SER, VIDA E EXISTÊNCIA

Eu existo: o que sou verdadeiramente? O que é essa vida que me anima, de modo mais profundo, mais durável que todas as mudanças superficiais? Serei eu algo que permanece para sempre no presente – não somente as mudanças, as sucessões no tempo – algo que seja independente, autônomo, autógeno, produzido por si-mesmo? Tudo o que nós observamos a princípio é mutável, impermanente. Eu estava bem nesta manhã, à tarde me sinto cansado. Eu estava abatido ontem, mas recebi uma notícia muito boa, e agora me sinto muito mais animado: mudanças, mudanças. É a nossa primeira observação. E, com a mudança, vem a dependência, a produção de efeitos em nós, dos quais não conhecemos todas as causas.
Tudo o que somos, na superfície de nós mesmos, instante após instante, é produzido. Uma boa notícia produz certos tipos de pensamentos, uma notícia ruim produz outros tipos de pensamentos, e esses pensamentos engendram emoções. Nossa vivência física, emocional ou mental é impermanente, evanescente, e é dependente, produzida.
Podemos ser algo imutável – que não é submetido ao tempo, ao envelhecimento – e autônomo – que não seja produzido por outra coisa? A resposta a essa questão é dada pelos ensinamentos espirituais: sim, certamente há uma realidade última…
Será que uma realidade indestrutível, não implicada no tempo, não produzida por outros fatores, é uma pura ilusão? Uma invenção dos filósofos? Ou é verdadeira? No Ocidente cristão, nós privilegiamos muito a crença em detrimento da experiência…
… o que chamo verdadeiramente de Realidade, e o que significa última? Não nos embriaguemos com as palavras. Muitas discussões são devidas unicamente à tirania do vocabulário e à renúncia à experiência vivida.
Em sânscrito, há dois pares de termos. Por um lado, nitya que significa: eterno, não implicado no tempo… e anitya: não eterno. Nada do que observamos a princípio é eterno. Tudo é impermanente. E por outro lado, atman: existente por si mesmo e não produzido… Num primeiro olhar, não há nada que exista por si mesmo. E anatman: causado, produzido, não autônomo, não autógeno… que não é o Si… que não é produzido por si mesmo…
… nós deveríamos distinguir a vida e a existência. Em lugar de “Levo uma vida difícil” ou “O que a vida me trouxe” ou “A vida é generosa comigo”, seria bem mais justo dizer: a existência. A vida é simplesmente o fato de estar vivo aqui e agora, independentemente das circunstâncias. Cada um de nós tem a sua história, o desenrolar da nossa existência. A vida é sempre e unicamente “aqui e agora”, a vida fundamental que está por trás da existência, com as peripécias de cada um. “Eu sou vivo” agora, uma vida consciente, mais profunda mesmo que “Eu sou um homem” ou “Eu sou uma mulher”, mais profunda que “Eu sou um médico” ou “Eu sou um operário”. O Ser é o mesmo… São as formas de pensar que especificam e definem…
Se nos é proposto o conhecimento de si… certamente é porque não nos conhecemos. O conhecimento de si não é saber que preferimos isso ao invés daquilo, que gostamos disso ou daquilo. Não é desse conhecimento que se trata. É algo que não temos e que podemos obter: o segredo de nossa própria existência… O essencial da vida.
… Mesmo estando extraviado, perdido – eu não sei mais onde estou, não compreendo mais nada, não acredito em mais nada – no pano de fundo de todo esse transtorno está presente: eu existo, eu sou.
Seleção dos trechos e tradução livre: Marly Segreto
Fonte: Arnaud Desjardins - Retour à l’essentiel. Paris: La Table Ronde, 2002, p. 48-53.
Imagem: da Internet, desconheço o autor.
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3 respostas para “ SER, VIDA E EXISTÊNCIA ”
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“Mesmo estando extraviado, perdido – eu não sei mais onde estou, não compreendo mais nada, não acredito em mais nada – no pano de fundo de todo esse transtorno está presente: eu existo, eu sou.”
Esse, é o ultimo supiro da mente.
Quando paramos de tentar colocar o conhecimento para dentro de nos e apenas damos passagem para ele se manifestar, com certeza a referencia de eu sou,ou eu ainda sou…salta para
o infinito.
exelente escolha de texto!!!
“…nós deveríamos distinguir a vida e a existência. Em lugar de “Levo uma vida difícil” ou “O que a vida me trouxe” ou “A vida é generosa comigo”, seria bem mais justo dizer: a existência. A vida é simplesmente o fato de estar vivo aqui e agora, independentemente das circunstâncias. Cada um de nós tem a sua história, o desenrolar da nossa existência. A vida é sempre e unicamente “aqui e agora”, a vida fundamental que está por trás da existência, com as peripécias de cada um…
Lembrar disto!
Abraços
TCris
A vida sempre permanece, é a existência que é impermanente. Para Desjardins, não há oposição entre vida e morte, mas sim entre nascimento e morte, pois quando morremos numa dimensão estamos nascendo em outra.