Arquivo de Março de 2010
Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - Ecos do II Encontro CETRANS - Descalçar os sapatos
Um simples detalhe - sem importância aparente em meio à intensa e rica variedade de experiências vividas no II Encontro de Membros do CETRANS - teimou em voltar à minha mente numa nítida imagem: na porta de entrada do Celeiro, local designado para nossas reflexões sobre o 3º incluído e o Sagrado, via-se chinelos e pantufas, de diferentes formas e cores, espalhados pelo chão como um convite-pedido para deixarmos nossos sapatos do lado de fora.
Não houve estranhamento, mesmo não sendo um costume ocidental, pois essa prática já vem sendo encontrada em vários espaços, geralmente terapêuticos e/ou dedicados a práticas meditativas e espirituais orientais.
Mas então por que essa imagem ficou tão presente? O que esse simples gesto de descalçar os sapatos para entrar no recinto estava querendo dizer?
Comecei a lembrar das diferentes acepções simbólicas dos sapatos, que poderiam clarear o sentido do que trazemos em nossos sapatos e do que é deixado de fora quando os descalçamos.

Por um lado, o uso dos sapatos tem uma função a ser reconhecida em nossa relação com os outros e com o mundo:
Protegendo os pés na caminhada, os sapatos podem ser associados ao viajante, em sua marcha por caminhos pedregosos e espinhosos, sendo necessários para que ele alcance a sua meta com a convicção de ter os meios para prosseguir em seu caminho. Sendo a parte do vestuário que está mais próxima ao chão, os sapatos estão ligados à nossa base de sustentação material e à nossa relação com a realidade física, psíquica e sócio-cultural. Podemos sentir que estamos “bem calçados” em certas dimensões e “mal calçados” em outras.
É interessante notar a vinculação do sapato a uma prova de identidade, como no conto Cinderela: ela é reconhecida pelo príncipe porque o sapatinho de cristal perdido no baile coube em seu pé. Havia também uma prática antiga em que se entregava um pé de sapato ao outro como garantia de um acordo ou de uma dívida, sendo um sinal de compromisso.
Mas os sapatos também podem indicar uma relação de poder, seja como afirmação egocêntrica, seja pela posição sócio-econômica. Na antiguidade, somente os escravos andavam descalços e o uso dos sapatos mostrava a condição de liberto, de cidadão. Parece que atualmente isso não mudou muito, pois os descalçados, ou mal calçados, ainda são considerados inferiores, sendo “pisados pelas botas dos poderosos”. Quanto mal pode fazer o uso de uma concepção dos sapatos no sentido da separação!
Por outro lado, há uma situação especial em que os sapatos são vistos como algo a ser removido:
“Tira os sapatos dos teus pés porque o lugar onde estás é terra santa” (Ex 3.5). Para o Antigo Testamento, Budismo, Islamismo, etc., a sola dos sapatos traz a sujeira e a impureza, que devem ser deixadas de fora ao se adentrar o templo. Bem mais do que uma medida higiênica, trata-se de uma atitude de respeito, reverência e receptividade diante do Sagrado. Descalçar os sapatos em termos iniciáticos significa um esvaziamento mental e emocional, deixando lá fora as questões existenciais cotidianas, e, nesse despojamento, poder constituir a taça vazia, aberta à revelação.
Mas estávamos no Celeiro (lugar de armazenamento de grãos, de provisões) e não num templo, mesmo que ele contivesse vários objetos rituais e o Sagrado fosse um dos temas em pauta. Não estou querendo dizer que o Sagrado não pudesse estar presente, e sim que podemos ter atitudes diferentes quando estamos num templo (espaço sagrado) e quando estamos em outro espaço (profano). Não é esta a separação maior que buscamos reunir, religar? Para isso, é de fundamental importância aprender a localizar o nível de realidade em que nos encontramos quando nos dirigimos uns aos outros, sem esquecer que o 3º incluído está estreitamente ligado aos níveis de realidade. Grande desafio! Creio que uma atitude de humildade, afetividade (afetando e se deixando afetar) e amorosidade diante das nossas inevitáveis contradições pode ser de grande auxílio nesse propósito.
