Arquivos de categorias: Agenciamento

Data: 2011.03.18 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 8

“Naquele tempo, o mundo dos espelhos e o mundo dos homens, não eram, como hoje, incomunicantes. Além disso, eram muito diferentes um do outro; não coincidiam nem os seres nem as cores nem as formas. Os dois reinos, o especular e o humano, viviam em paz; entrava-se e saía-se pelos espelhos. Uma noite o povo do espelho invadiu a Terra. Sua força era grande mas ao cabo de sangrentas batalhas as artes mágicas do Imperador Amarelo prevaleceram. Ele repeliu os invasores, encarcerou-os no espelho e lhes impôs a tarefa de repetir, como numa espécie de sonho, todos os atos dos homens. Privou-os de sua força e de seu aspecto e reduziu-os a mero reflexos servis. Um dia contudo, eles se livrarão dessa letargia mágica.

Norrin Road - Poderes diabólico (s) Antagonista (s)

O primeiro a despertar será o Peixe. No fundo do espelho perceberemos uma linha muito tênue, e a cor dessa linha será uma cor que não se parece com nenhuma outra. Depois irão despertando as outras formas. Gradualmente diferirão de nós, gradualmente deixarão de imitar-nos. Romperão as barreiras de vidro ou de metal e desta vez não serão vencidas. Junto com as criaturas dos espelhos combaterão as criaturas da água. … Outros pensam que antes da invasão, ouviremos vindo do fundo dos espelhos, o rumor das armas.”

BORGES, Jorge Luis. “Animais dos espelhos”, In: O livro dos seres imaginários. Companhia das Letras, 2007. p.26-27

Norrin Road - Provas difíceis

MINHA FILOSOFIA CRUCIFICADA – fragmento

Meu Deus! Como é difícil viver aquilo que se pensa!…
Outrora, toda a minha filosofia estava na cabeça,
Em forma de grandes idéias,
Mais tarde, a minha filosofia desceu ao coração,
Em forma de belos ideais.
E eu, na minha erudita ignorância,
Me tinha em conta de um filósofo…
E, em frases grandíloquas de altissonante eloqüência,
Proclamava aos quatro ventos a minha sapiência filosófica…
Quando, porém, tentei passar a minha filosofia
Da cabeça e do coração para as mãos,
Para a crueza da vida prática,
Para o rude prosaísmo da vivência cotidiana –
Quase que desanimei…
Verifiquei que subia ao Gólgota
E ia ser crucificado…
Da cabeça e do coração para as mãos –
Não é isto uma cruz?
Minha pobre filosofia,
Ontem tão segura e autocomplacente,
Hoje, sangrando entre os braços da cruz!…

