Arquivos de categorias: Cenários

Data: 2009.07.14 | Categoria: Cenários, Companheiros de Aprendizagem, Sons & Imagens | Comentário: 0

Da Amazonia, Du Bois, nosso companheiro de aprendizagem tem mandado Cartas amazônicas.

Du Bois - gigante da amazonia

De madeira lilás ( ninguém me crê )
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e porque abriga
em seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói?, pergunta quem me vê
os braços verdes, os olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas densas que me deram raça
e cantam nas raízes do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras.
Já não faz mal que doa
meu bravo coração de água e madeira.

Thiago de Mello – O animal da floresta
Barreirinha, fim de 2000

Data: 2009.04.29 | Categoria: Cenários, Diálogos | Comentário: 0

LEITURA
Adélia Prado

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras.
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?

Bilha - artesanato de Manatuto - Timor Leste

Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.

Data: 2008.11.27 | Categoria: Cenários | Comentário: 1

(…) Ninguém sabe exatamente descrever a Casa do Embu, porque ela pulsa com vida própria – desde a louça azul e branca que flori na mesa farta e esmeradamente cuidada, às toalhas e cortinas brancas e rendadas nas janelas e nos banheiros, quando a gente está lá sabe que está de passagem, mas sabe também que faz parte dali. Mistério!

De um tempo para cá, quase todos os anos nos encontramos lá, perto do Natal, para um balanço geral em nossas vidas e projetos desenvolvidos por cada um, aqui e acolá. Há sempre gente que não está mais e gente nova que chega. Isso nos obriga a pensar sobre esse binômio vida-morte de tudo que existe, e valorizar cada re-encontro.

…Também os seres que freqüentam a Casa do Embu entrelaçando suas histórias são misteriosos e únicos; só estando lá pra ver e ouvir o que eles falam e calam. Chegam ruidosos, de todos os cantos, trazendo cada um presentes para todos, mimos, comidas – abraçam-se e beijam-se fraternamente. Depois comem e riem juntos na mesa festiva. De repente se levantam e vão para uma das salas avarandadas (tem a de baixo e a de cima) calam-se todos e ouvem atentamente cada um contar a sua história. Por todos os lados papéis, livros, revistas, inundam mesas e tapetes. Alguns escrevem – silenciosamente anotam as palavras uns dos outros. Depois conversam e dizem uns para os outros o que lhes vai na alma, no coração, no pensamento. Chamam isso de escutar o outro; ninguém explica, replica ou justifica – isso lá não parece necessário!

TCris

Fragmento de uma cronica escrita após o Encontro Anual da Companhia de Aprendizagem na Casa do Embu, nov. 2008

Data: 2008.11.17 | Categoria: Cenários | Comentário: 0

Amazonia   Berenic 1

AMAZONIA
BERENICE BARRETO FERNANDES, artisticamente conhecida como Bere ou Berenic, é natural de Crato – Ceará. Autodidata, desde o inicio definiu o seu estilo naïf de pintar.

“A lei do rio não cessa nunca de impor-se sobre a vida dos homens.
É o império da água… O rio diz para o homem o que ele deve fazer.
E o homem segue a ordem do rio”.

THIAGO DE MELLO, poeta amazonense contemporâneo

TCris

Data: 2008.11.10 | Categoria: Cenários | Comentário: 0

Recebi, dias atrás, um vídeo que merece ser amplamente divulgado.

Trata-se do pronunciamento de Severn Suzuky -- na época com 12 anos -- na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no rio de Janeiro em 1992.

Ela fala como representante da ECO -- organização das crianças em defesa do meio ambiente, composta por crianças canadenses entre 12 e 13 anos de idade.

Suas palavras repercutem em nós, lembrando-nos da nossa responsabilidade em relação às futuras gerações. Já se passaram 16 anos, desde então. O que ela pede depende de cada um de nós.

Confiram:

Marly

Data: 2008.10.29 | Categoria: Cenários | Comentário: 2

Diante da crise econômica global – devido à transformação da economia em um verdadeiro “cassino financeiro” – que anuncia uma recessão aparentemente incontornável, é importante resgatar as vozes de economistas que vêm questionando o modelo atual, propondo visões de desenvolvimento econômico voltadas ao bem-estar social e a uma distribuição mais eqüitativa das riquezas, de maneira sustentável.

Manfred Max-Neef, por exemplo, economista chileno, desenvolveu teses que chamou de economia descalça e economia em escala humana. Em um artigo de 2004, intitulado Do conhecimento ao entendimento: idas e vindas, ele desenvolve uma tese que merece ser compartilhada:

Por que estamos onde estamos?

