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Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - Dualidade e não-dualidade

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Ao ler esse artigo de Michelazzo (Ser e Sunyata) despertou minha atenção a questão da dualidade e da não-dualidade, e o que isso poderia significar na dimensão existencial.

A maioria dos conceitos que utilizamos funciona de um modo dual, ou seja, pensamos a nossa experiência, seja ela qual for, em termos de conceitos duais: verdadeiro/falso, virtude/vicio, bem/mal, absoluto/relativo, objetivo/subjetivo, consciente/inconsciente, transcendente/imanente, abstrato/concreto, teoria/prática, belo/feio, força/fraqueza, alegria/tristeza, etc.

Mas nem todas as dualidades originam-se necessariamente das construções do pensamento. Podemos encontrar algumas dualidades existentes na natureza e que são anteriores ao pensamento humano: dia/noite, calor/frio, seco/úmido, macho/fêmea, homem/mulher… Já estando presentes na natureza, não é surpreendente que, para representá-las, utilizemos conceitos duais.

A questão é que a operação do pensamento dual consiste em dividir, opor, fragmentar. Consequentemente, ele acaba separando o que, de fato, está intimamente ligado.

Não é difícil encontrar exemplos do pensamento dual em nossa experiência cotidiana - tão impregnados que estamos por essa forma de pensar: quero/não quero, amo/não amo, posso/não posso, vou/não vou, falo/calo, etc. São movimentos que dependem de julgamentos em relação à situação em que nos encontramos e que, uma vez feitos, nos precipitam numa série de contrariedades, dilaceramentos, saltos de humor que acabam transformando a vida diária numa luta contínua.

Observando melhor o que nos acontece, vamos perceber que podemos, por ex., querer e não querer algo ao mesmo tempo, e que a dificuldade aparece quando essas duas forças contrárias são vistas como opostas e somos invadidos por um sentimento de ambivalência, que pode resultar num impasse, num imobilismo. Essa situação de conflito interno supõe uma escolha, mas se essa escolha excluir o seu contrário acabamos caindo na armadilha do pensamento dual: quero o prazer, sem dor; quero a alegria, sem tristeza… O pensamento dual introduz a divisão e cria a falsa idéia de que podemos ter o “positivo” sem o “negativo”.

No entanto, a Vida é indivisível e a tudo engloba. E não é estática, mas intensamente dinâmica. Se pudéssemos fluir com o movimento vivo da Manifestação não teríamos o sentimento de que a vida é uma luta, e abraçaríamos tanto o “positivo” como o “negativo” como mestres da situação. O que não significa uma resignação, mas uma mudança em nossa maneira de pensar: de dual para não-dual.

Precisamos compreender que não há existência separada. Tudo está ligado no campo do conhecimento, tanto externo como interno, como está estreitamente ligado na Natureza. É o pensamento dual que caminha no sentido inverso: vê a separação, a disjunção, onde as coisas não são separadas nem disjuntas.

O que não significa que devamos descartar as diferenciações, aquilo que é próprio de cada coisa ou situação, e sim distinguir sem separar, considerando o livre transito, a inter-relação entre o singular (parte) e o universal (todo).

Marly Segreto



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2 respostas para “ Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - Dualidade e não-dualidade ”

  1. TCris Março 25th, 2010 11:06

    Pois é….estou lendo o livro ” A linguagem do vivente” da Helene, e aproveitando muito! Pensando nesta reflexão sobre a dualidade postada pela Marly, recuperei um trecho do livro, que me pareceu complementar:

    “Dentre várias tentativas de definição do ser humano, destaco a sua própria capacidade de se questionar. Não quaisquer questões, mas as que se encontram no âmago do vivente. Para viver o ser vivo não cessa de se identificar, explorar, selecionar, classificar, escolher a informação e a matéria a serem trocadas com o seu ambiente. Trata-se de um questionamento mútuo e recíproco.

    Imaginemos que uma pessoa de uma outra cultura nos pergunte:

    _ De onde advém essa onipresença do verbo ter e do desejo de possuir que se manifesta nas línguas ocidentais?

    - Será a marca devastadora do progresso?
    - Será a herança do pensamento binário (ou…,ou…, sujeito versus objeto, isto versus aquilo?)
    - Será a herança das mitologias que alimentaram sua velha história milenar?
    - Será a sua exigência de resultados tangíveis, mensuráveis, que podem ser contabilizados?
    - Será o preço do seu desejo de controlar o mundo?
    - Será a conseqüência do seu medo: medo do vazio, da ruptura, da solidão, do desconhecido, da morte e até mesmo da vida?
    - Sera porque você deixa de lado o sagrado, esquecendo-o no mais simples gesto cotidiano?”

