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Diálogo com Clarice - [sobre a Felicidade]

” Lóri estava suavemente espantada. Então isso era a felicidade. De início se sentiu vazia. Depois seus olhos ficaram úmidos: era felicidade, mas como sou mortal, como o amor pelo mundo me transcende. O amor pela vida mortal a assassinava docemente, aos poucos. E o que é que eu faço? Que faço da felicidade? Que faço dessa paz estranha e aguda, que já está começando a me doer como uma angústia, como um grande silêncio de espaços? A quem dou minha felicidade, que já está começando a me rasgar um pouco e me assusta. Não. Não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade. Ela se despediu de Ulisses quase correndo: ele era o perigo “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.74
6 comentários »Diálogo com Clarice - [Sobre Ela e o mar – as nupcias]

“ Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Lóri olhava o mar, era o que podia fazer.
…A mulher não está sabendo: mas está cumprindo uma coragem. Com a praia vazia nessa hora, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver. Lóri está sozinha. O mar salgado não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização da Natureza. A coragem de Lóri é a de, não se conhecendo, no entanto prosseguir, e agir sem se conhecer exige coragem.
Vai entrando… E agora está alerta, mesmo sem pensar, como um pescador está alerta sem pensar. A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda - e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que a oposição pode ser um pedido secreto.
O caminho lento aumenta sua coragem secreta – e de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda! O sal, o iodo, tudo líquido deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé, fertilizada.
…Com a concha das mãos e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheias de água, bebe-a em goles grandes, bons para a saúde de um corpo.
E era isso que estava lhe faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem.
Agora ela está toda igual a si mesma.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.78-80
8 comentários »Diálogo com Clarice - Lembrete
[Ulisses] _ “ Nos piores momentos, lembre-se : quem é capaz de sofrer intensamente também poderá ser capaz de intensa alegria.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.97
6 comentários »O Projecto Clarice

O Projecto Clarice está sendo realizado atualmente pela aluna Patrícia Lino (18 anos), para a cadeira de Métodos e Técnicas de Pesquisa, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Portugal. Tem como principal objetivo divulgar a obra literária de Clarice Lispector e divide-se em seis partes:
A primeira é constituída pelo suporte escrito, onde é apresentado um plano de trabalho relativo à temática da imprevisibilidade explosiva ou a teoria da antecipação errada em três contos de Clarice Lispector.
A segunda corresponde a um processo fotográfico, baseado em duas citações da escritora - cujo resultado ilustra o suporte escrito.
A terceira é composta pela realização de um trabalho digital, com a criação de uma página relativa a Clarice Lispector.
A quarta corresponde às várias e possíveis representações pictóricas da escritora.
A quinta, a um curta-metragem, cujo tema central se baseia em todo o mistério que se nos apresenta, assim que contactamos com Clarice Lispector.
A sexta e última parte baseia-se na realização de sessões de leitura (em homenagem à escritora). Duas delas já ocorreram em 2008, e é ainda pretendida a realização de mais uma.
Além disso, foi publicado um artigo e o conto “Felicidade Clandestina” no jornal quinzenal dos alunos, e distribuídos 250 panfletos pelas ruas da cidade do Porto.
Deixei uma mensagem para Patricia, parabenizando-a pelo excelente trabalho e convidando-a a conhecer o nosso Diálogo com Clarice.
Vale conferir…
Marly
5 comentários »Diálogo com Clarice - [Vá para si mesma ou sobre o Silêncio]

“Ulisses falou: _ Bem tranqüila Lóri, vá bem tranqüila. Mas cuidado. E´ melhor não falar, não me dizer. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o “próprio silêncio”. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p 71
13 comentários »Diálogo com Clarice [Oração]

[Lóri] “ Não, não devia pedir mais vida. Por enquanto era perigoso. Ajoelhou-se trêmula junto da cama pois era assim que se rezava, e disse baixo, severo, triste, gaguejando sua prece com um pouco de pudor: alivia minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade., faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.56
5 comentários »Diálogo com Clarice - [diante da Eternidade]

“ Ela estava só. Com a eternidade à sua frente e atrás dela. O humano é só.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.74
6 comentários »Diálogo com Clarice - [Um pensamento rizomático ou uma homenagem aos que buscam atravessar a dor]

“Sua alma incomensurável, Pois ela era o Mundo. E no entanto vivia o pouco. Isso constituía uma de suas fontes de humildade e forçada aceitação, e também a enfraquecia diante de qualquer possibilidade de agir.
Aliás, sentir-se humilde demais era de onde paradoxalmente vinha a sua altivez de pessoa. E´ que sua altivez – que se refletia no modo flexível e tranqüilo de andar – sua altivez vinha da certeza obscura que suas raízes eram fortes, e que sua humildade não era apenas humildade humana: é que qualquer raiz era forte, e sua humildade vinha da certeza obscura de que todas as raízes eram humildes, terrosas e cheias de úmido vigor na sua modéstia nodosa de raiz. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.43
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