Huberto Rohden – A Voz do Silêncio - Ed. Martin Claret

Data: 2011.03.12 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 7

Aparecimento do antagonista 1 2

“Era uma vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida. Era incapaz disso, daí ser um homem descontente. Isso provinha, decerto, do fato de que, no fundo de seu coração, sabia sempre (ou julgava saber) que não era realmente um homem e sim um lobo das estepes. (…) É admissível, por exemplo, que, em sua infância, fosse rebelde, desobediente e anárquico, o que teria levado seus educadores a tentar combater a fera que havia nele, dando ensejo assim a que se formasse em sua imaginação a idéia e a crença de que era, realmente, um animal selvagem, coberto apenas com um tênue verniz de civilização. A esse propósito poder-se-iam tecer longas considerações e até mesmo escrever livros; mas isso de nada valeria ao Lobo da Estepe, pois para ele era indiferente saber se o lobo se havia introduzido nele por encantamento, à força de pancada ou se era apenas uma fantasia de seu espírito. O que os outros pudessem pensar a este respeito ou até mesmo o que ele próprio pudesse pensar, em nada o afetaria, nem conseguiria afetar o lobo que morava em seu interior.
DueloO Lobo da Estepe tinha, portanto, duas naturezas, uma de homem e outra de lobo; tal era seu destino, e nem por isso tão singular e raro. Deve haver muitos homens que tenham em si muito de cão ou de raposa, de peixe ou de serpente sem que com isso experimentem maiores dificuldades. (…) No caso de Harry, entretanto, o caso diferia: nele o homem e o lobo não caminhavam juntos, mas apenas permaneciam em contínua e mortal inimizade e um vivia apenas para causar dano ao outro, e quando há dois inimigos mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça.
(…) Com nosso Lobo da Estepe sucedia que, em sua consciência, vivia ora como lobo, ora como homem, como acontece, aliás, com todos os seres mistos. Ocorre, entretanto, que quando vivia como lobo, o homem nele permanecia como espectador, sempre à espera de interferir e condenar, e quando vivia como homem, o lobo procedia de maneira semelhante. Por exemplo, se Harry, como homem, tivesse um pensamento belo, experimentasse uma sensação nobre e delicada, ou praticasse uma das chamadas boas ações, então o lobo, em seu interior, arreganhava os dentes, ria e mostrava-lhe com amarga ironia o quão ridícula era aquela nobre encenação aos seus olhos de fera, aos olhos de um lobo que sabia muito bem em seu coração o que lhe convinha, ou seja, caminhar sozinho nas estepes, beber sangue vez por outra ou perseguir alguma loba. Toda ação humana parecia, pois, aos olhos do lobo horrivelmente absurda e despropositada, estúpida e vã. Mas sucedia exatamente o mesmo quando Harry sentia e se comportava como lobo, quando arreganhava os dentes para os outros, quando sentia ódio e inimizade por todos os seres humanos e por seus mentirosos e degenerados hábitos e costumes. Precisamente aí é que a parte humana existente nele se punha a espreitar o lobo, chamava-o de besta e de fera e o lançava a perder, amargurando-lhe toda a satisfação de sua saudável e simples natureza lupina.
Era isso o que ocorria ao Lobo da Estepe, e pode-se perfeitamente imaginar que Harry não levasse de todo uma vida agradável e feliz. (…) Não se pode negar que fosse, em geral, muito infeliz, e podia também fazer os outros infelizes, especialmente quando os queria ou era por eles estimado. Pois todos os que com ele se deram viram apenas uma das partes de seu ser. Muitos o estimaram por ser uma pessoa inteligente, refinada e arguta, e mostraram-se horrorizados e desapontados quando descobriam o lobo que se mostrava nele. E assim tinha de ser, pois Harry, como toda pessoa sensível, queira ser amado como um todo (…). Havia outros, todavia, que amavam nele exatamente o lobo, o livre, o selvagem, o indômito, o perigoso e forte, e estes achavam profundamente decepcionante e deplorável quando o selvagem e perverso se transformava em homem, e mostrava anseios de bondade e refinamento, gostava de ouvir Mozart, de ler poesia e acalentar ideais humanos. Em geral, estes se mostravam mais desapontados e irritados do que os outros, e dessa forma o Lobo da Estepe levava sua própria natureza dual e discordante aos destinos alheios toda vez que entrava em contato com as pessoas”.

HESS, Hermann – O lobo da estepe, RJ: Record, 26ª ed., 2000

Data: 2011.03.07 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 15

O falso her  i

          “Um herói de tal espécie não é senão um globo gigantesco, inchado a mais não poder e cheio de sentenças, de frases em voga e de provérbios”.

          Dostoievski, no conto O pequeno herói.

          Um herói inventas,
          com ele te contentas.

          Um herói enterras:
          escapas e esperas —

          o herói do dia

            não demoraria

            (só por um segundo,
            um herói no mundo)

            Um herói inventas,
            dele te alimentas —

            com amorosa fome:
            alma carne alma.

            Inventas e calas
            o que sabes claro.

            E já o desmascaras:
            tudo é mito e barro.

            Bernardo de Mendonça, em Os fantasmas tropicais.

            O falso her  i desmascarado

            Perdi os dias que já aproveitara.
            Trabalhei para ter só o cansaço
            Que é hoje em mim uma espécie de braço
            Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

            … Sou quem falhei ser.

            … Fiz de mim o que não soube,
            E o que podia fazer de mim não fiz.
            Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, perdi-me.
            Quando quis tirar a máscara,
            Estava pegada à cara.

