Date: 2010.08.04 | Category: Diálogos, Para refletir..., Trans | Tags:

pena escrevendo Certo dia, uma formiga que caminhava perdida sobre uma folha de papel viu uma pena que escrevia em finos e negros movimentos ritmados.

— Que maravilha! – exclamou. — Essa coisa notável possui vida própria! E faz rabiscos tão extensos e com tanta energia nesta bela superfície que chega a se igualar aos esforços de todas as formigas do mundo. Os rabiscos que faz! Parecem formigas! Não uma, mas milhões de formigas correndo juntas!

Ela repetiu suas idéias para uma companheira, que ficou interessada em sua história e elogiou seus poderes de observação e reflexão. Mas outra formiga disse:

— Aproveitando-me de seus esforços, devo admiti-lo, tenho observado esse estranho objeto e cheguei à conclusão de que ele não é o dono de seu próprio trabalho. Você falhou em observar que a pena está ligada a outros objetos que a rodeiam e conduzem. Estes devem ser considerados como a origem de seu movimento e reconhecidos como tal.

Desse modo as formigas descobriram os dedos.

Passado algum tempo, outra formiga escalou os dedos e percebeu que eles compreendiam a mão, que ela explorou total e minuciosamente, ao estilo da sua espécie. Voltou então para junto de suas companheiras e gritou-lhes:

— Formigas! Tenho importantes notícias para vocês. Aqueles pequenos objetos que rodeiam a pena fazem parte de outro muito maior. E este é que realmente dá movimento a todos eles.

Mas então as formigas descobriram que a mão estava ligada a um braço; que o braço estava ligado a um corpo; que não existia uma, e sim duas mãos; e que existiam pés, que não escreviam.

As investigações prosseguiram e, assim, as formigas puderam formar uma idéia clara da mecânica da escrita. Porém, através de seu método de investigação costumeiro, não conseguiram descobrir o sentido e a intenção do que estava escrito, nem como aquilo era, em última análise, governado.

Idries Shah, Caravan of Dreams. London, Octagon Press, 1991
Citado por Mônica Cavalcante Lepri – As “idéias vivas” de Gregory Bateson, em Ciência Hoje, vol. 38, nº. 228, julho/2006, p. 19.

Esta pequena história me pareceu exemplificar, de uma maneira simples e metafórica, a incompletude de nosso conhecimento. Sempre vamos nos defrontar com algo não percebido, não considerado, não sabido… que impulsiona a continuidade do processo de descoberta.

Ela também nos fala que o conhecimento das partes não pode ser conclusivo sem o conhecimento do todo, e vice versa, exigindo o desenvolvimento de um pensamento complexo, transdisciplinar, que leva em conta a interdependência de todos os fatores, o seu sentido e contexto, o “padrão que liga”, como diz Gregory Bateson.

Aliás, as idéias de Bateson merecem vários posts, por sua abrangência e originalidade. Aguardem…

Marly Segreto

1 responses to “A INCOMPLETUDE DO CONHECIMENTO”

  1. TCris at 2010/08/16 14:28 says:

    “Esta pequena história me pareceu exemplificar, de uma maneira simples e metafórica, a incompletude de nosso conhecimento. Sempre vamos nos defrontar com algo não percebido, não considerado, não sabido… que impulsiona a continuidade do processo de descoberta.”

    Quando nos damos conta desta nossa incompletude, na vida real e não apenas como conceito mental, é incrível como muitas possibilidades de modos de existir, subitamente, se configuram para nós. (…)” exigindo o desenvolvimento de um pensamento complexo, transdisciplinar, que leva em conta a interdependência de todos os fatores, o seu sentido e contexto, o “padrão que liga”, como diz Gregory Bateson.”

    Gostaria de contribuir para esta reflexão com um pequeno trecho de um texto primoroso que recebi:

    “O acontecimento nos é dado na forma de choque, do estímulo, da sensação pura, na forma da vivência instantânea, pontual e fragmentada. A velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade, pelo novo, que caracteriza o mundo moderno, impedem a conexão significativa entre acontecimentos. Impedem também a memória, já que cada acontecimento é imediatamente substituído por outro que igualmente nos excita por um momento, mas sem deixar qualquer vestígio. O sujeito moderno não só está informado e opina, mas também é um consumidor voraz e insaciável de notícias, de novidades, um curioso impenitente, eternamente insatisfeito. Quer estar permanentemente excitado e já se tornou incapaz de silêncio.”

    Notas sobre a experiência e o saber de experiência* Jorge Larrosa Bondía.Universidade de Barcelona, Espanha. Tradução de João Wanderley Geraldi.Universidade Estadual de Campinas, Departamento de Lingüística.

    Conheça o texto na íntegra: http://www.anped.org.br/rbe/rbedigital/RBDE19/RBDE19_04_JORGE_LARROSA_BONDIA.pdf

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