Um simples detalhe – sem importância aparente em meio à intensa e rica variedade de experiências vividas no II Encontro de Membros do CETRANS – teimou em voltar à minha mente numa nítida imagem: na porta de entrada do Celeiro, local designado para nossas reflexões sobre o 3º incluído e o Sagrado, via-se chinelos e pantufas, de diferentes formas e cores, espalhados pelo chão como um convite-pedido para deixarmos nossos sapatos do lado de fora.
Não houve estranhamento, mesmo não sendo um costume ocidental, pois essa prática já vem sendo encontrada em vários espaços, geralmente terapêuticos e/ou dedicados a práticas meditativas e espirituais orientais.
Mas então por que essa imagem ficou tão presente? O que esse simples gesto de descalçar os sapatos para entrar no recinto estava querendo dizer?
Comecei a lembrar das diferentes acepções simbólicas dos sapatos, que poderiam clarear o sentido do que trazemos em nossos sapatos e do que é deixado de fora quando os descalçamos.
Por um lado, o uso dos sapatos tem uma função a ser reconhecida em nossa relação com os outros e com o mundo:
Protegendo os pés na caminhada, os sapatos podem ser associados ao viajante, em sua marcha por caminhos pedregosos e espinhosos, sendo necessários para que ele alcance a sua meta com a convicção de ter os meios para prosseguir em seu caminho. Sendo a parte do vestuário que está mais próxima ao chão, os sapatos estão ligados à nossa base de sustentação material e à nossa relação com a realidade física, psíquica e sócio-cultural. Podemos sentir que estamos “bem calçados” em certas dimensões e “mal calçados” em outras.
É interessante notar a vinculação do sapato a uma prova de identidade, como no conto Cinderela: ela é reconhecida pelo príncipe porque o sapatinho de cristal perdido no baile coube em seu pé. Havia também uma prática antiga em que se entregava um pé de sapato ao outro como garantia de um acordo ou de uma dívida, sendo um sinal de compromisso.
Mas os sapatos também podem indicar uma relação de poder, seja como afirmação egocêntrica, seja pela posição sócio-econômica. Na antiguidade, somente os escravos andavam descalços e o uso dos sapatos mostrava a condição de liberto, de cidadão. Parece que atualmente isso não mudou muito, pois os descalçados, ou mal calçados, ainda são considerados inferiores, sendo “pisados pelas botas dos poderosos”. Quanto mal pode fazer o uso de uma concepção dos sapatos no sentido da separação!
Por outro lado, há uma situação especial em que os sapatos são vistos como algo a ser removido:
“Tira os sapatos dos teus pés porque o lugar onde estás é terra santa” (Ex 3.5). Para o Antigo Testamento, Budismo, Islamismo, etc., a sola dos sapatos traz a sujeira e a impureza, que devem ser deixadas de fora ao se adentrar o templo. Bem mais do que uma medida higiênica, trata-se de uma atitude de respeito, reverência e receptividade diante do Sagrado. Descalçar os sapatos em termos iniciáticos significa um esvaziamento mental e emocional, deixando lá fora as questões existenciais cotidianas, e, nesse despojamento, poder constituir a taça vazia, aberta à revelação.
Mas estávamos no Celeiro (lugar de armazenamento de grãos, de provisões) e não num templo, mesmo que ele contivesse vários objetos rituais e o Sagrado fosse um dos temas em pauta. Não estou querendo dizer que o Sagrado não pudesse estar presente, e sim que podemos ter atitudes diferentes quando estamos num templo (espaço sagrado) e quando estamos em outro espaço (profano). Não é esta a separação maior que buscamos reunir, religar? Para isso, é de fundamental importância aprender a localizar o nível de realidade em que nos encontramos quando nos dirigimos uns aos outros, sem esquecer que o 3º incluído está estreitamente ligado aos níveis de realidade. Grande desafio! Creio que uma atitude de humildade, afetividade (afetando e se deixando afetar) e amorosidade diante das nossas inevitáveis contradições pode ser de grande auxílio nesse propósito.
Lembrei-me, então, do artigo Os sete sapatos sujos de Mia Couto, escritor moçambicano, em que ele procura responder à questão: O que nos separa do futuro que queremos? Diz ele:
(…) Estamos todos nós estreando um combate interno para domesticar os nossos antigos fantasmas. Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico.
1. a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas
2. a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho
3. o preconceito de que quem critica é um inimigo
4. a ideia que mudar as palavras muda a realidade
5. a vergonha de ser pobre e o culto das aparências
6. a passividade perante a injustiça
7. a ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros
Ele termina dizendo:
(…) Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós. (…) É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os setes mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva. Porque a verdade é uma: antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.
Quantos sapatos ainda teremos que descalçar?
Foto: encontrada na Internet, desconheço o autor.
Marly Segreto

Querida Marly,
Quando achei que nada mais poderia ser dito sobre nosso encontro, você tirou “os sapatos do fundo do baú” e demonstrou que a riqueza que vamos descortinando dessa vivência para ser infinita. Quanto mais o tempo passa, o que seria de se supor que a vivência poderia ir se tornando distância, algo novo acontece e alguém traz uma nova fala, uma nova percepção… Bem, adorei sua reflexão sobre como o desnudar dos pés reflete o desnudar do espírito. Muito obrigado.
Luiz:
Suas palavras “…o que seria de se supor que a vivência poderia ir se tornando distância, algo novo acontece e alguém traz uma nova fala, uma nova percepção…” realça um sentimento que compartilho.Obrigada !
E depois de ler na íntegra o artigo referenciado do Mia Couto, descubro que para ele (no contexto que o artigo analisa) e para nós, que lemos esta postagem agenciada pela Marly, permanece a questão formativa (levantada pela Hélène e já trazida em postagem anterior) que tem me mobilizado, especialmente, desde o Encontro:
- Que meios escolher para permanecermos vigilantes sem nos desencorajar para receber este presente da vida que é a lucidez?
Abraço,
TCris
Gracias Luiz! Essa é a vantagem dos processos co-formativos: os diferentes olhares vão ampliando o nosso olhar, iluminando os pontos cegos, mostrando outras possibilidades de abordagem daquilo que foi vivido.
Aproximação e distanciamento me parecem movimentos necessários para uma abertura receptiva ao que foi, o que é e o que está por vir.
Sim Cris, a questão formativa permeia tudo isso. Sinto que é justamente essa mobilização interior que nos impulsiona para encontrar os meios e o encorajamento necessário, pois a lucidez nos faz, muitas vezes, caminhar no contra-fluxo, “desafinar o coro dos contentes”, como dizia Jards Macalé.
Abraço
Marly
Não sei se posso comentar.
Mas li o assunto e achei muito significante o descalçar.
Lembrei q no batismo simbolico do cristo por joão batista, ele fala sobre não ser digno de desatar as sandálias de jesus. Desatar os pés realmente é o desembaraçar-se da materia…e a referencia dos 7 sapatos lembra dos sete metais ( sete demonios que foram retirados de madalena).Metais do chumbo da ignorancia, do ferro ( a ira), do cobre , do mercurio da auto ilusão, a prata do orgulho, o ouro da ostentação….despir esses calços que estão em nosso sangue, transmutar os metais na alquimia do coração.