Arquivos de categorias: Agenciamento

Data: 2011.06.09 | Categoria: Agenciamento, Ofício de Aprender, Sons & Imagens | Comentário: 5

Diz Thierry Huort, ilustrador do livro Reinventar o ofício de aprender:

“… com desenhos de origem que, a priori, apresentam apenas uma ínfima diferença, uma simples ação sobre alguns parâmetros, é suficiente para nos mostrar um mundo repleto de diversidade. Mais do que a exatidão do dado inicial, o mais importante é a sua biografia.

Em outras palavras, cada experiência (repetição) e cada mudança de ponto de vista (focal) sobre essa experiência, conduz-nos a ganhar maior grau de complexidade, a modificar nossa estrutura, enriquecer nosso desenho pessoal, atualizar nosso potencial e exercer nosso ofício natural: o ofício de aprender”.

O vídeo Opening [Abertura], com música de Philip Glass, me parece oferecer sons, imagens e movimentos que nos permitem compreender melhor o que Thierry propõe.

Marly Segreto

Data: 2011.05.06 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 5

Vit  ria 1 2 3

No interior do coração, habita o Amor,
Qual pássaro na verde sombra do bosque.
Antes do coração gentil, no esquema da natureza,
O Amor não existia, nem o coração gentil antes do Amor.
Pois com o sol, ao mesmo tempo,
Assim surgiu a luz imediatamente; nem ocorreu
Seu nascimento antes do nascer do sol.
E o Amor teve seu efeito na gentileza
Do verdadeiro eu; tal como,
No fogo brando, o excesso de calor.

Poesia cortesã do Japão dos sécs. X-XII
Citada em Campbell, J. – O herói de mil faces, São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1992.

E a benção que o Amor traz consigo restaura o mundo: Vitória!

Em memória de Norrin Road, com nossos agradecimentos por nos ter proporcionado, ainda que postumamente, a oportunidade de realizarmos esse tão envolvente projeto PASSOS E COMPASSOS DO CORAÇÃO.

Agradecemos também a todos(as) que nos acompanharam nesse trajeto com seus ricos comentários.

Marly Segreto & Teresa Cristina Bongiovanni

COMPANHIA DE APRENDIZAGEM

Data: 2011.04.30 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 4

Norrin Road - Chegada em Casa

“Etapa VI – NO CAMINHO DO GRANDE RETORNO

Tranquilamente, sobre as costas do búfalo
O boiadeiro volta para casa.
Envolto pelas brumas,
O som da flauta à noite, é muito belo.
O homem canta sua melodia,
Ele marca o compasso,
O coração pleno de uma alegria desconhecida.
Será preciso dizer! De agora em diante, ele habita
Entre os sábios.”

Fonte: JEAN YVES LELOUP. A ARTE DE CATIVAR O BÚFALO – Etapas no caminho do despertar no budismo, cristianismo e processo de individuação na psicologia profunda –Casa Siloé – Mosteiro de São Bento, Vinhedo – 20-22 abril 2007

Data: 2011.04.23 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 5

Reconhecimento do her  i
Reconhecer assume o sentido de voltar a conhecer quando nos deparamos com algo ou alguém já visto anteriormente, mas que ficou perdido na memória e vem novamente à tona.

Reconhecer significa também admitir algo como certo, verificado, constatado, caracterizado, identificado e, então, é possível declarar, afirmar, assegurar, legitimar o que foi observado.

Reconhecer também implica confessar, aceitar, mostrar-se agradecido por algo.

Conhecer parece não bastar e sempre pedir uma ampliação através do reconhecer.

Podemos reconhecer nas mil faces do herói as multiplas facetas do humano?

Podemos reconhecer que todos nós temos um pouco de herói e vilão, tolo e sábio, palhaço e austero, como diz Campbell ?

Quanto mais humana for a feição do herói, com suas qualidades e fraquezas, mais provável a nossa identificação com ele.

Mas a palavra conhecer em francês, connaître, apresenta uma característica interessante, pois pode ser lida como con-naître: nascer com.

Nesse sentido, reconhecer pode também ser compreendido como renascer.

Vida – morte – ressurreição, não é isso que celebramos na Páscoa cristã?

E o ovo não pode ser visto como símbolo do germe da nova vida?

Então, boa Páscoa a todos!

Data: 2011.04.15 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 3

Retorno
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos
de morrer.

Então sabemos tudo do que foi e será.

O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.

Levantamos um punhado de terra e apertamo-la
nas mãos.

Com doçura.

Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.

Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.

Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.

Cada um de nós é por enquanto a vida.

Isso nos baste.

José Saramago

Em http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=811#ixzz0t1tptgmh

Data: 2011.04.08 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 6

Punição ou culpa “Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou, já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser ninguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro o tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha… Ele se chegou me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito era um rio lavado, escoado no estuário do choro.

Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. Por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é a felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventadora de sombras. A manhã, essa, é um caracol, em adolescente espiral. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do meio-dia.

