CARTOGRAFIAS
CARTAS VIAJANTES CARTOGRAFIAS

“… toda viagem destina-se a ultrapassar fronteiras, tanto dissolvendo-as como recriando-as. Ao mesmo tempo em que demarca diferenças, singularidades ou alteridades, demarca semelhanças, continuidades, ressonâncias. Tanto singulariza como universaliza… Sob vários aspectos, a viagem desvenda alteridades, recria identidades e descortina pluralidades.” (1)
“O homem que viaja geralmente opera segundo linhas geográficas, dedicando-se a espacializar, a ampliar cada vez mais os horizontes. Vistas como processo de desenraizamento, construção de uma nova cartografia e circulação intermitente, as viagens constituem os sujeitos. Duas figurações nelas se destacam: o viajante e o estrangeiro, duas faces de uma só moeda: sujeitos que se deslocam, que mudam de lugar, de paisagens. (2)
“… o viajante se desenraíza, solta, liberta. Pode lançar-se pelos caminhos e pela imaginação, atravessar fronteiras e dissolver barreiras, inventar diferenças e imaginar similaridades. A sua imaginação voa longe, defronta-se com o desconhecido, que pode ser exótico, surpreendente, maravilhoso, ou insólito, absurdo, terrificante, tanto se perde como se encontra, ao mesmo tempo se reafirma e modifica. No curso da viagem há sempre alguma transfiguração, de tal modo que aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa”. (1)
Foi Deleuze que introduziu a idéia da cartografia como uma prática do conhecer, referindo-se ao traçado de mapas processuais de um território existencial. O território pode ser tanto o espaço vivido, como um sistema no qual o viajante se sente “em casa”. Mas o território pode se desterritorializar, abrir-se em linhas de fuga, mudar o seu curso.
Então, o cartógrafo tem que estar aberto ao que acontece, agenciando-se, experimentando, atento aos movimentos e às necessidades que surgem, estabelecendo a conexão viajante-mundo, no presente. A cartografia é um método em processo de criação, que se inventa enquanto caminha. Não se trata de desenhar um mapa fixo ou histórico, mas de perceber as relações, as forças em movimento, enquanto acontecem. E de perceber as forças que constituem e desfazem as formas subjetivas, continuamente em formação. O desafio do cartógrafo será sempre o de entrar pela forma e direcionar-se para as forças que a constituem, algo parecido com o processo de criação na arte.
Imagem: NORRIN ROAD
(1) IANNI. Revista de Cultura Vozes, p. 3 e 19
(2) OLIVEIRA. De viagens e de viajantes, p. 12
Marly Segreto
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3 respostas para “ CARTOGRAFIAS ”
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Agradecemos a Norrin Road, companheiro de aprendizagem que vem, desde 2004, enriquecendo nosso imaginário com seus trabalhos.
Pois é….lendo esta postagem sobre cartografias, me lembrei de um trecho que o Amancio Friaça resgatou no material que disponibilizou da sua palestra sobre Astrobiologia( www.cetrans.com.br/curso em Diálogos TRansD 2010):
“Não sinto loucura no desejo de morder estrelas, mas ainda existe a terra. É porque a primeira verdade está na terra e no corpo. Se o brilho das estrelas dói em mim, se é possível essa comunicação distante, é que alguma coisa semelhante a uma estrela tremula dentro de mim.”
(Clarice Lispector, Perto do Coração Selvagem)
E não é?
TCris
Vale ressaltar que essa idéia da cartografia como prática do conhecer pode ser vista como uma outra maneira de formular a proposta de experiência a priori e método a posteriori, de Edgar Morin, adotada na Companhia de Aprendizagem.