            Fernando Pessoa (excertos)

    Data: 2011.03.05 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração, Sons & Imagens | Comentário: 0

    Cl  o Busatto   Fevereiro 2011 II 1

    Data: 2011.02.25 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 9

    7 1


    A figura do herói é um arquétipo presente desde tempos imemoriais. Certas formas de pensamento e de gestos que são entendidos universalmente, associados a atitudes e manifestações emotivas, seguem um modelo simbólico que se estabeleceu muito antes do homem desenvolver uma consciência reflexiva.

    Os símbolos arquetípicos não são fabricados, não têm origem conhecida, eles são produções espontâneas da psique, são fatores dinâmicos que se manifestam em impulsos, e cada um deles traz em si, intacto, o poder criador de sua fonte.

    Os heróis e os feitos míticos mantiveram-se vivos até a nossa época, ainda que tenham sido relegados para o inconsciente devido ao império da razão. A função primária da mitologia e dos ritos sempre foi a de fornecer os símbolos que levam o espírito humano a avançar, opondo-se às fantasias humanas que tendem a levá-lo para trás.

    Os rituais de passagem tradicionais costumavam ensinar ao indivíduo que ele deveria morrer para o passado para poder renascer para o futuro. Apenas o nascimento pode conquistar a morte – nascimento não da coisa antiga, mas de algo novo.

    Neste sentido, todos nós vivemos a experiência do HERÓI em muitas circunstâncias de vida que envolvem travessias de uma fase para outra.

    Vamos, então, caminhar com Joseph Campbell acompanhando a aventura do herói nas suas diferentes etapas.

    A partida do herói determina aquele instante em que “O herói mitológico, saindo de sua cabana ou castelo cotidianos, é atraído, levado ou se dirige voluntariamente para o limiar da aventura”. Às vezes, vivemos isso conscientemente, a partir de uma escolha precisa que fazemos em nossas vidas. Outras vezes, escolhas cotidianas nas quais não prestamos a devida atenção (ou que são inconscientes) nos conduzem, de repente, a este limiar.

    Foi dada a partida… nosso herói interno começa sua aventura!

    Fonte:
    JUNG, C. G. – El hombre y sus símbolos, Madrid: Aguilar, 1969.
    CAMPBELL, J. – O herói de mil faces, São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1988.

    Marly e TCris

    Data: 2011.02.19 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 22

    Missão
    Este projeto nasce a partir de 20 imagens – criadas por nosso amigo e companheiro de aprendizagem Norrin Road – tendo por emblema o Coração.

    As palavras coração, corazón, cuore, coeur têm sua origem na raiz indo-européia krd, também significando “centro” e “meio”. Além de sua importante função como órgão central de nosso corpo, o coração pode ser visto simbolicamente tanto como o centro da vida, quanto como o ser interior e sua afetividade, sede da inteligência e da sabedoria: Os grandes pensamentos vêm do coração, diz Pascal.

    Além de registrar e divulgar parte da obra de Norrin, nosso impulso foi o de possibilitar diferentes leituras de cada uma das imagens, e de seu conjunto, criando novos agenciamentos através de textos (literários, filosóficos, reflexivos, poéticos…) de nossa escolha, estando aberto à contribuição dos que acompanham o nosso Blog.

    Assim como a imagem pode ampliar a leitura de um texto (e de contextos), diferentes textos podem resignificar uma imagem, num entrecruzamento contínuo e rizomático de imagem/conceito, forma/conteúdo, subjetivo/objetivo, oposto/complementar. O que, por um lado, abre para conexões… circuitos, conjunções, superposições e limiares, passagens e distribuições de intensidades, territórios e desterritorializações à maneira de um topógrafo. E, por outro lado, traz à luz um agenciamento do inconsciente, seleciona as vozes que sussurram, convoca as tribos e os idiomas secretos de onde extraímos algo que chamamos de “eu”, como propõe Deleuze.

