A CRUZ E SEUS SENTIDOS
Em todos os Encontros da Companhia de Aprendizagem adotamos uma imagem simbólica, que mobiliza o entrecruzamento das dimensões do sentido – como orientação, significado e sensibilidade – do que estamos produzindo juntos. Desta vez, emergiu a imagem da Cruz, que nos fez batizar o morro em que nos reunimos no 1º dia de Morro da Cruz.
A presença da cruz é visível na natureza: no ser humano de braços abertos, no vôo dos pássaros… e nas construções humanas: no mastro do navio; no desenho das ruas, avenidas e praças das cidades; no recorte, ordenação e medida dos espaços sagrados, como os templos…
Longe de pertencer exclusivamente ao cristianismo, a cruz é um símbolo que aparece sob formas diversas (e com uma pluralidade de sentidos, como todos os símbolos), em quase toda parte do mundo (Egito, China, Creta…), desde épocas bem remotas.
A tradição cristã enriqueceu o simbolismo da cruz, condensando nessa imagem a história da paixão e da salvação do Cristo. Ela simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Havendo uma distinção entre a cruz do patíbulo e a Cruz Gloriosa, signo do Cristo Ressuscitado (1).
Juntamente com o centro, o círculo e o quadrado, a Cruz é um dos quatro símbolos fundamentais, estabelecendo uma estreita relação com os outros três: “pela intersecção de suas duas linhas retas, que coincide com o centro, ela abre o centro para o exterior; inscreve-se no círculo, que divide em quatro segmentos; engendra o quadrado e o triângulo, quando suas extremidades são ligadas por quatro linhas retas” (2).
A Cruz associa-se à simbólica do quaternário, representando-o em seu aspecto “dinâmico”, enquanto o quadrado representa-o em seu aspecto “estático” (3). A correspondência com o quaternário ilustra a repartição dos quatro elementos: ar, terra, fogo, água, e de suas qualidades tradicionais: quente, seco, úmido e frio (1).
Apontando para os quatro pontos cardeais, a Cruz é a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem, cuja orientação total exige um triplo acordo: do sujeito em relação a si mesmo; do espaço em relação aos pontos cardeais terrestres; do tempo em relação aos movimentos dos astros (2).
A cruz apresenta, ainda, o caráter de símbolo ascensional, sendo análoga à Árvore da Vida, à ponte e à escada.
Nela se juntam o céu e a terra… Nela se confundem o tempo e o espaço… Ela é o cordão umbilical, jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. De todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. Ela é o símbolo do intermediário, do mediador, daquele que é, por natureza, reunião permanente do universo e comunicação terra-céu, de cima para baixo e de baixo para cima (2).
René Guénon estabelece uma interessante relação entre o simbolismo do Tecido e da Cruz:
Para melhor compreender o significado deste simbolismo, é preciso lembrar primeiramente que o urdume, formado por fios esticados sobre o tear, representa o elemento imutável e principial, enquanto que os fios da trama, passando em meio ao urdume pelo vaivém da navete, representam o elemento variável e contingente, ou seja, as aplicações do princípio a tais ou quais condições particulares. Por outro lado, se considerarmos um fio do urdume e outro da trama, perceberemos imediatamente que seu cruzamento forma uma cruz, da qual eles são respectivamente a linha vertical e a horizontal; e todo ponto do tecido, sendo assim o ponto de encontro de dois fios perpendiculares entre si, é por isso mesmo o centro de uma tal cruz. Ora, (…) a linha vertical representa aquilo que une entre si todos os estados de um ser ou todos os graus da Existência, religando seus pontos correspondentes, enquanto que a linha horizontal representa o desenvolvimento de um destes estados ou de um destes graus. (…) podemos dizer que o sentido horizontal figurará, por exemplo, o estado humano, e o sentido vertical o que é transcendente em relação a este estado… (4)
Para Guénon, o símbolo da cruz é uma união dos contrários…
Marly Segreto
(1) Cirlot, Juan-Eduardo. Diccionario de símbolos. Barcelona: Labor, 5ª ed., 1982, p. 154-156.
(2) Chevalier, J. & Gheerbrandt, A. Dicionário de Símbolos. 15º ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000, p. 309-317.
(3) Guénon, René. Os símbolos da ciência sagrada. São Paulo: Pensamento, 9ª ed., 1993. p. 354, nota 4.
(4) capítulo XIV de Guénon, R. Le Symbolisme de la Croix – “O simbolismo do tecido” (Les Éditions Vêga, Paris 1983)
http://www.reneguenon.net/guenontextostecido.html
Foto: cruz florida – passoapasso.weblog.com.pt
