lugar quem seduz você sou eu. Sei, sei que você se enfeita para mim, mas isso já é porque eu seduzo você. Eu não sou um pescador, sou um homem que um dia você vai perceber que ele sabe menos do que parece, apesar de ter vivido muito e estudado muito.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.97
Data: 2009.01.14 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 15

“De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé – muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo – em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.32
Data: 2009.01.12 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 5
E chegamos no apesar de…

_ “ Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranqüilo, Lóri, uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem siquer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também. Por isso não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.26
Data: 2009.01.08 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 1
“E chovia muito esse inverno. [Lóri] Então usou a outra mesada do pai e procurou – com que prazer andava pelas lojas procurando até achar – e procurou e comprou para todos os alunos e alunas de sua classe, guarda-chuvas vermelhos e meias de lã vermelha.
Era assim que ela afogueava o mundo.

…O seu guarda-chuva vermelho quando aberto parecia um pássaro escarlate de asas transparentes abertas.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.101
Data: 2009.01.07 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 11
Aproveitando o belíssimo vídeo postado sincronicamente pela Leda no tópico anterior – http://br.youtube.com/watch?v=atD1H5aFBhA – , lá vai:
“Ulisses ouvira de testa franzida . E depois dissera:
_ E então você não quis mais nada disso. E parou com a possibilidade de dor, o que nunca se faz impunemente. Apenas parou e nada encontrou além disso. Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito. Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e a minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.
Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e segurança por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregues a nós mesmos pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “ pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.47-48
Data: 2009.01.04 | Categoria: Diálogo com Clarice | Comentário: 7

“…pois agora, mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver. Lembrou-se de escrever a Ulisses contando o que se passara, mas nada se passara em palavras escritas ou faladas.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres.
ed. Rocco, 1998. p.15
Todo mês de janeiro e julho, leio decididamente, obras literárias. Parei de fazer listas de qualquer espécie já há algum tempo; leio o que me chega às mãos, e que tem sido sempre o que é necessário naquele momento. Chegou agora um livro da Clarice (Lispector) chamado Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres.
O diálogo com Clarice é sempre revelador apesar de dolorido e vou respeitando a aparente aleatoriedade da prosa emaranhada, rica em “agenciamentos” para com ela ir descobrindo novos caminhos…já percorridos e sempre outros . São dois personagens (Lóri e Ulisses) e um encontro profundo de cada um consigo mesmo através do encontro entre um homem e uma mulher.
Aos poucos entro no diálogo com ele e comigo mesma através dele. Se você quiser participar, será uma alegria.
TCris