Blog da Companhia de Aprendizagem

Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - Ser e Sunyata

Apenas para situar os Companheiros de Aprendizagem que passam pelo blog , vamos transcrever o parágrafo inicial do artigo Ser e Sunyata: os caminhos ocidental e oriental para a ultrapassagem do caráter objetificante do pensamento de José Carlos Michelazzo *, que será nosso campo de reflexão.

“A exposição propõe-se a apresentar o diálogo Ocidente-Oriente em torno de uma questão de extrema importância não só para o debate acadêmico, mas para cada um de nós, pois afeta a todos os seres humanos. Tal questão se refere à situação em que se encontra a nossa época atual , inteiramente dominada pela razão técnica e instrumental, na qual testemunhamos os fenômenos da hegemonia da técnica e da ciência nos cinco continentes, do cansaço e do esgotamento das forças da natureza, do desmoronamento geral dos valores, característico do niilismo moderno, do vácuo espiritual que tomou conta de nossa existência, além das visões pessimistas da maioria dos especialistas em torno do futuro do nosso planeta.

www.sxc.hu// 1129275 help me

O que será apresentado todavia, não deve ir além dos aspectos mais centrais e significativos, de maneira esquemática, em torno dos quais estariam sendo criadas as condições de possibilidade do diálogo Ocidente-Oriente – respectivamente, Martin Heidegger e os pensadores da Escola de Kyoto, especialmente Keiji Nishitani, considerado um dos mais próximos do filosófo alemão -, dando ênfase especial aos aspectos de maior convergência entre ambos. Deste modo a exposição [o texto] será constituída de três momentos:

Idéias gerais do pensamento de Heidegger e de Nishitani
Heidegger e a questão do Ser
Nishitani e a questão da nadidade (sunyata)

O homem moderno e o fenômeno do niilismo e da técnica moderna
Heidegger e o acabamento da metafísica
Nishitani e as conexões entre ciência e religião

A noção de superação
Esperanças de Heidegger
Esperanças de Nishitani

* Artigo publicado em LOPARIC, Zelico (org.). A escola de Kyoto e o perigo da técnica. São Paulo: DWW, 2009, p.95-122.

Sejam bem-vindos à reflexão e participação!



 | Enviar por e-mail  | Hits para esta publicação: 197

8 respostas para “ Diálogos - PONTO EM QUESTÃO - Ser e Sunyata ”

  1. TCris Fevereiro 15th, 2010 12:50

    Pois é…me lembrei de um texto recolhido há algum tempo atrás, da Rede Brasileira de TransD - http://www.redebrasileiradetransdisciplinaridade.net e que transcrevo abaixo:

    Os Seis princípios de Esperança na Desesperança
    Verbete construído por Eduardo Costa
    RBT – Rede Brasileira de Transdisciplinaridade

    (…) A desesperança nasce da consciência sobre as carências do Homo sapiens/demens e das manifestações históricas do ruído e do furor que,tantas vezes fizeram tábula rasa da razão e do amor. Essa dialógica
    dispõe de seis princípios de esperança na desesperança:

    - Princípio vital: assim como tudo o que vive se auto-regenera numa tensão irredutível para o futuro, também todo o humano regenera a esperança regenerando sua vida. Não é a esperança o que faz viver, é o viver que cria a esperança que permite viver.

    - Princípio do inconcebível: todas as grandes transformações ou criações foram impensáveis antes de ocorrer.

    - Princípio do improvável: todos os acontecimentos felizes da história foram, a priori, improváveis.

    - Princípio da toupeira: que cava suas galerias subterrâneas e transforma o subsolo antes que a superfície se veja afetada.

    - Princípio de salvação: é a consciência do perigo que, segundo Hölderlin, sabe que “onde cresce o perigo, cresce também o que salva”.

    - Princípio antropológico: é a constatação de que Homo sapiens/demens usou até o presente uma pequena porção das possibilidades de seu espírito/cérebro. Isso supõe compreender que a humanidade se encontra longe de ter esgotado suas possibilidades intelectuais, afetivas,
    culturais, civilizacionais, sociais e políticas. Nossa cultura atual corresponde ainda à pré-história do espírito humano e nossa civilização não ultrapassou a idade de ferro planetária.

    Estes princípios não trazem consigo nenhuma segurança, mas não podemos livrar-nos nem da desesperança nem da esperança. A odisséia da humanidade permanece desconhecida, mas a missão da educação planetária não é parte da luta final, e sim da luta inicial pela defesa e pelo devir de nossas finalidades terrestres; a salvaguarda da humanidade e
    o prosseguimento da hominização. (p.111)

    ____________________________
    Morin E, Ciurana E & Motta R 2003. Educar na era planetária – o pensamento complexo como método de aprendizagem pelo erro e incerteza humana Cortez Editora, São Paulo.

