Arquivos mensais: julho, 2010

Data: 2010.07.24 | Categoria: Diálogos, Para refletir..., Trans | Comentário: 0

O primeiro contato que tive com Louis Lavelle foi através de uma citação num artigo de P. Galvani (1), que vem conduzindo nossas reflexões sobre o processo de autoformação desde o início da Companhia. Eu havia ficado impressionada com a profundadidade de seu pensamento. E, por esses “acasos” que acontecem, chegou em minhas mãos um livro de Lavelle, do qual traduzo um trecho para compartilhar com vocês.

espelho  1  1

Conhecimento de si e do outro

“Ser é sempre mais que conhecer. Pois o conhecimento é um espetáculo que nós apresentamos a nós mesmos. Também, não há nada que seja mais desconhecido do que o ser que nós somos; nós não chegaremos alguma vez a abandonar nossa imagem. Num certo sentido, posso dizer que todo homem sabe mais de mim do que eu mesmo: mas isso não é para ele uma vantagem. Pois não é preciso saber com muita exatidão o que se é para ser de fato aquele que se é.

É natural que eu conheça melhor os outros que a mim mesmo, já que estou bem ocupado em me construir. E é por isso que há tanta presunção, falsa aparência e perda de tempo nesse cuidado com que eu me considero, que me atrasa quando me é preciso agir; eu devo abandoná-lo ao outro que não tem, de modo algum, o encargo direto do que virei a ser e que, inversamente a mim, interessa-se mais por meu ser realizado do que pelo ato que o realiza. Ele só vê em mim o homem manifestado, aquele que se distingue de todos os outros por seu caráter e por suas fraquezas, e não o homem que eu desejo ser e que procura sempre ultrapassar sua natureza e curar suas imperfeições. Eu experimento em mim, indefinidamente, a presença de uma potência que ainda não foi empregada, de uma esperança que ainda não foi frustrada. Um outro somente observa em mim o ser que eu posso mostrar, e eu, o ser que não mostrarei jamais. Inversamente ao que ele faz, eu tenho sempre os olhos fixados sobre o que eu não sou, bem mais do que sobre o que eu sou, sobre o meu ideal mais do que sobre meu estado, sobre a realização de meus desejos mais do que sobre a distância que me separa deles.

O mal-entendido que reina entre os homens provém sempre da perspectiva diferente pela qual cada um se vê e vê o outro. Pois cada um só vê em si mesmo as suas potencialidades e só vê no outro as suas ações. E o crédito que dá a si mesmo, recusa ao outro. Uma afinidade começa a uni-los a partir do momento em que ambos, ultrapassando o que podem mostrar, entram nessa confiança mútua, que já é uma muda cooperação.

Mas o egoísmo produz uma cegueira que, no momento em que descubro em mim um ser que sente, que pensa e que age, só deixa aparecer aos outros os objetos que devo descrever ou os instrumentos de que pude me servir. Não é preciso, então, ficar espantado pelo fato de que aquele que conhece todas as coisas em si não conheça a si mesmo, nem mesmo que, devido ao sentido contrário, cada um permaneça desconhecido ao mesmo tempo para si mesmo e pelos outros.

O mais difícil em nossas relações com os outros seres, é aquilo que parece ser talvez o mais simples: reconhecer essa existência própria, que os faz semelhantes a nós e, no entanto, diferente de nós, essa presença neles de uma individualidade única e insubstituível, de uma iniciativa e de uma liberdade, de uma vocação que lhes pertence e que nós devemos ajudá-los a realizar, ao invés de nos mostrar ressentidos, ou tentar curvá-los para conformá-los à nossa. Para nós, essa é a primeira palavra da caridade, e pode talvez ser também a última.”

LAVELLE, Louis. L’erreur de Narcisse, Paris: La Table Ronde, 2003.

L. Lavelle (1883-1951) – Filósofo francês, foi professor no College de France a na Sorbonne, membro da Academie des Sciences Morales et Politiques, sua principal obra é La Dialectique de l’éternel présent, em 4 volumes.

(1) GALVANI, P. “Autoformação, uma perspectiva transpessoal, transdisciplinar e transcultural”, em Educação e Transdisciplinaridade II, Coord. Exec. CETRANS, São Paulo: Triom, 2002, p. 101-102.

