Diálogo em Contas - O fio das missangas
Já de antes de janeiro, muita chuva… Meu projeto de ler um livro de literatura a cada inicio de ano, jaz malemolengo à espera. Começo hoje, a ler O fio das missangas, do Mia Couto, que ganhei de presente da Marly; é um livro de contos. Belo!
Mia Couto faz uma síntese de linguagem que irradia poesia - intraduzível em outras palavras, tem um ritmo próprio que combina palavras, períodos, pontuação. Uma morfologia singular; às vezes me lembra Borges, mas é mais visceral, cru.
Eu nunca sei para onde me conduz a leitura - desta vez há um fio…
TCris
“EVELINA: A BORDADEIRA
Na varanda, ia bordando Evelina, a mais nova. Seus olhos eram assim de nascença ou tinham clareado de tanto bordar? Certa vez, ela se riu e foi tão tardio, que se corrigiu como se alma estrangeira à boca lhe tivesse aflorado. Lhe doía se lhe dissessem ser bonita. Mas não diziam. Porque além do pai, só por ali havia as irmãs. E, a essas, era interdito falar de beleza. As irmãs faziam ponto final. Ela, em seu ponto, não tinha fim.
Dizem que bordava aves como se, no tecido, ela transferisse o seu calcado voo. Recurvada, porém, Evelina, nunca olhava o céu. Mas isso não era o pior. Grave era ela nunca ter sido olhada pelo céu.
Às vezes, de intenção, ela se picava. Ficava a ver a gota engravidar no dedo. Depois, quando o vermelho se excedia, escorrediço, ela nem injuriava. Aquele sangue, fora do corpo, era o seu desvairo, o convocar da amorosa mácula.

Em ocasiões, outras, sobre o pano pingavam cristalindas tristezas. Chorava a morte da mãe? Não. Evelina chorava a sua própria morte.”
(As tres irmãs - Mia Couto. O fio das missangas)
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3 respostas para “ Diálogo em Contas - O fio das missangas ”
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“A missanga, todas a vêem.
Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas.
Também assim é a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo.”
Mia Couto. O fio das missangas.
Que beleza!!! Este é o 1º conto do livro - As três irmãs: “Filhas do viúvo Rosaldo que, desde que a mulher falecera, se isolara tanto e tão longe que as moças se esqueceram até do sotaque de outros pensamentos”.
Mia Couto me lembra Guimarães Rosa. Ambos expressam em sua prosa poética um grande amor pela terra, pelo povo e pela cultura daqueles que vivem de modo simples, desvelando uma profundidade de sentimentos que nos toca de maneira indelével.
Cris: a imagem ilustra muito bem o sentido do conto, amei!
“(…) ver a gota engravidar no dedo. (…)sobre o pano pingavam cristalindas tristezas”.
Que mais enquanto perfeitas imagens simbólicas? Me fez lembrar a um trecho da música “Zé da Silva” do Pe. Fabio de Melo que diz: “(…) Misturei meu sangue em outro, quando a dor fez alvoroço, veio a calma da cantiga” …
Sempre me encantou o instante em que uma página em branco ganha identidade por sermos portadores da faisca divina que nos identifica com a Fonte e nos torna tão criativos quanto ela!!!
Cada missanga um conto… cada conto um ponto de reflexão… cada reflexão a aproximação ao que há mais sensível na gente, mesmo naqueles em que a sensibilidade, descuidada, dorme ou quem sabe sonha até, no dia em que algúm dia algúm ponto, algúm conto lhe permita refletir-se em alguma bela missanga perdida…