Arquivos mensais: setembro, 2010

Data: 2010.09.15 | Categoria: Oficina Ponto de Apoio, Projetos 2010 | Comentário: 0

Em setembro realizamos o sexto encontro mensal da Oficina PONTO DE APOIO. Durante o período de julho-agosto, por força de leis federais que estão agilizando o processo de triagem para adoção, algumas novas medidas ocorreram na Casa Transitória, que ecoaram na rotina (e no ânimo!) dos funcionários e no nosso projeto; diminuiu o número de crianças abrigadas, pois mais da metade foi re-encaminhada para a família e consequentemente, diminuiu o número de funcionários necessários.

Paralelamente, a escolha de novos funcionários que passaram no último concurso municipal e que prestam serviço lá, também modificou o quadro administrativo; pessoas que estavam na Oficina foram dispensadas e um bom número de novos funcionários concursados entrou no quadro. Hoje há uma diversidade de situações das pessoas que compõem o público da Oficina Ponto de Apoio e algumas adaptações na condução dos temas foram necessárias. Benditos princípios da experiência a priori e método a posteriori e da estrutura aberta que a Companhia desenvolveu como metodologia, que nos permite acolher os iniciantes e integrar todos num novo e outro ritmo.

Neste contexto, decidi por um texto que trabalha com o nível simbólico, onde todos possam se ver refletidos e trabalhamos o Mito de Perséfone – que fala dos ciclos da natureza e por analogia, da vida humana. Foi uma boa escolha, pois apesar das pessoas em geral desconhecerem o tempo-espaço grego, a história de Perséfone fez sentido para elas porque grande parte tem sua origem na vida rural, próxima à natureza; os depoimentos posteriores demonstraram isto no entrecruzamento subjetivo.

“Quando fazemos coisas com as palavras, do que se trata é de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como correlacionamos as palavras e as coisas, de como nomeamos o que vemos ou o que sentimos e de como vemos ou sentimos o que nomeamos.” (Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Jorge Larrosa Bondía – Universidade de Barcelona, Espanha.Tradução de João Wanderley Geraldi – Universidade Estadual de Campinas, Departamento de Lingüística)

http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BONDIA.pdf

Whirlpools 1957 - M.C.ESCHER

A Companhia aporta experiencialmente a epistemologia estudada em tempo anterior. Ciclos que finalizam e que iniciam. Ciclos dentro de ciclos.

Abraços a todos
TCris

Data: 2010.09.03 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 1

desaprender
Muita coisa aprendi
No decurso da minha vida
Mas só no fim da vida
Aprendi a arte dificílima
De desaprender…
Desaprender os erros sem conta
Que os sentidos percebem
Na sua erudita ignorância…
Aprendera ele que os fatos externos
São a própria Realidade.
Aprendera que este mundo
Que os sentidos percebem
E o intelecto concebe,
São a realíssima
E única Realidade…
E por largos anos
Andei escravizado por essa ilusão.
Pois, que admira?
Se, por tantos séculos e milênios,
Dormira a humanidade nas trevas,
Como poderia eu, em poucos decênios,
Despertar para a luz?
Até que, finalmente, descobri
A Realidade para além das facticidades,
A alma do eterno Ser
No corpo desse efêmero parecer.
Hoje sei que os fatos são meros reflexos
No espelho bidimensional de tempo e espaço,
Reflexos da Realidade,
Que está em sentido oposto
A esses fatos refletidos
No espelho de tempo e espaço.

Mas só Deus sabe quanto esforço,
Quantos sofrimentos,
E quanta agonia me custou
Essa nova atitude,
Essa meia-volta que tive de dar
Ante o espelho do mundo das velhas ilusões,
Para enxergar o novo mundo da verdade!
Esse movimento de 180 graus,
Que dei em face do refletor,
Essa conversão dos conhecidos finitos
Para o desconhecido Infinito
Me custou o holocausto do meu ego,
Esse sangrento egocídio,
Que a verdade me exigiu.

Mas agora, de costas para os fatos
E de rosto para a Realidade,
Me sinto grandemente liberto
E jubilosamente feliz
E, em vez de amar o mundo sem Deus,
Amo o mundo em Deus
Porque vejo em cada fato efêmero
O reflexo da Realidade eterna.

(Huberto Rohden – Escalando o Himalaia – Ed. Martin Claret)

Huberto Rohden (1893 – 1981) filósofo, educador e teólogo catarinense, radicado em S. Paulo. Padre jesuíta durante o início da carreira literária, escreveu mais de 100 obras enfatizando o autoconhecimento, a autoeducação e a autorealização. Graduou-se em Ciências, Filosofia e Teologia pelas Universidades de Innsbruck (Áustria), Valkenburg (Holanda) e Nápoles (Itália). Fundador da Instituição Cultural e Beneficente Alvorada (1952), lecionou na Universidade de Princeton e na American University (EUA), e na Universidade Mackenzie (SP).

Imagem obtida em: http://reserva-literaria.blogspot.com