  2. Marly Fevereiro 18th, 2010 22:49

    Recebemos um e-mail da Leda com uma pesquisa sobre o tema seguida de seu comentário.

    Transcrevo abaixo alguns trechos da pesquisa feita por ela e agradeço por sua contribuição:

    “Sunyata (substantivo sânscrito do adj. Shunya) - traduzido como Vazio - é a concepção de que todos os objetos são vazios de ‘existência inerente’. Mas é completamente errado pensar o Vazio como sendo o mesmo que Nada, um erro muitas vezes cometido. O Vazio não nega o jogo das aparências que se manifestam a uma multidão de seres sencientes, ele afirma que elas são insubstanciais”.

    Diz o Dalai Lama:

    “Um dos mais importantes insights filosóficos do budismo vem do que é conhecido como a teoria do vazio. (…) é o profundo reconhecimento de que existe uma disparidade fundamental entre o modo como percebemos o mundo, incluindo a nossa própria experiência, e a maneira como as coisas realmente são. Em nossa experiência cotidiana, temos a tendência a nos referir ao mundo e a nós mesmos como se essas entidades possuíssem autocontida, definível, distinta e duradoura realidade. Por exemplo, se examinarmos nossa própria concepção da individualidade, vamos ver que tendemos a acreditar na presença de um núcleo essencial de nosso ser, o que caracteriza a nossa individualidade e identidade como um ego distinto, independente dos elementos físicos e mentais que constituem a nossa existência. A filosofia do vazio revela que esse não é apenas um erro fundamental, mas também a base para a fixação, o apego e o desenvolvimento de nossos inúmeros preconceitos. Segundo a teoria do vazio, qualquer crença em uma realidade objetiva fundada no pressuposto da intrínseca, independente existência é simplesmente insustentável. Todas as coisas e acontecimentos, seja ‘material’, mental ou até mesmo conceitos abstratos como o tempo, são desprovidos de objetiva, independente existência. (…) Na teoria da vacuidade, tudo é demonstrado como sendo meramente composto de dependentes eventos relacionados; de fenômenos interagindo continuamente sem essência fixa, imutável, estando eles próprios numa dinâmica e constante mutação das relações. Assim, coisas e acontecimentos são ‘vazios’ no sentido de que nunca podem possuir qualquer essência imutável, realidade intrínseca ou ‘ser’ absoluto que lhes confira independência”.

    Fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Sunyata.
    __________________________________

    E Leda comenta:

    “Colocando de uma forma mística, de uma visão de escola de mistérios aquariana jessenia, o suniata (conhecido por SUNIAH) é o sono do discípulo que penetrar a região etérea da salinidade do mar morto, onde a eklesia angélica trabalha a alquimia dos que estão ligados a essa corrente discipular.

    Para se chegar a uma condição de DUKA, ou mesmo do NIILISMO existencial, a roda de sansara já fez muitas voltas no microcosmo desse ser.

    É a condição básica para se buscar a verdadeira libertação desse mundo ilusório ou de queda no qual nos encontramos aprisionados.

    O fato da humanidade estar profundamente em depressão existencial é o principio para essa mudança de valores, o qual se denuncia em vários pontos do planeta como catástrofes, absurdos, violências…

    Quando nos identificamos com a vida material, sofremos por ser parte dela e pelo apego que ela inseriu em nosso ser.

    Quando compreendemos o grandioso propósito desse processo de se chegar a DUKA (viver é dor, nascer é dor, morrer é dor e renascer é dor), é que estamos dando os primeiros passos em direção à volta ao reino divino.

    Portanto, temos que entender que a natureza faz seu processo de nascer o sol, e se por o sol…

    Que tristeza há nisso?

    Apenas o movimento aparente do universo modificando nossos sentimentos, por termos uma visão mecânica a partir da terra.

    O senhor é meu pastor e o nada me faltará”.

    leda vasconcelos.

  3. Marly Fevereiro 20th, 2010 00:28

    O que diz o poeta:

    Callar puede ser una música,
    una melodía diferente,
    que se borda con hilos de ausencia
    sobre el revés de un extraño tejido.

    La imaginación es la verdadera historia del mundo.
    La luz presiona hacia abajo.
    La vida se derrama de pronto por un hilo suelto.

    Callar puede ser una música
    o también el vacío,
    ya que hablar es taparlo.

    O callar puede ser tal vez
    la música del vacío.

    (Roberto Juarroz – Poesia Vertical VI )

  4. Marly Fevereiro 20th, 2010 21:58

    Ao ler esse texto, lembrei-me do que costumava dizer um velho amigo:

    “E se um dia, a gente descobrir que o céu que vemos não passa do monumental cenário de uma superprodução da Broadway? Terminado o espetáculo, o manto azul é retirado, os refletores são apagados (e com eles as estrelas), não restando nada, só um negro profundo!”.

