Minha hospitalidade
Seja hospitaleiro.
Quando o forasteiro farto de caminho ponha em teu povoado seu olhar como um corpo sobre os pelegos do recado estendido no campo, espera-o mais além do umbral de tua casa plana e fresca e oferece-lhe tua mão como um pregosto de abrigo.
Porque és senhor de tua casa, trata-o tal como se fosse amo.
Não perguntes quem é.
Talvez em seus braços pese um mal feito, mais difícil de levar pela vida que as arrastadas nazarenas pela varrida terra de teu pátio em que vão fincando sua coroa de espinhos.
Talvez um orgulho demasiadamente grande alargue sua frente sob o chambergo* cuja aba pretenciosa vem desprezando o ar que cria ao seu passo.
Senta-o junto ao fogão, coração de fogo de tua morada tranquila, e dá-lhe um banco forte em que assentar sua fadiga.
Aproxima umas brasas de seus pés para que sequem o barro de suas botas e o calor suba até seus lábios em confiança de confidência.
Deixa-o falar e consinta com tua cortesia suas palavras.
E quando o sono enevoe de vazio seus olhos, então da-lhe teu leito e vigie seu repouso estendido sobre teus pelegos.
Quando se for embora levará consigo o presente de tua irmandade que melhora o homem.
* Chapéu de abas largas.
Ricardo Güiraldes (1886 – 1927)
Poeta, novelista e contista argentino
Tradução livre: Adriana Caccuri
Imagens:
http://www.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/acadLetArg/
http://www.patrimoniosf.gov.ar/browse/db/2/id/16994/page/1/
Adriana Caccuri

E sempre é neste espírito maior de Irmandade que Adriana nos abre as portas de sua(s)Casa(s). Desta vez tivemos que transferir nosso Encontro do Embu para São Paulo, porque chovia demais. E durante tres dias acampamos literalmente no seu apartamento – da cozinha às salas – desterritorializando o seu espaço íntimo e doméstico. Deleuze e Guatarri diriam que foi um movimento de agenciamento que incluiu o Zé Marcos (marido dela), no Contraponto necessário. Foi como uma outra coordenada de tempo…Gratidão.
TCris