Diante da crise econômica global – devido à transformação da economia em um verdadeiro “cassino financeiro” – que anuncia uma recessão aparentemente incontornável, é importante resgatar as vozes de economistas que vêm questionando o modelo atual, propondo visões de desenvolvimento econômico voltadas ao bem-estar social e a uma distribuição mais eqüitativa das riquezas, de maneira sustentável.
Manfred Max-Neef, por exemplo, economista chileno, desenvolveu teses que chamou de economia descalça e economia em escala humana. Em um artigo de 2004, intitulado Do conhecimento ao entendimento: idas e vindas, ele desenvolve uma tese que merece ser compartilhada:
Por que estamos onde estamos?
A vida é uma infindável seqüência de bifurcações. A decisão que tomo implica todas as decisões que não tomei. O caminho que escolho é parte de todos os caminhos que não escolho. Nossa vida é, inevitavelmente, uma permanente escolha por uma dentre uma infinidade de possibilidades ontológicas. O fato de que eu estava num determinado lugar, num dado momento no tempo, quando determinada situação ocorreu ou determinada pessoa apareceu, talvez tenha tido um efeito decisivo no resto de minha vida. Poucos minutos antes ou depois, ou poucos metros adiante em alguma direção, talvez pudessem determinar uma bifurcação diferente e, assim, uma vida completamente diferente. (…)
O que vale para as vidas individuais também vale para as comunidades e para as sociedades. O que se chama Civilização Ocidental é o resultado de suas bifurcações. Nós somos o que somos, mas poderíamos ter sido o que não somos.
Ele menciona algumas dessas bifurcações decisivas, dentre as quais destaco:
Continuamos sob a sedução irresistível de Galileu e Newton, e não escolhemos navegar pela rota da ciência de Goethe. Sentimento, intuição, consciência e espiritualidade continuam banidos dos interesses da ciência, apesar, sem dúvida, das novas luzes lançadas pelo campo da física quântica. O ensino de economias convencionais, tão incrível quanto retumbante, exigindo ser um “valor livre”, é um evidente exemplo em questão. Uma disciplina em que a matemática torna-se um fim em si mesma, ao invés de uma ferramenta, e segundo a qual apenas o que pode ser medido é importante, gerando modelos e interpretações teoricamente atraentes, mas totalmente divorciados da realidade.
(…) O caminho está dado. (…) e à rota navegada atribuímos o sucesso espetacular e seus feitos. (…) A navegação, sem dúvida, foi fascinante e espetacular. Há muito a se admirar nela. No entanto, se a esquizofrenia, a depressão e o narcisismo agora são espelhos da nossa realidade existencial, isto é porque, de repente, nos encontramos num mundo de confusão. Neste mundo de desencantamento, no qual o progresso torna-se paradoxal e absurdo e a realidade tão incompreensível…
Aonde chegamos?
Chegamos a um ponto de nossa evolução humana no qual conhecemos um bocado, mas entendemos muito pouco. Nossa navegação escolhida é pilotada pela razão, levando-nos ao porto do conhecimento. Nunca, em toda a nossa existência, acumulamos mais conhecimento que durante os últimos cem anos. Estamos celebrando a apoteose da razão, mas em meio a essa esplêndida celebração, repentinamente temos o sentimento de que alguma coisa está perdida.
(…) Enfim, chegamos a um ponto no qual, finalmente, tornamo-nos conscientes de que o conhecimento não é suficiente, e que temos que aprender como sustentar o entendimento para alcançar a integralidade do nosso ser.
Nós, talvez, estejamos começando a compreender que o conhecimento sem o entendimento é vazio, e que o entendimento sem o conhecimento é incompleto. Portanto, nós precisamos aceitar que a navegação em que estamos tem de ser abandonada. Mas para que isto aconteça, temos de encarar o grande desafio da linguagem da mudança.
(…) Foi somente no século XX que a linguagem dominante era o econômico, especialmente durante sua segunda metade. (…) O fim dos anos 20 e começo dos anos 30 foi o tempo que chamamos da grande depressão, com a emergência da economia keynesiana. A linguagem keynesiana é (…) resultado da crise, tendo a capacidade de interpretar essas crises bem como sua superação. É, de novo, uma linguagem (ou melhor, uma sub-linguagem) coerente com o período histórico.
A próxima sub-linguagem acontece durante os anos 50 e 60, com a emergência da chamada linguagem desenvolvimentista. Uma linguagem do otimismo, utopia e felicidade. Economistas se manifestavam, naqueles dias, dominados pelo sentimento de que, enfim, havíamos descoberto como promover o verdadeiro desenvolvimento e a superação da pobreza no mundo. (…) Seja como for, o que deve ser salientado é que, embora as metas não tenham sido plenamente atingidas, muitas coisas, naquela década, mudaram de uma maneira positiva. Enfim, uma linguagem parcialmente coerente com os desafios históricos.
E chegamos às últimas três décadas do século XX com a emergência do discurso neoliberal. Uma linguagem que dominou durante um período no qual a pobreza no mundo cresceu dramaticamente, com dívidas que arrebentaram muitas das economias nacionais e geraram uma brutal superexploração dos povos e dos recursos naturais, com a destruição de ecossistemas e da biodiversidade atingindo níveis desconhecidos na história humana, além da acumulação dos recursos financeiros em mãos de tão poucos que chega a proporções obscenas. Os efeitos desastrosos dessa linguagem, absolutamente incoerentes com as mudanças históricas, estão claros para quem quiser ver, enquanto que os que decidem e controladores do poder preferem olhar na direção oposta e agarrar-se a receitas pseudo-religiosas.
Aonde chegaremos a partir daqui?
(…) Talvez tenha chegado o momento de parar e pensar. Agora nós temos a oportunidade de analisar, com verdadeira honestidade, o mapa de nossa navegação, com todos os seus azares e sucessos, com todas as suas tragédias e glórias. E quem sabe vislumbrar o mapa alternativo da rota ainda não navegada e, entre as suas orientações, escolher aquela que pode nos resgatar de nossa confusão existencial.
(…) Nenhuma sustentabilidade (que, obviamente, é requerida pelo entendimento) pode ser conseguida sem uma mudança de linguagem. Uma nova linguagem que abra a porta do entendimento; não a linguagem do poder e dominação, mas a linguagem que emerge do fundo da nossa autodescoberta como parte inseparável da inteireza que está na origem do milagre da vida. Se conseguirmos provocar tal mudança, talvez tenhamos experimentado a satisfação de fazer surgir um novo século digno de nele vivermos.
Estamos diante de uma nova bifurcação. Qual será a nossa escolha?
Marly