Arquivos diários: abril 21st, 2010

Data: 2010.04.21 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 3

CARTAS VIAJANTES CARTOGRAFIAS

Norrin RoadCartas

“… toda viagem destina-se a ultrapassar fronteiras, tanto dissolvendo-as como recriando-as. Ao mesmo tempo em que demarca diferenças, singularidades ou alteridades, demarca semelhanças, continuidades, ressonâncias. Tanto singulariza como universaliza… Sob vários aspectos, a viagem desvenda alteridades, recria identidades e descortina pluralidades.” (1)

“O homem que viaja geralmente opera segundo linhas geográficas, dedicando-se a espacializar, a ampliar cada vez mais os horizontes. Vistas como processo de desenraizamento, construção de uma nova cartografia e circulação intermitente, as viagens constituem os sujeitos. Duas figurações nelas se destacam: o viajante e o estrangeiro, duas faces de uma só moeda: sujeitos que se deslocam, que mudam de lugar, de paisagens. (2)

“… o viajante se desenraíza, solta, liberta. Pode lançar-se pelos caminhos e pela imaginação, atravessar fronteiras e dissolver barreiras, inventar diferenças e imaginar similaridades. A sua imaginação voa longe, defronta-se com o desconhecido, que pode ser exótico, surpreendente, maravilhoso, ou insólito, absurdo, terrificante, tanto se perde como se encontra, ao mesmo tempo se reafirma e modifica. No curso da viagem há sempre alguma transfiguração, de tal modo que aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa”. (1)

Foi Deleuze que introduziu a idéia da cartografia como uma prática do conhecer, referindo-se ao traçado de mapas processuais de um território existencial. O território pode ser tanto o espaço vivido, como um sistema no qual o viajante se sente “em casa”. Mas o território pode se desterritorializar, abrir-se em linhas de fuga, mudar o seu curso.

Então, o cartógrafo tem que estar aberto ao que acontece, agenciando-se, experimentando, atento aos movimentos e às necessidades que surgem, estabelecendo a conexão viajante-mundo, no presente. A cartografia é um método em processo de criação, que se inventa enquanto caminha. Não se trata de desenhar um mapa fixo ou histórico, mas de perceber as relações, as forças em movimento, enquanto acontecem. E de perceber as forças que constituem e desfazem as formas subjetivas, continuamente em formação. O desafio do cartógrafo será sempre o de entrar pela forma e direcionar-se para as forças que a constituem, algo parecido com o processo de criação na arte.

Imagem: NORRIN ROAD

(1) IANNI. Revista de Cultura Vozes, p. 3 e 19

(2) OLIVEIRA. De viagens e de viajantes, p. 12

Marly Segreto