P. Meirieu, no artigo Educação ambiental: por quê? como? Do mundo-objeto ao mundo-projeto, oferece três pistas do que poderia ser uma proposta mais consequente para a educação ambiental:
1. “fazer existir um mundo”; 2. “fazer os outros existirem no mundo”; 3. “passar de um mundo-objeto para um mundo-projeto“.
“Fazer existir um mundo”, em sua concretude e em sua diversidade, “como universo que resiste a nós e que não nos pertence”, significa ajudar a compreender que “o mundo não se reduz ao que eu gosto, ao que quero ou ao que desejaria que ele fosse, mas que ele existe, e que ele existe exteriormente a mim mesmo… ainda que eu faça parte dele”.
“Fazer os outros existirem no mundo”… não é simples. Trata-se de “construir a distinção básica entre espaço privado e espaço público”. De compreender que “os interesses privados não podem ser impostos ou competir ferozmente com o espaço público”. E, ao mesmo tempo, reconhecer o espaço privado como direito à intimidade, como um espaço em que cada um pode se expressar, com suas necessidades e desejos, em seu processo de autodescoberta. Da difícil confrontação entre os interesses individuais entre si e com o espaço público, “pode nascer o interesse comum. O interesse de todos. O do conjunto dos homens e do planeta em que vivem”.
“Passar de um mundo-objeto para um mundo-projeto”
O que é um mundo-objeto (MO)? O que é um mundo-projeto (MP)?
Um MO é o mundo shopping-center, do consumismo. Um MP é o “mundo-tesouro, espaço de busca oferecido à nossa inventividade”.
Um MO “é o mundo que eu possuo, que me fascina, me aterroriza, me espanta…”. Um MP “é o mundo que eu interrogo, questiono, interpelo…”.
Um MO “é o mundo como totalidade exterior a mim, que me condena ao parasitismo”. Um MP “é o mundo como conjunto de um universo de interações, e sobre o qual, onde quer que esteja, eu posso agir”.
Um MO “é o mundo em que o eu é prisioneiro do nós, o nós prisioneiro do a gente”. Um MP “é o mundo em que o eu participa livremente do nós, em que o nós é gerador de solidariedade”.
Um MO “é o mundo em que preciso me impor, conquistar um lugar ao sol, encontrar um grupo que me aceite em seu território”. Um MP “é o mundo em que sou aceito em minha singularidade assumida e que me convida a nele exercer um papel”.
Um MO “é o mundo em que me submeto à lei imposta pelos outros”. Um MP “é o mundo em que participo da elaboração da lei”.
Um MO “é o mundo em que a imagem se impõe a mim como opinião normativa”. Um MP “é o mundo em que posso contestar a opinião buscando a minha verdade”.
Um Mo “é o mundo em que a organização é percebida como dependente da ordem das coisas”. Um MP “é o mundo em que a organização é percebida como dependendo da vontade dos homens”.
Um Mo “é o mundo que está unicamente nas mãos das forças econômicas”. Um MP “é o mundo que depende da decisão política, da vontade de todos que se associam livremente e que recusam toda forma de imposição, inclusive a do mercado”.
“A Educação Ambiental, tal como tentei propor, é uma educação para a responsabilidade e para a cidadania planetária, e como tal, ela é o próprio exercício (…) do princípio de responsabilidade em relação ao futuro (…), a pedra de toque de nossa moral coletiva” – finaliza Meirieu.
MEIRIEU, Philippe. Éduquer à l’environnement: pourquoi? comment? – Du monde-objet au monde-projet
http://www.meirieu.com/ARTICLES/MONDE%20OBJET_PROJET-RTF.pdf
P. Meirieu é professor universitário em Ciências da Educação – Lumière-Lyon 2 – França. Responsável pedagógico da cadeia de televisão CAP CANAL. Dirige a coleção “Pédagogies” da ESF editor.
Imagem – http://transnet.ning.com/forum/topics/educacao-ambiental-e-a-onda
Compilação e tradução – Marly Segreto
Ai,ai,ai…que frio está fazendo aqui em Itapeva!…
“Tenho medo de fingir uma fé que não professo. Realizar um rito que não me envolve, que não me devolve, que não me transforma e que por isso não me oferece aos outros.”
(Cartas entre amigos – sobre os medos contemporâneos - Gabriel Chalita e Fabio de Melo, p.210)
Eu também!!!
” O que será capaz de mobilizar as pessoas nos dias de hoje em torno de Belo Monte e outros embates? O que as faz levantar do sofá em razão do próximo, seja ele o vizinho ou o índio do Xingu, seja o questionável processo de licitação de Belo Monte, seja a população economicamente desfavorecida, a natureza toda, o equilíbrio fino da vida? Essa é uma discussão, sobretudo, ética, entendendo ética como costume, jeito de agir, passível de um julgamento sobre o bem e o mal que as ações de um provocam no outro.”
Leia mais em http://pagina22.com.br/index.php/2010/05/love-love-love/
TCris
Marly e Cris,
Que presente este texto!!!!!Penso que o Mundo Objeto nos aprisiona e o Mundo Projeto nos liberta, pois as ações que realizamos tem sentido, no sentido mais amplo de significado,um sentido global, local e pessoal. Creio ser urgente trabalhar com estes conceitos e ajudar as pessoas a compreenderem essa preciosidade que está ao alcance de todos!