Arquivo de 10 de Março de 2010
Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - Dualidade e não-dualidade

A maioria dos conceitos que utilizamos funciona de um modo dual, ou seja, pensamos a nossa experiência, seja ela qual for, em termos de conceitos duais: verdadeiro/falso, virtude/vicio, bem/mal, absoluto/relativo, objetivo/subjetivo, consciente/inconsciente, transcendente/imanente, abstrato/concreto, teoria/prática, belo/feio, força/fraqueza, alegria/tristeza, etc.
Mas nem todas as dualidades originam-se necessariamente das construções do pensamento. Podemos encontrar algumas dualidades existentes na natureza e que são anteriores ao pensamento humano: dia/noite, calor/frio, seco/úmido, macho/fêmea, homem/mulher… Já estando presentes na natureza, não é surpreendente que, para representá-las, utilizemos conceitos duais.
A questão é que a operação do pensamento dual consiste em dividir, opor, fragmentar. Consequentemente, ele acaba separando o que, de fato, está intimamente ligado.
Não é difícil encontrar exemplos do pensamento dual em nossa experiência cotidiana - tão impregnados que estamos por essa forma de pensar: quero/não quero, amo/não amo, posso/não posso, vou/não vou, falo/calo, etc. São movimentos que dependem de julgamentos em relação à situação em que nos encontramos e que, uma vez feitos, nos precipitam numa série de contrariedades, dilaceramentos, saltos de humor que acabam transformando a vida diária numa luta contínua.
Observando melhor o que nos acontece, vamos perceber que podemos, por ex., querer e não querer algo ao mesmo tempo, e que a dificuldade aparece quando essas duas forças contrárias são vistas como opostas e somos invadidos por um sentimento de ambivalência, que pode resultar num impasse, num imobilismo. Essa situação de conflito interno supõe uma escolha, mas se essa escolha excluir o seu contrário acabamos caindo na armadilha do pensamento dual: quero o prazer, sem dor; quero a alegria, sem tristeza… O pensamento dual introduz a divisão e cria a falsa idéia de que podemos ter o “positivo” sem o “negativo”.
No entanto, a Vida é indivisível e a tudo engloba. E não é estática, mas intensamente dinâmica. Se pudéssemos fluir com o movimento vivo da Manifestação não teríamos o sentimento de que a vida é uma luta, e abraçaríamos tanto o “positivo” como o “negativo” como mestres da situação. O que não significa uma resignação, mas uma mudança em nossa maneira de pensar: de dual para não-dual.
Precisamos compreender que não há existência separada. Tudo está ligado no campo do conhecimento, tanto externo como interno, como está estreitamente ligado na Natureza. É o pensamento dual que caminha no sentido inverso: vê a separação, a disjunção, onde as coisas não são separadas nem disjuntas.
O que não significa que devamos descartar as diferenciações, aquilo que é próprio de cada coisa ou situação, e sim distinguir sem separar, considerando o livre transito, a inter-relação entre o singular (parte) e o universal (todo).
Marly Segreto
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