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Diálogo com Clarice [Retorno reflexivo sobre a experiência]
Como foi dito em Sobre Ser/fazer uma comunidade, o Diálogo com Clarice revelou-se uma ação formativa e uma aprendizagem conjunta, o que tem sido a prática na Companhia de Aprendizagem.
Em nosso modo de ver, a formação é um processo contínuo que se dá ao longo da vida, não estando restrita a um espaço/tempo determinado institucionalmente (escola, família, etc.). Ela envolve um processo vivido pelo ser enquanto ser, uma forma pessoal que vai sendo configurada nesse processo e a maneira como esta forma é construída. Nesse sentido, o ato de se formar (autoformação) assume uma dimensão mais ampla, pois diz respeito a uma diversidade de interações e transações (consigo mesmo, com os outros e com o meio físico/cultural) e às possibilidades de transformação delas decorrentes.
Estamos em formação todo o tempo, em todos os lugares e nas diferentes relações que estabelecemos com os outros. É um processo que está acontecendo conosco, que está sendo vivenciado, quer tenhamos consciência dele ou não. Mas podemos nos apropriar do poder de nos formar, podemos caminhar rumo a nós mesmos e, tomando consciência da forma adquirida, ir além e através dela em direção ao que podemos vir a ser. A autoformação é também uma autocriação.

Neste retorno reflexivo sobre a experiência no Diálogo com Clarice, convidamos vocês para uma leitura da leitura, ou seja, para uma leitura dos comentários pessoais feitos a partir da leitura dos temas postados e do livro de Clarice como um todo, seguida de uma reflexão a ser partilhada com todos.

São questões nas quais nos reconhecemos, mas que também nos indicam que há uma fronteira entre o conhecido e o desconhecido, trazendo uma interrogação permanente sobre o que temos sido, o que não somos mais e o que poderemos vir a ser.
Na finalização deste trabalho, temos a oportunidade de fazer desta experiência uma aprendizagem de reciprocidade. Ao expressarmos nossas reflexões estaremos aprendendo uns com os outros e resgatando o prazer de Ser e de aprender em comunidade.
Aos interessados, sugerimos a leitura de dois textos que nos apoiaram neste trabalho:
Geysa Silva – Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (em Resumos)
Amariles Guimarães Hill – A experiência de existir narrando (em Artigos)
(*) Detalhe do retrato de Clarice Lispector pintado por De Chirico.
Marly
5 comentários »Dialogo com Clarice - [O Encontro]
“Era noite cada vez mais escura e chovia muito. Embora sem vê-lo, reconheceu pela sua respiração pausada que ele dormia.