Deixem-me agora evocar, aos goles de lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrimento. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota…”

(Mia Couto. A despedideira)

Infra    o“Estou de saída, para a minha rotina de visitadora quando, de passagem pelo corredor, reparo que o pano que cobria o espelho havia tombado. Sem querer, noto o meu reflexo. Recuo dois passos e me contemplo como nunca antes o fizera. E descubro a curva do corpo, o meu busto ainda hasteado. Toco o rosto, beijo os dedos, fosse eu outra, antiga e súbita amante de mim. O cesto cai-me da mão, como se tivesse ganhado alma.

Uma força me aproxima do armário. Dele retiro o vestido preto que, faz vinte e cinco anos, meu marido me ofereceu. Vou ao espelho e me cubro, requebrando-me em imóvel dança. As palavras desprendem-se de mim, claras e nítidas:

- Só peço um oxalá: que eu fique viúva o quanto antes!

O pedido me surpreende, como se fosse outra que falasse. Poderia eu proferir tão terrível desejo? E, de novo, a minha voz se afirma, certeira:

- Estou ansiosa que você morra, marido, para estrear este vestido preto.

O espelho devolve a minha antiquíssima vaidade de mulher, essa que nasceu antes de mim e a que eu nunca pude dar brilho. Nunca antes eu tinha sido bela. No instante, confirmo: o luto me vai bem com meus olhos escuros. Agora, reparo: afinal, nem envelheci. Envelhecer é ser tomado pelo tempo, um modo de ser dono do corpo. E eu nunca amei o suficiente. Como a pedra, que não tem espera nem é esperada, fiquei sem idade. E experimento, em vertigem, pose e lágrima. No funeral, o choro será assim, queixo erguido para demorar a lágrima, nariz empinado para não fungar. Dessa feita, marido, não será você, mas serei eu o centro. A sua vida me apagou. A sua morte me fará nascer.

(Mia Couto. O cesto)

COUTO, Mia. O fio das missangas. Contos

Data: 2011.04.01 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 2

Norrin Road - Danos Reparados Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Norrin Road - Núpcias do Heroí
Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

(Eros e Psique. Fernando Pessoa)

Data: 2011.03.25 | Categoria: Agenciamento, Companheiros de Aprendizagem, Diálogo com o Coração | Comentário: 5

“O arquétipo do Andarilho propicia ou causa o surgimento de um outro: o do lobo solitário ou do proscrito. Ela agora está afastada das famílias aparentemente felizes das aldeias, fora dos ambientes aquecidos. Ao relento e no frio. É essa agora a sua vida… Começamos de certo modo a sentir que não mais fazemos parte da vida que rodopia à nossa volta. Os megafones parecem estar muito longe, os camelôs, os ambulantes, todo o magnífico circo da vida exterior como que cambaleia e desmorona, à medida que descemos mais fundo nos mundos subterrâneos “ [mundo interior].

Norrin Road - Encontro com o Doador

[A donzela sem mãos está desfigurada e faminta quando chega ao pomar.]… Ela se ajoelha diante de um pomar como se este fosse um altar – o que ele é – o altar dos deuses selvagens do outro mundo. À medida que descemos até nossa natureza básica [interna e verdadeira], as antigas formas automáticas de alimentação são eliminadas. Coisas do mundo que costumavam ser alimentos para nós, perdem seu sabor. Nossas metas não mais nos atraem. Nossas realizações não têm mais interesse. Para onde quer que olhemos no mundo objetivo, não há alimentos para nós. Portanto, é um dos milagres mais autênticos da psique, que quando estamos tão desamparadas, a ajuda chega e bem na hora.”

… Na história, a ação está agora centrada na árvore frutífera [a pêra que alimenta] que em tempos remotos era chamada Árvore da Vida, Árvore do Conhecimento. A água, o líquido fundamental do crescimento e da criatividade, é absorvida pelas raízes que alimentam a planta pela ação capilar – uma rede de bilhões de ligações celulares pequenas demais para serem vistas – e a água chega até o fruto e faz com que ele cresça e se embeleze. Por este motivo considera-se que o fruto é investido de alma, de uma força de vida que deriva de uma certa quantidade de água, terra, ar, alimento e semente. E que contém tudo isso, além de ter um sabor divino. As mulheres que se alimentam do fruto, da água e da semente do trabalho nas florestas do outro mundo [mundo interno] também crescem psicologicamente na mesma proporção. Suas psiques engravidam e permanecem num estado de amadurecimento constante.”

Norrin Road - Dons Mágicos

… A história ressuscita nosso conhecimento de uma promessa muito antiga: a promessa de que a descida nos será benéfica mesmo que esteja escuro, mesmo que tenhamos a impressão de estar perdidas. Mesmo em meio à falta de conhecimento, à falta de visão, quando estamos “vagueando às cegas”, existe “algo”, “alguém” excessivamente presente que acompanha nosso ritmo. Viramos à esquerda, ele vira à esquerda. Viramos à direita, ele nos acompanha de perto, dando-nos amparo, abrindo caminho para nós.”

Clarissa Pinkola Estes. “A donzela sem mãos”, in: Mulheres que correm com os lobos, Rio de Janeiro: Rocco, 1995, p.508-512.