Arquivos mensais: abril, 2010

Data: 2010.04.27 | Categoria: Oficina Ponto de Apoio, Projetos 2010 | Comentário: 1

Pois é. Estamos no segundo encontro mensal (Abril), com a segunda turma da Oficina Ponto de Apoio.

Esta turma hoje melhorou muito o índice de participação em relação ao primeiro encontro. Dela participou a diretora da Casa Transitória, que no primeiro encontro pareceu inibir os demais participantes. Mas hoje, um diálogo mais franco e aberto pareceu suscitar que algumas feridas profissionais do ambiente se revelassem.

Há uma certa angústia/alívio quando as feridas se expõem…o paradoxo se reapresenta.

Falamos sobre a responsabilidades que temos e que costumamos “tercerizar” para outros; lemos um texto sobre e depois cada participante escolheu um trecho significativo para comentar – observei que já melhorou um pouco o movimento da escuta do outro, e desta vez todos leram, o que não ocorreu antes.

Os dois trechos mais citados do texto foram:

“Importante pensar com maturidade a esse respeito, pois somente admitindo que somos senhores da nossa vida e do nosso destino, deixaremos de encontrar desculpas, e faremos a nossa parte.”

“A felicidade é construção diária e depende do que consideramos o que seja ser feliz. Se admitimos que a felicidade é uma forma de viver, basta aprender a arte de bem-viver.”

Também fizemos uma dinâmica onde três grupos se formaram em torno das palavras Reduzir, Reutilizar e Reciclar (lema emprestado da SABESP); esta dinâmica está sendo aplicada em todos os eventos do Centro de Educação Ambiental que nos hospeda. Cada grupo discutiu o que poderia ser reduzido, reciclado e reutilizado no ambiente de trabalho deles.

www.sxc.hu//208836 broken egg Houve uma bom grau de convergência entre estes indicadores, o que vai naturalmente nos conduzindo para algumas temáticas que emergem do contexto deles.

Em vários momentos pontuei a responsabilidade deles como formadores das crianças e isso pareceu ser uma revelação para alguns; disseram que só se viam como funcionários (publicos e da Casa Transitória). Faz parte do processo de Autoformação reconhecer-se como sujeito que se forma em processo de autos, hetero e eco-formação, e no caso, em co-formação. Talvez possamos chegar em algum momento ao uso consciente desta terminologia.

Neste exercicio de hoje resgatei vivencialmente uma citação feita no artigo do Ignacio Gerber e que tem a ver com meu processo de busca de sentido:

“A nós interessa a atividade de fazer sentido, deixando de lado a suposição de significados depositados em alguma parte, sedimentados, disponíveis e decifráveis. A ênfase é no processo de ir fazendo sentido, um processo eminentemente criativo. Quando o sentido se cristaliza ou é recebido ou tomado de forma cristalizada, o processo se interrompe e a criatividade se estiola.”[1]

[1] Figueiredo, L.C. “A questão do sentido, a intersubjetividade e as teorias das relações de objeto”, In Revista Brasileira de Psicanálise, Vol. 39, 2006, p. 79-88

E´isto que estou buscando no meu fazer – que o sentido para mim se apresente como um fazer sentido com o que está sendo feito pelo e com o Outro. E que isso nos construa, a cada um na medida do seu próprio ser.

TCris

Data: 2010.04.21 | Categoria: Agenciamento, Diálogos, Trans | Comentário: 3

CARTAS VIAJANTES CARTOGRAFIAS

Norrin RoadCartas

“… toda viagem destina-se a ultrapassar fronteiras, tanto dissolvendo-as como recriando-as. Ao mesmo tempo em que demarca diferenças, singularidades ou alteridades, demarca semelhanças, continuidades, ressonâncias. Tanto singulariza como universaliza… Sob vários aspectos, a viagem desvenda alteridades, recria identidades e descortina pluralidades.” (1)

“O homem que viaja geralmente opera segundo linhas geográficas, dedicando-se a espacializar, a ampliar cada vez mais os horizontes. Vistas como processo de desenraizamento, construção de uma nova cartografia e circulação intermitente, as viagens constituem os sujeitos. Duas figurações nelas se destacam: o viajante e o estrangeiro, duas faces de uma só moeda: sujeitos que se deslocam, que mudam de lugar, de paisagens. (2)