Ficou de olhos abertos no escuro e cada vez mais o escuro se revelava a ela como um denso prazer compacto, quase irreconhecível como prazer, se fosse comparado com o que tivera com Ulisses. Ele estar dormindo a seu lado deixava-a a um tempo sozinha e integrada. Ela não queria nada senão aquilo mesmo que lhe acontecia: ser uma mulher no escuro ao lado de um homem que dormia. Pensou por um instante se a morte interferiria no pesado prazer de estar viva. E a resposta foi que nem a idéia da morte conseguia perturbar o indelimitado campo escuro onde tudo palpita grosso, pesado e feliz. A morte perdera a glória.
Lembrou-se de como era antes destes momentos de agora. Ela era antes uma mulher que procurava um modo, uma forma. E agora tinha o que na verdade era tão mais perfeito: era a grande liberdade de não ter modos nem formas.” p.148-149
… _ Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais ultima que se pode dar de si, disse Ulisses. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.155
4 comentários »Dialógo com Clarice - Sobre Ser/fazer uma Comunidade
A todos:
Na ação de coletar e organizar os dados referentes às participações das pessoas no Diálogo com Clarice, percebemos a realização de uma ação formativa - uma aprendizagem - onde nossa relação com o ato de aprender, foi alguma coisa prazerosa, espontânea e significativa - como é uma das propostas fundamentais da Companhia de Aprendizagem. No curto período de 15 semanas, cada um de nós que acompanhou e comentou as postagens, e todos que nos leram anonimamente, configuramos uma comunidade, atenta e reflexiva, quando exercitamos “o viver e o conviver… o agir e o interagir… o ser e o vir a ser… formar e transformar” – como é a proposta do blog.
Estamos nos aproximando do final do Diálogo com Clarice. Antes da postagem final sobre o livro, divulgamos abaixo a listagem dos temas abordados (em alguma medida) e convidamos a todos (participantes ativos e silenciosos) para postarem aqui alguma coisa sobre qual (s) tema (s) mais o sensibilizou - seja porque refletiu, porque aprendeu uma nova perspectiva e ampliou o olhar , porque desejaria aprofunda-lo, ou qualquer outra razão.
04.01.09 Convite Diálogo com Clarice - Uma aprendizagem -
07.01.09 [Sobre a pobre vitória humana ]
08.01.09 Pausa poética
12.01.09 [Apesar de…]
14.01.09 [Sobre abismos, coragem e fé]
18.01.09 Momento mítico-filosófico
20.01.09 [Sobre o Não entender]
22.01.09 [Auto-retrato de Ulisses]
26.01.09 [Um pensamento rizomático ou uma homenagem aos que buscam atravessar a dor]
29.01.09 [diante da Eternidade]
02.02.09 [Oração]
08.02.09 [Vá para si mesma ou sobre o Silêncio]
10.02.09 O Projecto Clarice
11.02.09 Lembrete
15.02.09 [Sobre Ela e o mar – as nupcias]
18.02.09 [sobre a Felicidade]
22.02.09 [ sobre Máscaras]
27.02.09 [Tempo do Sagrado]
02.03.09 [ Sobre o desejo e o saber de si ]
05.02.09 [sobre Iniciação]
10.03.09 [Estado de Graça]
Diálogo com Clarice - [Estado de Graça]
“Foi no dia seguinte que entrando em casa viu a maçã solta sobre a mesa….Depois de examiná-la, de revirá-la, de ver como nunca vira a sua redondez e sua cor escarlate – então devagar, deu-lhe uma mordida.
E oh Deus, como se fosse a maçã proibida do paraíso, mas que ela agora já conhecesse o bem, e não só o mal como antes. Ao contrário de Eva, ao morder a maçã entrava no paraíso.
Só deu uma mordida e depositou a maçã na mesa. Porque alguma coisa desconhecida estava suavemente acontecendo. Era o começo – de um estado de graça.

Só quem já tivesse estado em graça , poderia reconhecer o que ela sentia. Não se tratava de uma inspiração que era uma graça especial que tantas vezes acontecia aos que lidavam com arte. O estado de graça em que estava não era usado para nada. Era como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existia.
Neste estado, além da tranqüila felicidade que se irradiava das pessoas lembradas e de coisas, havia uma lucidez que Lóri só chamava de leve porque na graça, tudo era tão, tão leve. Era uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Que não lhe perguntassem o que, pois só poderia responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E havia uma bem-aventurança física que a nada se comparava. O corpo se transformava num dom. E ela sentia que era um dom porque estava experimentando, de uma fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça, via-se a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo aliás, ganhava uma espécie de nimbo que não era imaginário: vinha do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passava-se a sentir que tudo que existe – pessoa ou coisa – respirava e exalava uma espécie de finíssimo resplendor de energia. Esta energia é a maior verdade do mundo e é impalpável.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.131-132
5 comentários »Diálogo com Clarice - [sobre Iniciação]