    Podemos dizer que o agenciamento encontra-se na gênese deste projeto-diálogo, cujas imagens foram arrebanhando palavras e ritmos, passos e compassos, frequências e níveis de percepção do ser. Ou como diz o texto De uma conversa sobre a Linguagem entre um japonês e um pensador:

    “A nós japoneses não estranha que uma conversa deixe indeterminado justamente aquilo a que se visa e até mesmo o deixe recolhido no indeterminável. (…) É o que possibilita o êxito de toda conversa entre pensadores. A conversa chega então a perceber, por si mesma, que o indeterminável tão somente não foge, mas desenvolve a sua força de recolhimento de modo cada vez mais irradiante, ao longo da caminhada”.
    (Heidegger, Martin – A Caminho da Linguagem, Petrópolis: Vozes, 2008 – p. 71-120)

    Sua presença-coração e participação são valiosas para nós!

    Marly e TCris

    Data: 2011.02.10 | Categoria: Agenciamento, Diálogos - PONTO EM QUESTÃO | Comentário: 0

    P – Como se pode dar um nome específico ao que ainda se procura? Todo achar e encontrar repousa no apelo da linguagem nomeadora. (p.88)

    ….

    J – Por isso é ainda com mais cuidado que devemos cultivar os caminhos que levam à essência da linguagem.

    P- Já seria bastante se, de início, conseguíssemos abrir apenas uma vereda para este caminho.

    J – Falar de aceno já seria vestígio de uma vereda.

    P – Na verdade, falar de aceno é uma ousadia.

    J – Compreendemos muito bem que um pensador prefira reter a palavra a ser dita, de certo não para guardá-la e sim para levá-la ao encontro do que é digno de ser pensado.

    www.scx.hu//877605 beauty of autumn

    P – É o que significa aceno. Os acenos são misteriosos. Acenam para nós e acenam fora de nós. Mas nos acenam sobretudo com a fonte de onde repentinamente nos advêm.

    J – O senhor pensa no aceno em ligação com o que foi dito à propósito da palavra gesto?

    P – Exatamente.

    J – Segundo sua indicação, acenos e gestos são diferentes de sinais e símbolos plantados no solo da metafísica.

    P – Acenos e gestos pertencem a um espaço de essência totalmente diferente, caso me permita essa expressão perigosa. (p.93.94)


    J – Sinto-me encorajado com a indicação de que a palavra é aceno e não signo, no sentido de simples designação.

    P – Os acenos precisam de um amplo estado de oscilação

    J – que os mortais só conseguem percorrer vagarosamente.

    P- É o que nossa língua chama de hesitação. Na verdade, a hesitação acontece quando o vagar se mantém na reverência e se atém ao respeito. Por isso não quero perturbar sua hesitação com a pressão dos apressados.” (p .96)

    Os acenos que descontinuamente nos tocam seriam mensagens determinantes que recolhemos no indeterminável?

    TCris

    Data: 2011.02.05 | Categoria: Agenciamento, Diálogos - PONTO EM QUESTÃO | Comentário: 2

    Sobre o GESTO ( no Teatro Nô)

    Noh

    (…)

    J – O gesto não está tanto no movimento visível da mão e nem na postura do corpo…

    P – O gesto é um recolhimento de um trazer, porque o que trás, traz a si mesmo até nós.

    J – E nós apenas lhe trazemos ao encontro nossa parte.

    P – E o que se traz até nós, já trouxe, inscrito em seu trazer, o trazer de nossa parte.

    J – O senhor chama, portanto, de gesto a força que reúne originariamente em si a unidade entre o trazer até nós e o nosso trazer.

    P – O perigo de uma formulação como essa reside no fato de se representar a reunião como uma composição posterior…

    J – em lugar de se fazer a experiência de que todo trazer, tanto o trazer até nós, como o trazer de nossa parte, brota da reunião.

    P – Se conseguíssemos pensar o gesto deste modo, onde estaria então o próprio do gesto que o senhor acabou de me mostrar?

    J – Numa visão invisível que se traz de maneira tão recolhida para o vazio, que nele e por ele, a montanha [ como imagem evocada] aparece em toda sua presença…” p.87

    A União da Fonte se reune no humano.
    TCris