“… o viajante se desenraíza, solta, liberta. Pode lançar-se pelos caminhos e pela imaginação, atravessar fronteiras e dissolver barreiras, inventar diferenças e imaginar similaridades. A sua imaginação voa longe, defronta-se com o desconhecido, que pode ser exótico, surpreendente, maravilhoso, ou insólito, absurdo, terrificante, tanto se perde como se encontra, ao mesmo tempo se reafirma e modifica. No curso da viagem há sempre alguma transfiguração, de tal modo que aquele que parte não é nunca o mesmo que regressa”. (1)

Foi Deleuze que introduziu a idéia da cartografia como uma prática do conhecer, referindo-se ao traçado de mapas processuais de um território existencial. O território pode ser tanto o espaço vivido, como um sistema no qual o viajante se sente “em casa”. Mas o território pode se desterritorializar, abrir-se em linhas de fuga, mudar o seu curso.

Então, o cartógrafo tem que estar aberto ao que acontece, agenciando-se, experimentando, atento aos movimentos e às necessidades que surgem, estabelecendo a conexão viajante-mundo, no presente. A cartografia é um método em processo de criação, que se inventa enquanto caminha. Não se trata de desenhar um mapa fixo ou histórico, mas de perceber as relações, as forças em movimento, enquanto acontecem. E de perceber as forças que constituem e desfazem as formas subjetivas, continuamente em formação. O desafio do cartógrafo será sempre o de entrar pela forma e direcionar-se para as forças que a constituem, algo parecido com o processo de criação na arte.

Imagem: NORRIN ROAD

(1) IANNI. Revista de Cultura Vozes, p. 3 e 19

(2) OLIVEIRA. De viagens e de viajantes, p. 12

Marly Segreto

Data: 2010.04.20 | Categoria: Notícias, Trans | Comentário: 0

UA Comunidade CETRANS

Nossa companheira Adriana Caccuri apresentará alguns enfoques de sua dissertação de Mestrado MULTIPLICIDADES. A partir de sua pesquisa sobre a investigação da aplicabilidade do conceito de Multiplicidade, de Deleuze e Guattari, especificamente a da figura 3: livro rizoma, ela elaborou um livro-objeto de arte em suas variações, onde procurou soluções para o desenho e para o discurso.

Se você é interessado em Arte, Design ou processos de criação está convidado a assistir este projeto de vanguarda e abordagem transdisciplinar.

Data: 2010.04.09 | Categoria: Diálogos - PONTO EM QUESTÃO, Trans | Comentário: 3

“A CONTRADIÇÃO É A TEXTURA DO UNIVERSO”

    stephanelupasco Essa é a idéia central do pensamento de Lupasco, diz Basarab Nicolescu, ao falar dos impactos da filosofia do 3º incluído de Stéphane Lupasco (1900-1988) na entrevista feita por JL ML para Ouvertures, por ocasião do colóquio internacional “À la confluence de deux cultures: Lupasco aujourd’hui” [Na confluência de duas culturas: Lupasco hoje], realizado em 24 de março de 2010.

    Destacamos algumas respostas dadas por Nicolescu nessa entrevista:

    (…) Tudo o que está no mundo, e não somente o que está em nosso pensamento ou em nossas proposições, resulta de uma tensão entre os contraditórios.

    (…) O mundo não é uma unidade fusional e harmoniosa de tipo Parmênides, mas uma unidade de tipo Heráclito, na qual a tensão é constitutiva das coisas. Há sempre um terceiro (o terceiro incluído) entre as coisas e eventos opostos que permite considerá-los simultaneamente, mesmo que eles sejam inconciliáveis (salvo, é o que acrescento pessoalmente, em outros níveis de realidade). Um exemplo célebre é a dualidade onda-corpúsculo, que é um dos fundamentos da mecânica quântica…

    (…) A mecânica quântica não utiliza esse termo [3º incluído]: ela parte do “princípio de superposição”. Muitos homens de ciência admitem essa realidade provada sem poder verdadeiramente representá-la. Na física clássica, há ou sim, ou não; ou um elétron vai para a direita, ou para a esquerda, não os dois ao mesmo tempo. Em mecânica quântica, sim e não devem ser pensados juntos.