“Para o mundo de perfumes, Lóri já acordara. Quando voltava da rua de noite, passava pela casa vizinha cheia de dama-da-noite, que lembrava o jasmim, só que mais forte. Ela aspirava o cheiro da dama-da-noite que era noturno. E o perfume parecia mata-la lentamente. Lutava contra, pois sentia que o perfume era mais forte que ela, e que poderia de algum modo morrer dele. Agora é que ela notava tudo isso. Era uma iniciada no mundo. Que lhe parecia um milagre.
… Milagres, não. Mas as coincidências. Vivia de coincidências, vivia de linhas que incidiam e se cruzavam e, no cruzamento, formavam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que era mais feito de segredo. Mal falasse das coincidências, e já estaria falando em nada.
Mas possuía um milagre, sim. O milagre das folhas. Estava andando na rua e do vento lhe caíra exatamente nos cabelos: a incidência de linhas de milhões de linhas transformada em uma única que caía, e de milhões de pessoas a incidência de reduzi-lo a ela. Isso lhe acontecia tantas vezes que passou a se considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tirara a folha dos cabelos e guardara-a na bolsa, como o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontrara entre os mil objetos que sempre carregava a folha seca, engelhada e morta. Jogara-a fora; não lhe interessava o fetiche morto como lembrança. E também porque sabia que novas folhas iriam coincidir com ela. Um dia uma folha que caíra batera-lhe nos cílios.
Achou então Deus de uma grande delicadeza. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.110-111
5 comentários »Diálogo com Clarice - [ Sobre o desejo e o saber de si ]

[Lori e Ulisses] “Ele ,o homem, se ocupava atiçando o fogo. Ela nem se lembrava de fazer o mesmo: não era o seu papel, pois tinha o seu homem para fazer isso. Não sendo donzela, que o homem então cumprisse a sua missão.
_ Olhe aquela acha, ela ainda não pegou…
E ele, antes de ela acabar a frase, por si próprio já notara a acha apagada, homem seu que ele era, e já estava atiçando-o com o ferro. Não a comando seu que era mulher de um homem e que perderia o seu estado se lhe desse uma ordem. Com a mão direita ele segura o ferro que fazia as flamas crescerem. A mão esquerda, a livre, estava ao alcance dela. Lori sabia que podia toma-la, que ele não se recusaria; mas não a tomava, pois queria que as coisas “acontecessem” e não que ela as provocasse. Ela conhecia o mundo dos que estão tão sofridamente à cata de prazeres e que não sabiam esperar que eles viessem sózinhos…. Porque nela a busca do prazer, nas vezes que tentara, lhe tinha sido água ruim: colava a boca e sentia a boca enferrujada, de onde escorriam dois ou três pingos de água amornada: era a água seca. Não, havia ela pensado, antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado. Queria a mão esquerda de Ulisses e sabia que queria, mas nada fez, pois estava usufruindo exatamente do que precisava: poder ter essa mão se estendesse a sua. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p. 104
10 comentários »Diálogo com Clarice - [Tempo do Sagrado]

“Cristo foi Cristo para os outros. Quem foi um Cristo para o Cristo? Ele tivera que ir diretamente ao Deus. E ela, sentada então no banco da igreja quisera também poder ir direto à Onipotência sem ser através da condição humana de Cristo que era também a sua e a dos outros. E oh Deus não querer ir a Ele através da condição misericordiosa de Cristo, talvez não passasse de novo do medo de amar. Levantou-se e tornou a bordar. “
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.67
3 comentários »Diálogo com Clarice - [ sobre Máscaras]
“Também Lóri usava a máscara de palhaço da pintura excessiva. Aquela mesma que nos partos da adolescência se escolhia para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se fizesse mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que este rosto que estivesse nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível: era pois menos perigoso escolher, antes que isso fatalmente acontecesse, escolher sozinha ser uma “persona”. Escolher a própria máscara era o primeiro gesto voluntário humano. E solitário. Mas quando enfim se afivelava a máscara daquilo que se escolhera para representar-se e representar o mundo, o corpo ganhava uma nova firmeza, a cabeça se podia às vezes se manter altiva como a de quem superou um obstáculo: a pessoa era.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres. ed. Rocco, 1998. p.85
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