Imagem: Espelho. http://assisbrasil.org/joao/elvio.htm

Marly Segreto

Data: 2010.07.20 | Categoria: Agenciamento, Cenários, Sons & Imagens | Comentário: 2

Antonio Vitor   Pavilh  o Desativado   Riacho Doce   SB

Fonte: www.saobernardo.sp.gov.br/secretarias/sec/cul…

“Para mim, o caminho do Mistério passa pelo Real. Vem daí, quero crer, o imperativo do circunstancial em meu trabalho, empenhado sempre no delineamento de situações humanas, sejam elas triviais feito as do cotidiano, ou mais visivelmente solenes como Amor, Nascimento e Morte. Do contato com o circunstancial nasce-me, enfim, o impulso de trabalhar: o desejo de dar forma a visões, estados de alma, inquietudes geradas pela constatação de que o Real existe.” Antonio Vitor

http://www.dangaleria.com.br/exposicao/expovitor/realidade.htm

Data: 2010.07.16 | Categoria: Agenciamento, Projetos 2010, Trans | Comentário: 0

O HOMEM QUE CORRE… QUE CORRE… O HOMEM

Mal  vitch. L homme qui court 1

Trinta quadrados fazem cantar as cores:
vinte para representar o céu
e dez para representar a terra.

Casa branca, teto vermelho,
casa vermelha, teto preto.
Cruz vermelha, cruz branca:
um crucifixo plantado na terra?
Uma espada ensanguentada?
Signos erigidos, fixados,
ferindo o azul do céu,
apoiados no horizonte.

O horizonte, como uma esteira rolante
de faixas que desfilam,
vermelho contra negro,
negro contra verde,
branco contra amarelo…

Cores pisoteadas,
com grandes passos,
um homem de torso verde,
um homem sem rosto
passa a fronteira do céu.

O infinito se estende diante dele.
É “O homem que corre”
de Casemir Malévitch.

Richard Nicolas

Malevitch. capaMalevitch.contracapaMalevitch.quebra cabe  a 1 2 3

Obras de Malevitch na Internet:

http://www.artchive.com/artchive/M/malevich.html

http://www.artcyclopedia.com/artists/malevich_kasimir.html

Adriana Caccuri

Data: 2010.07.13 | Categoria: Agenciamento, Projetos 2010, Trans | Comentário: 4

A CRUZ E SEUS SENTIDOS

cruz florida passoapasso.weblog.com.pt

Em todos os Encontros da Companhia de Aprendizagem adotamos uma imagem simbólica, que mobiliza o entrecruzamento das dimensões do sentido – como orientação, significado e sensibilidade – do que estamos produzindo juntos. Desta vez, emergiu a imagem da Cruz, que nos fez batizar o morro em que nos reunimos no 1º dia de Morro da Cruz.

A presença da cruz é visível na natureza: no ser humano de braços abertos, no vôo dos pássaros… e nas construções humanas: no mastro do navio; no desenho das ruas, avenidas e praças das cidades; no recorte, ordenação e medida dos espaços sagrados, como os templos…

Longe de pertencer exclusivamente ao cristianismo, a cruz é um símbolo que aparece sob formas diversas (e com uma pluralidade de sentidos, como todos os símbolos), em quase toda parte do mundo (Egito, China, Creta…), desde épocas bem remotas.

A tradição cristã enriqueceu o simbolismo da cruz, condensando nessa imagem a história da paixão e da salvação do Cristo. Ela simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Havendo uma distinção entre a cruz do patíbulo e a Cruz Gloriosa, signo do Cristo Ressuscitado (1).

Juntamente com o centro, o círculo e o quadrado, a Cruz é um dos quatro símbolos fundamentais, estabelecendo uma estreita relação com os outros três: “pela intersecção de suas duas linhas retas, que coincide com o centro, ela abre o centro para o exterior; inscreve-se no círculo, que divide em quatro segmentos; engendra o quadrado e o triângulo, quando suas extremidades são ligadas por quatro linhas retas” (2).

A Cruz associa-se à simbólica do quaternário, representando-o em seu aspecto “dinâmico”, enquanto o quadrado representa-o em seu aspecto “estático” (3). A correspondência com o quaternário ilustra a repartição dos quatro elementos: ar, terra, fogo, água, e de suas qualidades tradicionais: quente, seco, úmido e frio (1).

Apontando para os quatro pontos cardeais, a Cruz é a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem, cuja orientação total exige um triplo acordo: do sujeito em relação a si mesmo; do espaço em relação aos pontos cardeais terrestres; do tempo em relação aos movimentos dos astros (2).

A cruz apresenta, ainda, o caráter de símbolo ascensional, sendo análoga à Árvore da Vida, à ponte e à escada.

Nela se juntam o céu e a terra… Nela se confundem o tempo e o espaço… Ela é o cordão umbilical, jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. De todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. Ela é o símbolo do intermediário, do mediador, daquele que é, por natureza, reunião permanente do universo e comunicação terra-céu, de cima para baixo e de baixo para cima (2).

