Vários autores interessados na questão da formação do humano (R. Barbier, P. Bordieu, D. Bois, I. Gerber, etc.) vêm falando, à sua maneira, de um retorno do sensível, de um despertar para o sensível.
Em nossa vida pessoal e profissional, em atividades voluntárias e nas práticas formativas da Companhia temos percebido o valor, a importância de desenvolver e exercitar especialmente a escuta sensível (como pode ser visto em nosso FAQ).
A cada dia, percebemos o quanto esse escutar-agir, característico da escuta sensível, vai se incorporando em nós.
É claro que somos influenciados pelos esquemas de percepções, representações e ações que nos vêm da família e do grupo sócio-cultural a que pertencemos, e que podem nos levar a um conformismo inconsciente. Também é claro que os papéis e posições que assumimos em diferentes organizações nos impõem obediência à ordem estabelecida por elas, oferecendo em troca uma ilusória estabilidade.
Mas o que isso tem a ver com a escuta sensível? É que na escuta sensível nos recusamos a fixar o outro numa posição, num território, negando-lhe a abertura para outros modos de existência. Ela supõe uma inversão da atenção. Ao invés de procurar situar o outro em seu território, tratamos de reconhecê-lo em seu ser, em sua qualidade de pessoa complexa dotada de liberdade e de imaginação criativa. Desse modo, podemos aprender a sentir o seu universo afetivo, imaginário e cognitivo, para poder compreender suas atitudes e comportamentos, seus sistemas de idéias e valores, de símbolos e mitos, sua existencialidade interna.
Não é fácil… Pois quem escuta começa por não interpretar, por suspender todo julgamento, buscando sentir e compreender o sentido adicional que se manifesta na situação, e que vai além da fala, deixando-se surpreender pelo outro e pelo desconhecido.
É claro que quem escuta é também composto por sua experiência, sua formação, suas leituras, que poderão ser disponibilizadas quando necessárias, se o outro desejar. Mas não se deve perder de vista que cada experiência é única, não podendo ser reduzida a um modelo qualquer. E também é preciso estar aberto às reformulações, próprias e do outro, pois tudo pode ser retraduzido em função do contexto.
A escuta sensível parece ser, sobretudo, uma experiência meditativa. Mas, não aquela que pode levar a um transe místico, a um êxtase exuberante. E sim, simplesmente, a experiência de estar presente no que acontece, aqui e agora, no menor gesto, na menor atividade. Nela, há uma suspensão não só de toda teoria e conceitualização, mas também de toda representação imaginária do mundo, e inclusive do desejo de fazer algo.
Quando nos encontramos nesse estado meditativo – de presença em si, de esvaziamento e atenção – nossa consciência não está dispersa, nos encontramos em um outro nível de percepção. É por isso que a escuta sensível fica mais fina, mais aprimorada. E passa a ser uma escuta-ação espontânea, atuando até mesmo sem o pensamento. E a ação é imediata, adaptando-se e respondendo muito melhor ao que se apresenta, em benefício de todos.
Fonte: BARBIER, René. “Las nociones-bifurcaciones en la investigación-ación”, em cuadernos Visión Docente Con-Ciencia, Puerto Vallarda: C. E. U. Arkos, Ano VIII, nº 45, nov-dez 2008, p. 05-20.
Marly Segreto

Fico contente que este tema tão caro a nós, da Companhia de Aprendizagem, esteja retornando atualizado com as contribuições de tantos autores . Recentemente li o livro A linguagem do Vivente, de Hélène Trocme-Fabre, publicado em 2009 pela TRIOM, como já tive oportunidades de citar em outras postagens.
De cara, me encantou a citação de Luis Ansa prenunciada na obra: “Antes do diálogo, há a escuta e antes da escuta, há a tolerância.” A tolerância me parece condição indispensável para o sucesso de qualquer gesto humano.
A autora propõe:
“Há mais de um século R.M. Rilke já se perguntava : _ Como é possível que, apesar das invenções e do progresso, apesar da cultura, da religião e do conhecimento do Universo, tenhamos permanecido na superfície da vida?
Atualmente, parece que chegamos ao limiar de um novo conhecimento sobre o vivente. Se quisermos, podemos iniciar uma exploração mais ampla das condições nas quais o vivente evoluiu, tornou-se presente em seu ambiente, presente em si mesmo e nos Outros. Temos meios para que nossa língua cotidiana “a que usamos para dizer as coisas da vida, a cada instante”, traduza o vivente sem trai-lo. Aceder a uma cognição viva deveria permitir uma dimensão ecológica da língua que usamos todos os dias. Mudar as palavras é mudar as coisas, dizia o sociólogo Pierre Bordieu. E´ o que vamos propor.” (Rumo a uma ecologia da língua cotidiana – p.29)
A linguagem do vivente é um livro que, sobretudo, trata de gestos – a palavra como gesto que escolhemos ter. Como disse Gandhi, nossos gestos do cotidiano devem ser poéticos… Me apraz pensar na escuta sensível como um gesto que podemos escolher no exercício da liberdade humana.
TCris
“Ela foi embora, de maiÔ, andando ao longo da piscina e quando já tnha ultrapassado o professor de natação…,virou a cabeça para ele, sorriu, e fez um gesto com a mão…Esse sorriso, esse gesto, eram de uma mulher de vinte anos! ( a senhora poderia ter sessenta, sessenta e cinco). Esse sorriso e esse gesto eram cheios de encanto, enquanto que o rosto e o corpo não o eram mais… Por uma certa parte de nós mesmos, vivemos todos além do tempo… no espaço de um segundo, uma essência de seu encanto, que não dependia do tempo, revelava-se e me encantava. Milan Kundera, A mortalidade 1990.
Abraços a todos
Marcia