Lembrei-me, então, do artigo Os sete sapatos sujos de Mia Couto, escritor moçambicano, em que ele procura responder à questão: O que nos separa do futuro que queremos? Diz ele:
(…) Estamos todos nós estreando um combate interno para domesticar os nossos antigos fantasmas. Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico.
1. a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas
2. a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho
3. o preconceito de que quem critica é um inimigo
4. a ideia que mudar as palavras muda a realidade
5. a vergonha de ser pobre e o culto das aparências
6. a passividade perante a injustiça
7. a ideia de que para sermos modernos temos que imitar os outros
Ele termina dizendo:
(…) Mas a força de superarmos a nossa condição histórica também reside dentro de nós. (…) É por isso que vale a pena aceitarmos descalçar não só os setes mas todos os sapatos que atrasam a nossa marcha colectiva. Porque a verdade é uma: antes vale andar descalço do que tropeçar com os sapatos dos outros.
Quantos sapatos ainda teremos que descalçar?
Foto: encontrada na Internet, desconheço o autor.
Marly Segreto
4 comentários »Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - Ecos do II Encontro de Membros
Tenho partilhado algumas trocas com pessoas que participaram do II Encontro de Membros, com textos que dialogam com o que lá vivenciamos, com experiências cotidianas que vão discernindo, aprofudando, multiplicando, o material cognitivo e os processos lá potencializados - os agradáveis e os não, mas todos valiosos e necessários.
Neste processo de cognição viva, como diz Hélène, no seu livro A linguagem do vivente, trago para cá algumas questões que ela levanta quando escreve sobre as leis do Vivente, e que para mim soaram como ecos do Encontro:
- Como reconhecer o sentido do sagrado, sem intermediários, ou seja, indo lá onde ele se encontra a cada instante?

- Como aceitar o mistério do vivente e renunciar a utilizar “próteses” para escapar aos medos que não ousamos nomear?
- Que meios escolher para permanecermos vigilantes sem nos desencorajar para receber este presente da vida que é a lucidez?
- Como se afastar do desejo de controlar, como entrar em relação de reciprocidade e se engajar numa participação responsável? “
A linguagem do Vivente – uma voz, uma via adormecida?
Hélène Trocme-Fabre, TRIOM, 2009.
TCris
12 comentários »Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - O Labirinto
Na Fazenda dos Bambus, o Labirinto.
“Seguir o caminho até o centro da oportunidade de liberar a dor e a negatividade, ligar-se com o divino, meditar e orar.
Entregando-se aos seus atalhos sinuosos ou intrincados a alma encontra cura e inteireza.
Alem do que , fisicamente, muda a orientação do cérebro e clareia a mente.
Entrar no labirinto e fazer o caminho de volta é um processo de iniciação: a simples via quer leva a um centro e para fora de novo , como todos os ciclos da natureza.
Durante séculos uma caminhada meditativa pelos circuitos de um labirinto, permitiu aos verdadeiros “buscadores” , encontrar por trás da enevoada existência física … um vislumbre do mistério da vida…
Caminhar no labirinto pode vir a ser um instrumento de transformação, cura e oração.
Um labirinto é uma metáfora para a sacra jornada de mudança continua, descoberta, movimento e transformação. Um ritual que simboliza uma jornada espiritual.”

De fato este é um lugar com uma dinâmica especial… com uma energia diferente…
Um lugar onde parece que diversos níveis de realidade cohabitam e nos tomam quase que por assalto!
Um lugar onde o detalhe parece ser o foco e onde , de forma magistralmente paradoxal o requinte e a simplicidade se dão as mãos.
Em cada canto um surpresa e em todo o ambiente sempre algo imanente a ser descoberto… Um deles … o Labirinto com a sua tão significativa mensagem…
Aprendi muito! Silêncio e gratidão.
Monica O. Simons
4 comentários »Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - A Fazenda dos Bambus
A Companhia de Aprendizagem esteve presente no II Encontro de Membros do CETRANS realizado na Fazenda dos Bambus, em Pardinho, interior de São Paulo, de 12 a 14 de março corrente.
