Tenho partilhado algumas trocas com pessoas que participaram do II Encontro de Membros, com textos que dialogam com o que lá vivenciamos, com experiências cotidianas que vão discernindo, aprofudando, multiplicando, o material cognitivo e os processos lá potencializados – os agradáveis e os não, mas todos valiosos e necessários.
Neste processo de cognição viva, como diz Hélène, no seu livro A linguagem do vivente, trago para cá algumas questões que ela levanta quando escreve sobre as leis do Vivente, e que para mim soaram como ecos do Encontro:
- Como reconhecer o sentido do sagrado, sem intermediários, ou seja, indo lá onde ele se encontra a cada instante?

- Como aceitar o mistério do vivente e renunciar a utilizar “próteses” para escapar aos medos que não ousamos nomear?
- Que meios escolher para permanecermos vigilantes sem nos desencorajar para receber este presente da vida que é a lucidez?
- Como se afastar do desejo de controlar, como entrar em relação de reciprocidade e se engajar numa participação responsável? “
A linguagem do Vivente – uma voz, uma via adormecida?
Hélène Trocme-Fabre, TRIOM, 2009.
TCris
um dia estarei apenas aqui
com minhas harmonias insuficientes
e meu sagrado sem emoção nem ritual
vou cantar aquela melodia que só eu sei
e nem sei
vou vivendo o que me resta, a rua
a cidade, o mar, as águas batendo
e quando não tiver saída
vou gritar como se tivesse visto o demônio do espelho
(e a luz se fez)
Luciano:
…para receber este presente da vida, que é a lucidez (que o espelho nos devolve…). O metáfora do espelho sempre me lembra a lucidez de Clarice.
Abraço
TCris
que mistérios tem clarice…
bem, entre tantos fenômenos luminosos que associamos a estados mentais, talvez caiba lembrar um outro, que também viaja pelo espelho, e também é presente da vida (vigilantes ou não…), a ilusão………
talvez até por saber disso, nos últimos livros Clarice escrevia menos ‘fatos’ do que impressões… menos ‘personagens’ do que vozes…
bjs, Luciano
mmm… agora fiquei na dúvida se a raiz etimológica de ilusão viria de ‘luz’ ou de ‘jogo’, ou talvez jogo de luzes…
Bem, de todo modo vale o referente a ‘engano de percepção’ em contraponto à lucidez.
Acompanhando o diálogo de vcs, eu me lembrei de um pequeno trecho de “Justine”, o 1º livro da tetralogia “Quarteto de Alexandria” de Lawrence Durrell, que abriu meus olhos:
“Revejo-a na modista diante dos grandes espelhos múltiplos, dizendo: – Olha! Cinco imagens diferentes da mesma pessoa. Se eu fosse escritor tentaria descrever uma personagem assim, através de uma espécie de visão prismática. Porque será que não podemos ver mais de um perfil de uma só vez?”
sim…
e me lembro também de ‘As Ondas’, da Virginia Woolf, onde seis personagens narram histórias que se entrecruzam, sempre em primeira pessoa, e o conjunto permeado por descrições da natureza e das ondas quebrando na praia ao longo de um dia…
sim…
quando prescindimos de morder o fruto… o símbolo se abre, e a vida flui como terá fluido da primeira vez, e de novo, de novo… e contemplar assume o lugar do saber. Entretanto, a quem fosse capaz de só contemplar chamamos ‘bobo’, e ‘mago’ a aquele que escolhe o caminho.
Pode o saber/sabor se alojar, sem ser mordido, entre o contemplar e o agir?
Luciano:
Gostei muitíssimo desta pérola: ” … o símbolo se abre, e a vida flui como terá fluido da primeira vez, e de novo, de novo… e contemplar assume o lugar do saber.” Tão difícil entender o lugar de onde se contempla. Obrigada.
oi Cris!
de fato dificílimo, eu diria mesmo inalcançável, na medida em que esse ‘lugar de onde se contempla’ torna-se também contemplado… Creio ser esta uma das faces do sentido do ‘abismo’ inerente ao conhecimento expressa na Cabala, no Gênesis…
Vc assitiu o filme brasileiro Janela da Alma?
http://tinyurl.com/y2zkekk
O Antonio Cicero fala num trecho exatamente sobre esse infinito contemplar do contemplar…
Oi Cris e Luciano:
que maravilha! aquele que contempla pode ser contemplado por um contemplador interno, que contempla a sua contemplação.
Fiquei pensando agora na possível diferença entre observar e contemplar: o observar sendo um movimento mais ativo, de ir ao encontro de algo, e o contemplar mais receptivo, de deixar-se penetrar pelo que se apresenta…
Luciano:
Obrigada pela dica do filme; já ouvi falar dele diversas vezes e agora é mais um motivo para ve-lo.
Apesar de toda complexidade apontada na síntese da Marly, em algum momento, todos nós contemplamos alguma coisa independente de nossa vontade voluntária (talvez o contemplador interno em nós?). Por outro lado, há um caminho que percorremos (também através da Autoformação) que nos religa com este aspecto nosso contemplador e passamos então a estar mais atentos para a possível vivencia deste processo…Será?
O que nos leva à outra das questões propostas pela Helene: ” Como se afastar do desejo de controlar, como entrar em relação de reciprocidade …?”
oi Cris e Marly
bem, sobre o contemplado contemplar contemplador… lembro de um tio meu que dizia: — Os 4 pontos cardeais são 3: NORTE e SUL.
Sobre como entrar em relação de reciprocidade, creio que não há muita receita, já que, incluindo o outro, não determino sozinho. Então deixo aberto.
tum tum tum tum tum tum…..