“Antes de estruturar e de construir, um trabalho importante deve ser efetuado para permitir a terraplanagem do terreno, a escavação das fundações e a escuta do ambiente onde se passam as ações de aprender e as ações de ensinar. Antes de procurar conhecer nossos próprios recursos cognitivos e nos colocarmos à escuta das recentes pesquisas sobre o cérebro, é preciso, em primeiro lugar, abrir um espaço de questionamento e de ressonância, descobrir nossas representações, inventariar nossas ignorâncias, assim como, os recursos que precisamos e os que possuímos. “
(…) E se… nos preocupássemos, continuamente, em fazer a mais importante de todas as perguntas:
Por quê? Por que faço o que faço,
da maneira como faço, onde e quando eu o faço?
Que finalidade pretendo alcançar, além e aquém dos meus objetivos, fins e alvos?
Ousar questionar a si mesmo significa deixar a lógica da verdade, linear e binária (certo/errado, bom/ruim, êxito/fracasso) e dar à nossa palavra por que o sentido que ela tem em hebreu “lamá”[1]: “em direção do quê?”. Questionamento fundamental , religado ao nosso advir, ao agir, à vontade, ao que ainda está por ser realizado, “de passagem”. Este questionamento difere da interrogação, porque ele não pretende verificar uma resposta conhecida daquele que interroga.
… Quais são os efeitos do questionamento? Fazer-nos sair do pret-à-penser (pronto-a-pensar), do pret-à-dire (pronto a dizer), do pret-à-croire (pronto a crer), abrirmo-nos ao mistério do Outro, ao seu inesperado, ampliar o horizonte e nos descobrir exatamente por causa de nossa atitude questionante. Como isso funciona? O questionamento projeta a resposta no futuro. Ele cria um intervalo, um espaço matricial, onde a resposta irá se constituir, enraizar-se em nossa história, num presente feito com nosso passado e nosso futuro. O paradoxo do verdadeiro questionamento (cf. Ouaknin) é que ele não visa o desconhecido, mas, o imediato, o habitual, o próximo.”——————————————————————————–
[1] …os dois lados do “por que” em hebraico: lamá (= em direção do quê?) e madoua (e por quê razão?), religado ao intelecto, à análise, à compreensão, ao saber, à consciência, à ciência, ao pensamento, ao distanciamento, à coisa realizada. Ela escreve: “No Judaísmo madoua e lamá estão ligadas entre si: a compreensão do que aconteceu poderia servir para agir de uma maneira justa sobre o que acontece e vai acontecer. Mas o essencial na vida é o ato e sua energia: a vontade. Madoua não é um fim em si. E´um meio para melhor atingir seus atos.”
(Hélène Trocmé-Fabre – Fundamentos, arqueologia dos recursos
In: Reinventar o ofício de Aprender, p.45)

