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Quando as máscaras são retiradas…

giacometti  alexander liberman 1955 - giacometti  alexander liberman 1955

“Todo homem terá talvez sentido essa espécie de pesar, se não terror, ao ver como o mundo e sua história se mostram enredados num inelutável movimento que se amplia sempre mais e que parece modificar, para fins cada vez mais grosseiros, apenas suas manifestações visíveis. Esse mundo visível é o que é, e nossa ação sobre ele não poderá nunca transformá-lo em outro. Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando-se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente. Mais precisamente moral, sem dúvida. Mas, afinal, é talvez a essa condição inumana, a esse agenciamento inelutável que devemos a nostalgia de uma civilização que procura se aventurar fora do que é mensurável. É a obra de Giacometti, creio, que torna nosso universo ainda mais insuportável, pois parece que esse artista soube afastar o que perturbava seu olhar para descobrir o que restará do homem quando as máscaras forem retiradas. Mas a Giacometti talvez tivesse sido igualmente necessária essa condição inumana a nós imposta, para que sua nostalgia se tornasse tão grande a ponto de lhe dar força para lograr sua busca. Seja como for, toda a sua obra me parece ser essa procura, visando não só o homem, mas também não importa o quê, o mais banal dos objetos. E quando consegue despojar o objeto, ou o ser que escolheu, de suas máscaras utilitárias, a imagem que nos dá é magnífica. Recompensa merecida, mas previsível.

A beleza tem apenas uma origem: a ferida, singular, diferente para cada um, oculta ou visível, que o indivíduo preserva e para onde se retira quando quer deixar o mundo para uma solidão temporária, porém profunda. Há, portanto, uma diferença imensa entre essa arte e o que chamamos o miserabilismo. A arte de Giacometti parece querer descobrir essa ferida aberta de todo ser e mesmo de todas as coisas, para que ela se ilumine”.

o ateli   de giacometti 1 2 - o ateli   de giacometti 1 2

GENET, Jean. O ateliê de Giacometti. São Paulo: Cosac & Naify, 2003, p. 11-13.



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2 respostas para “ Quando as máscaras são retiradas… ”

  1. TCris Novembro 29th, 2009 20:46

    “Sonhamos então, nostálgicos, com um universo em que o homem, em vez de agir com tanta fúria sobre a aparência visível, se dedicasse a desfazer-se dessa aparência, não somente recusando qualquer ação sobre ela, mas desnudando-se o bastante para descobrir esse lugar secreto, dentro de nós mesmos, a partir do qual seria possível uma aventura humana de todo diferente.” Seria mesmo uma questão de sonhar? Ou de dar passos evolutivos de como ser Humano, de uma humanidade que transcende palavras e intenções apenas sonhadas (ou sempre apresentadas por recorrentes sonhos) e transformar-se em gestos inusitados de conciência, frutos de uma busca ousada e libertadora?

    “Mas a Giacometti talvez tivesse sido igualmente necessária essa condição inumana a nós imposta, para que sua nostalgia se tornasse tão grande a ponto de lhe dar força para lograr sua busca.” Oxalá consigamos vencer a inércia que nos paralisa e os ouvidos que se fazem moucos…como diria mestre Machado!

  2. Marly Novembro 30th, 2009 20:53

    Muitas vezes são os sonhos que, vestidos com as formas do visível, nos revelam o que é invisível aos olhos, o que está oculto por trás das aparências. Mas, concordo que não basta sonhar e é preciso coragem para realizar esse desnudamento e para agir a partir das descobertas que ele apresenta.
    Hoje, mais do que nunca, vivemos uma imposição social que privilegia a aparência: a sociedade do espetáculo está também espetacularizando a vida, nada é o que parece, tudo é maquiado: as máscaras substituem os rostos.

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