    O que não está distante do que diz Franz Kafka em “A Metamorfose”:

    “Mas como seria agora, se todo o sossego, todo o bem-estar, toda a satisfação chegasse assustadoramente ao fim?”.

    Como posso viver com a impossibilidade de total controle sobre a vida, com a incerteza, a incompletude, a impermanência? E como conviver com quem tem tudo sob controle, é cheio de certezas, pronto e acabado, completo e “realizado”, achando que sempre será assim? Contrastes que muitas vezes encontramos em nós mesmos.

    Nossas idéias, conceitos, teorias, palavras são representações, são como “mapas do território” e têm o seu valor prático e explicativo em determinados contextos. Mas não basta conhecer o mapa do Japão e sair dizendo a todos que conhece o Japão! Isso seria confundir o mapa com o território, confundir a realidade com a representação que dela fazemos. Além de que não podemos reduzir a realidade a um só nível, nem negar a existência de outros níveis ou confundi-los. E isso vale tanto para as abordagens ocidentais como orientais.

    “Quão enganado estava eu! Quão enganado! Ergue a tela e vê o mundo!”, disse Chang-Ching por sua tentativa de chegar à Mente através do “mapa” do pensamento.

    Esse niilismo moderno de que fala Michelazzo é decorrente de modelos explicativos (“mapas”, “paradigmas”) que nos foram impostos, no Ocidente, por certas correntes tecnocientíficas (e até mesmo filosófico-religiosas!) que contribuíram para um esquecimento do Ser e para um obscurecimento do real.

    A vulnerabilidade desses modelos nos tornou vulneráveis (parodiando Kafka) e teremos que abrir mão tanto de nossas certezas quanto de nossas ilusões.

    Mas a boa notícia é que as coisas vêm mudando, mesmo que a duras penas.

    “Lá onde há perigo, cresce também o que salva” (Hölderlin).

  5. leda Fevereiro 22nd, 2010 20:19

    “E se um dia, a gente descobrir que o céu que vemos não passa do monumental cenário de uma superprodução da Broadway? Terminado o espetáculo, o manto azul é retirado, os refletores são apagados (e com eles as estrelas), não restando nada, só um negro profundo!”.

    Talvez não seja tão teatral assim… mas com certeza esse firmamento ( Jacob Boheme) ainda é um limite que nos mantem em seus limites.
    Muito profunda a colocação de seu amigo!!!

  6. Heloisa Steffen Fevereiro 26th, 2010 19:29

    Gostaria de expressar minha gratidão pela contribuição daqueles que aqui postaram, pois me encontrei em cada uma das postagens e senti que estas agilizaram meu processo de compreensão acerca do texto em si - Ser e Sunyata - como também acerca de mim mesma, enquanto Ser. Trago aqui alguns trechos que me tocaram profundamente: (…) Na verdade nem a ciência e nem o cristianismo conseguirão chegar aos próprios fundamentos enquanto o homem não passar pela experiência paradigmática de seu renascimento existencial, que surge quando a sua existência mesma se torna problemática, dando ensejo ao aparecimento de uma compreensão mais autêntica do mundo e de si mesma. (p.110). Faço conexões com o trecho “Esperanças de Heidegger” que nos chama a atenção sobre a profunda indigência que o homem experimenta nessa época tecnológica o que, segundo ele, para uma ruptura dessa indigência é demandado um Ereignis, traduzido como um” acontecimento apropriador “… Heidegger traz ainda a questão da eficiência técnica; um pensamento que só consegue “ver” pelo viés da eficiência acaba por negligenciar aquilo que muitas vezes abriga a riqueza e a superabundância do Ser. Tudo muito bem colocado, com grande lucidez…

  7. Amanda Fernandes Março 1st, 2010 12:30

    Gostaria de receber, se possivel, o artigo “Sunyata: os caminhos ocidental e oriental para a ultrapassagem do caráter objetificante do pensamento” de José Carlos Michelazzo na integra. Tendo em vista que sou pesquisadora da relaçao entre o pensamento oriental e ocidental.

    Desde já te agradeço.

  8. Marly Março 2nd, 2010 22:02

    Amanda:

    Agradecemos seu interesse.

    Esse artigo de J. C. Michelazzo pode ser encontrado no livro: LOPARIC, Zelico (org.). A escola de Kyoto e o perigo da técnica. São Paulo: DWW, 2009, p. 95-122, e não foi digitalizado.

    Que tal se vc contribuísse com nosso diálogo a partir do que vem pesquisando?

    Seria ótimo podermos contar com outros pontos de vista sobre o tema.

Deixe uma resposta.