A vida é uma infindável seqüência de bifurcações. A decisão que tomo implica todas as decisões que não tomei. O caminho que escolho é parte de todos os caminhos que não escolho. Nossa vida é, inevitavelmente, uma permanente escolha por uma dentre uma infinidade de possibilidades ontológicas. O fato de que eu estava num determinado lugar, num dado momento no tempo, quando determinada situação ocorreu ou determinada pessoa apareceu, talvez tenha tido um efeito decisivo no resto de minha vida. Poucos minutos antes ou depois, ou poucos metros adiante em alguma direção, talvez pudessem determinar uma bifurcação diferente e, assim, uma vida completamente diferente. (…)

O que vale para as vidas individuais também vale para as comunidades e para as sociedades. O que se chama Civilização Ocidental é o resultado de suas bifurcações. Nós somos o que somos, mas poderíamos ter sido o que não somos.

Ele menciona algumas dessas bifurcações decisivas, dentre as quais destaco:

Continuamos sob a sedução irresistível de Galileu e Newton, e não escolhemos navegar pela rota da ciência de Goethe. Sentimento, intuição, consciência e espiritualidade continuam banidos dos interesses da ciência, apesar, sem dúvida, das novas luzes lançadas pelo campo da física quântica. O ensino de economias convencionais, tão incrível quanto retumbante, exigindo ser um “valor livre”, é um evidente exemplo em questão. Uma disciplina em que a matemática torna-se um fim em si mesma, ao invés de uma ferramenta, e segundo a qual apenas o que pode ser medido é importante, gerando modelos e interpretações teoricamente atraentes, mas totalmente divorciados da realidade.

(…) O caminho está dado. (…) e à rota navegada atribuímos o sucesso espetacular e seus feitos. (…) A navegação, sem dúvida, foi fascinante e espetacular. Há muito a se admirar nela. No entanto, se a esquizofrenia, a depressão e o narcisismo agora são espelhos da nossa realidade existencial, isto é porque, de repente, nos encontramos num mundo de confusão. Neste mundo de desencantamento, no qual o progresso torna-se paradoxal e absurdo e a realidade tão incompreensível…

Aonde chegamos?

Chegamos a um ponto de nossa evolução humana no qual conhecemos um bocado, mas entendemos muito pouco. Nossa navegação escolhida é pilotada pela razão, levando-nos ao porto do conhecimento. Nunca, em toda a nossa existência, acumulamos mais conhecimento que durante os últimos cem anos. Estamos celebrando a apoteose da razão, mas em meio a essa esplêndida celebração, repentinamente temos o sentimento de que alguma coisa está perdida.

(…) Enfim, chegamos a um ponto no qual, finalmente, tornamo-nos conscientes de que o conhecimento não é suficiente, e que temos que aprender como sustentar o entendimento para alcançar a integralidade do nosso ser.

Nós, talvez, estejamos começando a compreender que o conhecimento sem o entendimento é vazio, e que o entendimento sem o conhecimento é incompleto. Portanto, nós precisamos aceitar que a navegação em que estamos tem de ser abandonada. Mas para que isto aconteça, temos de encarar o grande desafio da linguagem da mudança.

(…) Foi somente no século XX que a linguagem dominante era o econômico, especialmente durante sua segunda metade. (…) O fim dos anos 20 e começo dos anos 30 foi o tempo que chamamos da grande depressão, com a emergência da economia keynesiana. A linguagem keynesiana é (…) resultado da crise, tendo a capacidade de interpretar essas crises bem como sua superação. É, de novo, uma linguagem (ou melhor, uma sub-linguagem) coerente com o período histórico.

A próxima sub-linguagem acontece durante os anos 50 e 60, com a emergência da chamada linguagem desenvolvimentista. Uma linguagem do otimismo, utopia e felicidade. Economistas se manifestavam, naqueles dias, dominados pelo sentimento de que, enfim, havíamos descoberto como promover o verdadeiro desenvolvimento e a superação da pobreza no mundo. (…) Seja como for, o que deve ser salientado é que, embora as metas não tenham sido plenamente atingidas, muitas coisas, naquela década, mudaram de uma maneira positiva. Enfim, uma linguagem parcialmente coerente com os desafios históricos.