Foi dinâmica e diversificada nossa programação e muitos foram os belos momentos de trocas e convivência. Não vamos falar de todos os mistérios que a Fazenda dos Bambus preserva, porque mistérios não são contados, revelam-se!
Mas se você quiser conhecer um pouco melhor este cenário de beleza e harmonia, cuja tônica é o cuidado com a Vida em contínua transformação, pode acessar o Canto da Cris e saber mais!
1 comentário »Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - Dualidade e não-dualidade

A maioria dos conceitos que utilizamos funciona de um modo dual, ou seja, pensamos a nossa experiência, seja ela qual for, em termos de conceitos duais: verdadeiro/falso, virtude/vicio, bem/mal, absoluto/relativo, objetivo/subjetivo, consciente/inconsciente, transcendente/imanente, abstrato/concreto, teoria/prática, belo/feio, força/fraqueza, alegria/tristeza, etc.
Mas nem todas as dualidades originam-se necessariamente das construções do pensamento. Podemos encontrar algumas dualidades existentes na natureza e que são anteriores ao pensamento humano: dia/noite, calor/frio, seco/úmido, macho/fêmea, homem/mulher… Já estando presentes na natureza, não é surpreendente que, para representá-las, utilizemos conceitos duais.
A questão é que a operação do pensamento dual consiste em dividir, opor, fragmentar. Consequentemente, ele acaba separando o que, de fato, está intimamente ligado.
Não é difícil encontrar exemplos do pensamento dual em nossa experiência cotidiana - tão impregnados que estamos por essa forma de pensar: quero/não quero, amo/não amo, posso/não posso, vou/não vou, falo/calo, etc. São movimentos que dependem de julgamentos em relação à situação em que nos encontramos e que, uma vez feitos, nos precipitam numa série de contrariedades, dilaceramentos, saltos de humor que acabam transformando a vida diária numa luta contínua.
Observando melhor o que nos acontece, vamos perceber que podemos, por ex., querer e não querer algo ao mesmo tempo, e que a dificuldade aparece quando essas duas forças contrárias são vistas como opostas e somos invadidos por um sentimento de ambivalência, que pode resultar num impasse, num imobilismo. Essa situação de conflito interno supõe uma escolha, mas se essa escolha excluir o seu contrário acabamos caindo na armadilha do pensamento dual: quero o prazer, sem dor; quero a alegria, sem tristeza… O pensamento dual introduz a divisão e cria a falsa idéia de que podemos ter o “positivo” sem o “negativo”.
No entanto, a Vida é indivisível e a tudo engloba. E não é estática, mas intensamente dinâmica. Se pudéssemos fluir com o movimento vivo da Manifestação não teríamos o sentimento de que a vida é uma luta, e abraçaríamos tanto o “positivo” como o “negativo” como mestres da situação. O que não significa uma resignação, mas uma mudança em nossa maneira de pensar: de dual para não-dual.
Precisamos compreender que não há existência separada. Tudo está ligado no campo do conhecimento, tanto externo como interno, como está estreitamente ligado na Natureza. É o pensamento dual que caminha no sentido inverso: vê a separação, a disjunção, onde as coisas não são separadas nem disjuntas.
O que não significa que devamos descartar as diferenciações, aquilo que é próprio de cada coisa ou situação, e sim distinguir sem separar, considerando o livre transito, a inter-relação entre o singular (parte) e o universal (todo).
Marly Segreto
2 comentários »Diálogo em contas - uma homenagem às Maria Metade
“A missanga, todas a vêem.
Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo.”
“Meia culpa, meia própria culpa
(…) Nunca quis. Nem muito, nem parte. Nunca fui eu, nem dona, nem senhora. Sempre fiquei entre o meio e a metade. Nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade. Daí o meu nome: Maria Metade.
Fosse eu invocada por voz de macho. Fosse eu retirada da ausência por desejo de alguém. Me tivesse calhado, ao menos, um homem completo, pessoa acabada. Mas não, me coube a metade de um homem. Se diz, de língua girada: o meu cara-metade. Pois aquele, nem meu, nem cara. E se metade fosse, não seria só a cara, mas todo ele, um semimacho. Para ambos sermos casal, necessitaríamos, enfim, de sermos quatro.
