Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de Outubro de 2009

SER, VIDA E EXISTÊNCIA

translucido - translucido

Eu existo: o que sou verdadeiramente? O que é essa vida que me anima, de modo mais profundo, mais durável que todas as mudanças superficiais? Serei eu algo que permanece para sempre no presente – não somente as mudanças, as sucessões no tempo – algo que seja independente, autônomo, autógeno, produzido por si-mesmo? Tudo o que nós observamos a princípio é mutável, impermanente. Eu estava bem nesta manhã, à tarde me sinto cansado. Eu estava abatido ontem, mas recebi uma notícia muito boa, e agora me sinto muito mais animado: mudanças, mudanças. É a nossa primeira observação. E, com a mudança, vem a dependência, a produção de efeitos em nós, dos quais não conhecemos todas as causas.

Tudo o que somos, na superfície de nós mesmos, instante após instante, é produzido. Uma boa notícia produz certos tipos de pensamentos, uma notícia ruim produz outros tipos de pensamentos, e esses pensamentos engendram emoções. Nossa vivência física, emocional ou mental é impermanente, evanescente, e é dependente, produzida.

Podemos ser algo imutável – que não é submetido ao tempo, ao envelhecimento – e autônomo – que não seja produzido por outra coisa? A resposta a essa questão é dada pelos ensinamentos espirituais: sim, certamente há uma realidade última…

Será que uma realidade indestrutível, não implicada no tempo, não produzida por outros fatores, é uma pura ilusão? Uma invenção dos filósofos? Ou é verdadeira? No Ocidente cristão, nós privilegiamos muito a crença em detrimento da experiência…

… o que chamo verdadeiramente de Realidade, e o que significa última? Não nos embriaguemos com as palavras. Muitas discussões são devidas unicamente à tirania do vocabulário e à renúncia à experiência vivida.

Em sânscrito, há dois pares de termos. Por um lado, nitya que significa: eterno, não implicado no tempo… e anitya: não eterno. Nada do que observamos a princípio é eterno. Tudo é impermanente. E por outro lado, atman: existente por si mesmo e não produzido… Num primeiro olhar, não há nada que exista por si mesmo. E anatman: causado, produzido, não autônomo, não autógeno… que não é o Si… que não é produzido por si mesmo…

… nós deveríamos distinguir a vida e a existência. Em lugar de “Levo uma vida difícil” ou “O que a vida me trouxe” ou “A vida é generosa comigo”, seria bem mais justo dizer: a existência. A vida é simplesmente o fato de estar vivo aqui e agora, independentemente das circunstâncias. Cada um de nós tem a sua história, o desenrolar da nossa existência. A vida é sempre e unicamente “aqui e agora”, a vida fundamental que está por trás da existência, com as peripécias de cada um. “Eu sou vivo” agora, uma vida consciente, mais profunda mesmo que “Eu sou um homem” ou “Eu sou uma mulher”, mais profunda que “Eu sou um médico” ou “Eu sou um operário”. O Ser é o mesmo… São as formas de pensar que especificam e definem…

Se nos é proposto o conhecimento de si… certamente é porque não nos conhecemos. O conhecimento de si não é saber que preferimos isso ao invés daquilo, que gostamos disso ou daquilo. Não é desse conhecimento que se trata. É algo que não temos e que podemos obter: o segredo de nossa própria existência… O essencial da vida.

… Mesmo estando extraviado, perdido – eu não sei mais onde estou, não compreendo mais nada, não acredito em mais nada – no pano de fundo de todo esse transtorno está presente: eu existo, eu sou.

Seleção dos trechos e tradução livre: Marly Segreto

Fonte: Arnaud Desjardins - Retour à l’essentiel. Paris: La Table Ronde, 2002, p. 48-53.

Imagem: da Internet, desconheço o autor.

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Vivendo e aprendendo - histórias rarefeitas

Nosso amigo Dubois escreveu cinco ensaios sobre a coragem a partir de sua experiencia como montanhista/alpinista. Transcrevo abaixo uma releitura que fiz como comentário à sua criação.

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Coragem em cinco Movimentos ou ensaios que descrevem nosso processo Autoformativo pela vida afora…

O que aprendemos conosco mesmos - “autos”-formação

Primeiro Movimento

(…) “A coragem foi superar o cansaço e tomar a decisão certa.”

Segundo Movimento

(…) “A coragem foi então, como uma confiança laçada em cima do vazio, meu primeiro solo, um prêmio para uma brincadeira sobre um erro tolo, que felizmente deu certo.”

Terceiro Movimento

(…) “O dia amanheceu, um dia de escalada como muitos outros que viriam na minha vida. Os fantasmas tinham desaparecido.A coragem voltou para mim quando descobri que o respeito pela montanha e por mim mesmo era o antídoto que me fortalecia contra o pavor que eu sentia.”

Retorno reflexivo sobre as experiências vividas

(…) “Estou concentrado e compenetrado no que vou fazer, não é uma brincadeira, uma improvisação. Não sinto fome, ou frio, ou cansaço. Estou onde quero estar, não penso em fugir, em fazer o caminho mais fácil. Estou apenas fazendo uma escalada digna do lugar e digna de mim, sem aplauso, sem plateia. Às vezes é necessário coragem para isto também: apenas ser digno de si mesmo.”

O que aprendemos com os outros (hetero-formação)

Quarto Movimento

(…) “Levariam muitos anos para eu entender aquele homem, sua resignação aparente, sua fortaleza (como diria Euclides da Cunha), sua coragem, apesar de tudo, da dor, da tristeza, de lutar e resistir naquele mundo que para mim era tão inóspito, mas que para ele era seu mundo e nele era um homem verdadeiro, digno, onde cabia até mesmo a solidariedade e a generosidade com pessoas estranhas como nós. Apenas um sertanejo perdido em aos pés de uma montanha da Bahia, mas de quem eu nunca consegui esquecer a coragem.”


O que aprendemos com o ambiente - eco-formação

Quinto movimento

(…) “Nestas horas eu lembro de pessoas que conheci e que realmente admiro pela coragem: médicos plantonistas, bombeiros, catadores de lixo, aquela família de agricultores que perdeu tudo em um destes planos econômicos desastrosos e que estava lá, acampada, apenas querendo começar de novo, o líder da comunidade de pescadores de Ararapira, o sertanejo no fundão da Bahia, aquela senhora que decidiu que a quimioterapia não ia ser o fim da vida dela. Daí eu percebo como somos privilegiados, pois podemos nos dar ao luxo de sermos corajosos na montanha, apenas porque queremos e não porque necessitamos.”

Conheça na íntegra os textos de Dubois sobre escalada e coragem.

Gratidão pela partilha.
Fraterno abraço,

TCris

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MULTIPLICIDADES - Dissertação de Mestrado

CONVITE - CONVITE

Adriana Caccuri é uma das coordenadoras da Companhia de Aprendizagem, sua presença constante, atenciosa e inspiradora em nossos trabalhos dão provas da qualidade do seu ser e do seu fazer.

Temos a certeza de que sua Dissertação de Mestrado trará uma grande contribuição tanto para o Design como para os trabalhos voltados aos processos formativos.

BRAVO!!!

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