    A linguagem do Vivente – uma voz, uma via adormecida?
    Hélène Trocme-Fabre, TRIOM, 2009

    Uma única questão escolhida dentre estas formuladas nos levará a vários movimentos possíveis…

    TCris

  2. Adriana Abril 8th, 2010 15:04

    As palavras.. a linguagem que utilizamos… o sentido

    Do livro: Shen ou o Instante Criador
    Autor Jean-Marc Eyssalet
    Editora: Griphus Rio de Janeiro 2003
    1.Introdução, pág. XXVIII:

    “As palavras que aprendemos, as das maiorias das línguas atuais, ensinam-nos mais a agir no mundo do que a reconhecê-lo, e o que nos trazem de precisão “instrumental”, exige que paguemos um preço muito alto pela redução de seu poder de “qualificar”, isto é para nós aqui, exploca as qualidades da experiência vivida individual.
    Segue-se um crescente deslocamento entre quem faz um discurso corrente sobre a realidade em que vivemos, relato muito vezes esquemático, normalizador ou ativista, e essa realidade, entremeradas de inúmeras nunças, tanto mais determinantes quanto sutis para para nossa vida, isto é vagas no que dela se pode dizer e extrmadamente precisas no que se poder viver…

    Chega-se assim a um paradoxo de que quanto mais adquirem a precisão que lhes conferem as definições dos diccionários, menos as palavras servem para qualificar as correntes da vida que nos habitam, ou visitam, em função dos momentos. Os Grandes Mestres haviam, sem a menor dúvida, reconhecido implicitamente que dar ao que vivemos um nome deveria ajudar-nos mais a conhecer e tornar tolerável a angústia de viver, do que ocultá-lo e tentar minimizá-lo com formulas impessoais, limitadas e angustiantes, enfim.

    Eles conservavam ao mesmo tempo nas “Grandes Palavras” o halo de imprecisão e o poder de adaptação as diferentes circinstâncias, que participam com a força intuitiva da imagem na função de todo símbolo.”

    2. Sunyata e introdução do conceito de TAO
    Jean-Marc Eyssalet faz a seguinte citação: “… Claude Gregory escreve :

    “ Comparável neste ao de DAO (TAO) em chinês, o sentido da palavra em sânscrito SUNYATA não teria como ser cercado por uma definição, nem encarado de maneira inequívoca. Admitamos por un instante a tradução de SUNYATA por “vazio”, acrescentando que este vazio não é o vazio da abstração, que ele não é nem um no man’s land, tampouco um no mind’s land, que ele não indica nem a negação do ser, nem a significação lógica da negação.

    Assim despojado progressvamente de tudo o que para nós se liga ao vocábulo “vazio”, SUNYATA parece em termos literais, e sem trocadilhos, esvaziar-se de sentido. Um método como esse, pela eliminação sucessiva de caracteres definidores que pudessem auxiliar a compreensão da idéia parecerá no mínimo curioso.

    Avançando mais, e fielmente no espírito do MAHYANA, pode-se apresentar esta afirmação decisiva: nenhum caractere definidor convém a explicação da palavra SUNYATA.

    Empregar esta palavra não seria, então, dizer pura e simplesmente que não se diz nada? É bem isto o que ocorre, numa nuança próxima, contudo, e esta nuança se encontra no âmago da questão: dizer que não se diz nada, isto é, que a palavra preferida não é, no ato de comunicação, provida de referencial, não é a mesma coisa que nada dizer. Querer dizer o inexplicável, o indizível, através de uma palavra que o invoca no meio do discurso, não se confunde com o silêncio suspensivo de ausência, ou esquecimento do ato. Ninguém contestará a dualidade ou a ambiguidade do silêncio.
    Se aceitarmos que o Enunciado da palavra “SUNYATA” invoca o fundo do silêncio no qual se desenrolam as volutas do discurso, e que falta sentido neste fundo de onde brota a inelutável espontaneidade verbal porque ele é justamente o fundo, já teremos lançado um vislumbre de luz sobre a apreensão de SUNYATA.
    Nem ser, nem não ser, “não teria como dizer que ele existe per se ou que ele não existe”. Inseparável de SUNYATA, aparece seu correlativo TATHATA, “dado imediato do real percebido”, irrupção do que chega, agora, tão igualmente irredutível, quanto fundamentalmente ininteligível…
    Os dois termos, longe de repor em questão a existência do mundo, a da realidade presente, deixando desmoronar toda espécie de sentido, de ininteligibilidade, de discurso a seu respeito, entregam-na a sua profundidade obscura, ao fundo mesmo do silêncio.”

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