A meu esposo chamavam de Seis. Desde nascença ele nunca ascendeu a pessoa. Em vez de nome lhe puseram um número. O algarismo dizia toda a sua vida: despegava às seis, retornava às seis. Seis irmãos, todos falecidos. Seis empregos, todos perdidos.
E acrescento um segredo: seis amantes, todas actuais. Das poucas vezes que me falou, nunca para
mim olhou. Estou ainda por sentir seus olhos pousarem em mim. Nem quando lhe pedi, em momento de amor: que me desaguasse uma atenção. Ao que retorquiu:
- Tenho mais onde gastar meu tempo.
Engravidei, certa vez. Mas foi semiprenhez. Desconcebi, em meio tempo, meio sonho, meia esperança.
O que eu era: um gasto, um extravio de coisa nenhuma. Depois do aborto, reduzida a ninguém, meu sofrer foi ainda maior. Sendo metade, sofria pelo dobro…”
Homenagem à estas mulheres, na prosa crua, arguta e sensível de Mia Couto.
Meia culpa, meia própria culpa in: Mia Couto. O fio das missangas. Companhia das Letras.
A coluna partida, 1944 - Frida Khalo
1 comentário »OFICINA PONTO DE APOIO
Comunidade de Estudo de Itapeva
PROJETO Voluntariado Verde
OFICINA PONTO DE APOIO

Como um desdobramento da ação da Companhia de Aprendizagem, Teresa Cristina F. Bongiovanni (TCris) e as colaboradoras Ana Maria Pimentel, Maria Claudia Mariozi e Patrícia F. M. Moulatlet realizarão a Oficina Ponto de Apoio, mais uma inciativa voluntária da Comunidade de Estudo de Itapeva - SP.
Público-alvo: Funcionários da Casa Transitória de Itapeva e voluntários
Objetivos:
Local: CEA – Sala Verde - Itapeva - SP
Periodicidade: 01 Reunião mensal, às 3ª. Feiras, para cada uma das 02 turmas que serão organizadas pela direção da Casa Transitória de Itapeva.
Datas: Módulo 1 – março a julho de 2010 / Módulo 2 – agosto a dezembro de 2010
Horário: das 09h às 11h
A Companhia de Aprendizagem apoia esta iniciativa, que certamente beneficiará todos os envolvidos, oferecendo sua colaboração.
Se voce tiver interesse em participar, entre em contato conosco:
companhia@companhiadeaprendizagem.com.br - a/c TCris
4 comentários »Projeto Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - Ser o lugar do meu acontecer
[ do texto Ser e Sunyata]
Na fase inicial de seu pensamento sobre esta questão (profundamente influenciado pela mística de Mestre Eckhart, como nos alerta o texto) “ (…) faz com que Heidegger interprete o pensamento não mais como uma faculdade do homem, mas como uma comunicação, uma co-pertinência com o ser… aprende que a realidade transcendente volta a fazer parte do homem. Tal realidade no entanto, não é interpretada de maneira antropológica – como construída de objetos disponíveis para a representação de um sujeito cognoscente – mas ontologicamente, e isto significa que a maneira como ele participa desta realidade não é a de estar em uma simples relação com ela, mas a de ser o lugar de seu acontecer”( p.96-97) . O texto em estudo aprofunda e analisa o desenvolver desta premissa e até onde Heidegger a trabalhou.
Neste momento, paro aqui e olho para esta proposição em relação ao que tenho observado nos grupos de estudo ou trabalho dos quais participo e que são grupos constituídos – a maior parte – longe dos moldes acadêmicos e bem próximos do segmento dito como educação popular (embora tenham componentes de diversos níveis sócio-economicos).

Como eu vivencio o ser o lugar do meu acontecer?
Como minha ação formativa inclui esta proposição inicial (…) “ a maneira como ele [sujeito] participa desta realidade não é a de estar em uma simples relação com ela, mas a de ser o lugar de seu acontecer”.
Deixo emergir livremente meu diálogo com o texto…e com vocês.
TCris
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