E chegamos às últimas três décadas do século XX com a emergência do discurso neoliberal. Uma linguagem que dominou durante um período no qual a pobreza no mundo cresceu dramaticamente, com dívidas que arrebentaram muitas das economias nacionais e geraram uma brutal superexploração dos povos e dos recursos naturais, com a destruição de ecossistemas e da biodiversidade atingindo níveis desconhecidos na história humana, além da acumulação dos recursos financeiros em mãos de tão poucos que chega a proporções obscenas. Os efeitos desastrosos dessa linguagem, absolutamente incoerentes com as mudanças históricas, estão claros para quem quiser ver, enquanto que os que decidem e controladores do poder preferem olhar na direção oposta e agarrar-se a receitas pseudo-religiosas.

Aonde chegaremos a partir daqui?

(…) Talvez tenha chegado o momento de parar e pensar. Agora nós temos a oportunidade de analisar, com verdadeira honestidade, o mapa de nossa navegação, com todos os seus azares e sucessos, com todas as suas tragédias e glórias. E quem sabe vislumbrar o mapa alternativo da rota ainda não navegada e, entre as suas orientações, escolher aquela que pode nos resgatar de nossa confusão existencial.

(…) Nenhuma sustentabilidade (que, obviamente, é requerida pelo entendimento) pode ser conseguida sem uma mudança de linguagem. Uma nova linguagem que abra a porta do entendimento; não a linguagem do poder e dominação, mas a linguagem que emerge do fundo da nossa autodescoberta como parte inseparável da inteireza que está na origem do milagre da vida. Se conseguirmos provocar tal mudança, talvez tenhamos experimentado a satisfação de fazer surgir um novo século digno de nele vivermos.

Estamos diante de uma nova bifurcação. Qual será a nossa escolha?

Marly

Data: 2008.10.20 | Categoria: Cenários | Comentário: 1

O labirinto do Fauno

Origraffiti – Dobrinhas texturizadas com técnica de Graffiti – Eva Duarte, Evil e Azul.

Confira todo cenário montado pelo rizomático fotógrafo Ghuga Távora e parceiros!

Data: 2008.08.29 | Categoria: Cenários | Comentário: 0

Volto de uma viagem para uma fazenda no Mato Grosso do Sul impregnada pela experiência vivida no contato com o Cerrado. Eu já havia morado, há um bom tempo atrás, na região do cerrado, em Três Marias – MG. E reencontrei o mesmo encantamento que tive anteriormente com a amplitude desse horizonte de 360 graus. O olhar vai longe, sem obstáculos. A linha do encontro entre a terra e o céu fica mais definida. A abóbada celeste parece mais próxima, como que abraçando a terra. E o pôr de sol que incendeia o horizonte parece ter um som que atrai os pássaros convidando-os para a dança de despedida do dia. É como se fosse ouvido lá de longe o Canto Guarani dizendo: A terra sem males, essa é a terra boa, essa é a terra áurea e perfeita. Chegamos lá mediante ao vôo. Ali também se dança.

É impossível não participar desse momento, em reverência. E ir vendo, pouco a pouco a entrada das estrelas. No alto da noite as estrelinhas piscam, puxando fios, e dançam nos fios cachos de poetas, diz Guimarães Rosa. São tantas e há tanto tempo não vistas, encobertas que são pela névoa da poluição e pelas luzes artificiais da cidade, que dá vontade de deitar no chão e deixar o olhar viajar cada vez mais longe por esse imenso cosmos. E me lembro do poema de Cora Coralina:

Melhor do que a criatura,
fez o criador a criação.
A criatura é limitada.
O tempo, o espaço,
normas e costumes.
Erros e acertos.
A criação é ilimitada.
Excede o tempo e o meio.
Projeta-se no Cosmos.

bioma cerrado 1 2 3 4

A parte triste desta viagem foi a constatação de que as criaturas ainda não estão percebendo o valor inestimável desse bioma cerrado, que vem sendo progressivamente devastado pelo desmatamento, pela monocultura, pelas carvoarias e minerações. A criatura é mesmo limitada, principalmente quando trata a natureza como propriedade sua e não percebe o alto custo ambiental e vital de uma atividade predatória que só visa o lucro corporativo ou pessoal. Mas as vozes que defendem a preservação e recomposição do cerrado continuam gritando e cada vez mais alto. Algumas iniciativas vão sendo concretizadas. É preciso acordar antes que seja tarde demais.

E depois de tanto espaço, silêncio e calma foi difícil voltar para esta cidade maluca. São Paulo é uma cidade-chapéu, disse uma amiga de Três Marias – MG. Por que cidade-chapéu? Porque é tudo tapadinho!

Marly