    O que os cientistas tiveram dificuldade em aceitar foi a ampliação dessa estranha constatação aos níveis da psicologia, da história, da política ou da sociedade.

    Um pensador como Edgar Morin, com sua teoria da complexidade, apreendeu bem a dimensão do pensamento de Lupasco, que coloca a contradição no centro das coisas.

    Ele oferece alguns exemplos concretos de aplicação do 3º incluído:

    (…) no universo social, a questão dos conflitos que nos perturbam, seja no meio escolar ou no plano político-religioso. A mediação é a busca desse terceiro a ser incluído entre dois pensamentos que se opõem para se ter acesso a um outro nível de realidade em que o compromisso seja possível.

    (…) em política, pode-se fazer viver o terceiro incluído: o que é de interesse da nação, por exemplo, pode favorecer a ultrapassagem das convicções partidárias. Ou a feminilização dos postos de alta responsabilidade.

    Ele utiliza a palavra “feminilização” no sentido metafórico e simbólico, e não no sentido de gênero, mas da abertura (em todos!) para os valores geralmente sustentados pelas mulheres.

    Lembrando o sketch de Raymond Devos – em que um homem tenta a todo custo separar a duas extremidades de um bastão cortando-o várias vezes – ele diz: Entre as duas extremidades, haverá sempre o terceiro, infinitamente incluído.

    O 3º incluído também pode ser pensado na estética, na arte em geral e na espiritualidade. Mas não numa espiritualidade atrelada às religiões: trata-se de uma espiritualidade laica, livre em sua busca do terceiro incluído entre mim e o mundo, e que pode nos reconciliar. (…) uma espiritualidade sem dogma.

    Esse pensamento, que é complexo, poderia ser ensinado de modo simples?

    Sim, isso é feito mesmo sem saber, com os contos de fadas ou com os oxímoros, nos quais os opostos aparecem juntos. As crianças aceitam isso sem nenhum problema. Elas não têm o espírito esclerosado pelo pensamento binário, que é um pensamento de exclusão. Efetivamente, quando se exclui o outro, não se exclui somente o outro exterior, mas também o outro que está dentro de nós e o terceiro que faz a ponte entre o outro e nós.

      basarabBasarab Nicolescu é Físico, presidente-fundador do Centre International de Recherches et Études Transdisciplinaires (CIRET) e co-fundador do Groupe de Réflexion sur la Transdisciplinarité junto à UNESCO.

      Tradução: Marly Segreto

Data: 2010.04.09 | Categoria: Companheiros de Aprendizagem, Notícias, Trans | Comentário: 0

Estendemos este convite a todos os Companheiros de Aprendizagem!

Gialógos TRANSD  Amancio Friaca

Sobre o Tema

A Vida no Universo: A Astrobiologia, Geradora de Transdisciplinaridade

A astrobiologia é um novo campo de conhecimento que trata da origem, distribuição e futuro da vida no Universo. Ela ganha rapidamente a atenção dos cientistas e do público. O apelo da astrobiologia é devido às questões fundamentais colocas: o que é a vida? Como surgiu a vida? Estamos sós no Universo? Qual será o futuro da vida na Terra e além? A astrobiologia já nasce como um empreendimento transdisciplinar, ao criar um ambiente de indagação com pesquisadores originários de vários campos do saber. Ela tem uma capacidade prodigiosa de integrar várias ciências, graças às suas questões profundas, que ignoram fronteiras disciplinares.

Sobre o Palestrante Amâncio Friaça

Astrofisico, professor associado do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. Pesquisador nas áreas de Cosmologia, Astrobiologia e Transdisciplinaridade. Organizador e co-autor do livro “Astronomia: uma visão do Universo”, pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti – 2001 na categoria “Melhor Livro de Ciências Exatas, Tecnologia e Informática.”. Organizador e co-autor do livro “Educação e Transdisciplinaridade”. Organizador de várias escolas e congressos científicos, entre eles o “First Brazilian Workshop on Astrobiology e a “XV IAG/USP Advanced School on Astrophysics “From Galaxy to Life”.