René Guénon estabelece uma interessante relação entre o simbolismo do Tecido e da Cruz:

Para melhor compreender o significado deste simbolismo, é preciso lembrar primeiramente que o urdume, formado por fios esticados sobre o tear, representa o elemento imutável e principial, enquanto que os fios da trama, passando em meio ao urdume pelo vaivém da navete, representam o elemento variável e contingente, ou seja, as aplicações do princípio a tais ou quais condições particulares. Por outro lado, se considerarmos um fio do urdume e outro da trama, perceberemos imediatamente que seu cruzamento forma uma cruz, da qual eles são respectivamente a linha vertical e a horizontal; e todo ponto do tecido, sendo assim o ponto de encontro de dois fios perpendiculares entre si, é por isso mesmo o centro de uma tal cruz. Ora, (…) a linha vertical representa aquilo que une entre si todos os estados de um ser ou todos os graus da Existência, religando seus pontos correspondentes, enquanto que a linha horizontal representa o desenvolvimento de um destes estados ou de um destes graus. (…) podemos dizer que o sentido horizontal figurará, por exemplo, o estado humano, e o sentido vertical o que é transcendente em relação a este estado… (4)

Para Guénon, o símbolo da cruz é uma união dos contrários…

Marly Segreto

(1) Cirlot, Juan-Eduardo. Diccionario de símbolos. Barcelona: Labor, 5ª ed., 1982, p. 154-156.
(2) Chevalier, J. & Gheerbrandt, A. Dicionário de Símbolos. 15º ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2000, p. 309-317.
(3) Guénon, René. Os símbolos da ciência sagrada. São Paulo: Pensamento, 9ª ed., 1993. p. 354, nota 4.
(4) capítulo  XIV  de Guénon, R. Le Symbolisme de la Croix – “O simbolismo do tecido” (Les Éditions Vêga, Paris 1983)

http://www.reneguenon.net/guenontextostecido.html

Foto: cruz florida – passoapasso.weblog.com.pt

Data: 2010.07.11 | Categoria: Cenários, Projetos 2010, Trans | Comentário: 0

        AS MONTANHASDSCN7665

        Se as montanhas falassem
        Elas se calariam

        A força que há nelas
        é do silêncio… sendo
        é da constância… sendo

        Sem este silêncio não me escuto, escutando
        Me escuto pelo silêncio, silenciando

        Entre o silêncio e a fala: a constância

        DSCN7625

      Adriana Caccuri – poema e fotos

Data: 2010.07.09 | Categoria: Cenários, Espaço-tempo, Itinerância, Projetos 2010 | Comentário: 0

Pontos de Reunião da COMPANHIA DE APRENDIZAGEM durante o 3º Encontro.

          Fazenda São Judas
          São Sebastião do Paraíso – MG
          01 a 04 de julho de 2010
          Nossa gratidão amorosa aos anfitriões

“Não precisas bater quando chegares.
Toma a chave de ferro que encontrares
sobre o pilar, ao lado da cancela,
e abre com ela
a porta baixa, antiga e silenciosa.
Entra. Aí tens a poltrona, o livro, a rosa,
o cântaro de barro e o pão de trigo…”

A Casa - Monica O. SimonsVista da mesa do caf  Findo florido da mesa de refei    o

(…) Deixa que a noite, vagarosa, desça.
Cheiram à relva e sol, na arca e nos quartos,
os linhos fartos,
e cheira a lar o azeite da candeia…

Morro da Cruz 040 Lareira - Monica O. Simons

(…) Dorme. Sonha. Desperta. Da colméia
nasce a manhã de mel contra a janela.
Fecha a cancela
e vai. Há sol nos frutos dos pomares.

Arvore que renasce - Monica O.Simons Carambolas - Monica O. Simons Pessegos - Monica O. Simons

Não olhes para trás quando tomares
o caminho sonâmbulo que desce.
Caminha – e esquece.”

No topo do morro  da Cruz - Monica.O.Simonsalé m do horizonte - Monica O. Simons Vista geral - Fazenda São Judas


Versos plasmados do poema A hóspede, de Guilherme de Almeida – plenos de realidade pulsante e magia.

Fotos: Monica O. Simons e Adriana Caccuri

TCris

Data: 2010.07.07 | Categoria: Cenários, Espaço-tempo, Projetos 2010 | Comentário: 0

Morro da Cruz 002 1

    Morro da Cruz – Fazenda São Judas
    São Sebastião do Paraíso – MG
    3º Encontro da Companhia de Aprendizagem
    01 a 04 de julho

    CANTO DO POVO DE UM LUGAR
    Composição: Caetano Veloso

    Todo dia o sol levanta
    E a gente canta
    Ao sol de todo dia.

    Fim da tarde a terra cora
    E a gente chora
    Porque finda a tarde.

    Quando a noite a lua amansa
    E a gente dança
    Venerando a noite.