Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de 22 de Setembro de 2009

O PROFUNDO E A PROFUNDIDADE

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O Profundo é imanente, encarnado, aqui e agora, mutável.
A Profundidade é transcendente, inapreensível, não racionalizável, além do tempo e do espaço, inominável, sem nascimento e sem morte, englobante.
Entre o Profundo e a Profundidade, um necessário vínculo de reciprocidade e o espaço do imaginário.
Um dia, a Profundidade é fogo. O Profundo nasce do Superficial, como a labareda da faísca.
A Profundidade conhece sempre o lado primaveril do Superficial. O Profundo é arrancado do Superficial e acredita sonhar.
No mundo dos Superficiais, o Profundo se torna repentinamente cego, surdo e mudo. A Profundidade restitui-lhe a palavra, abre duas vezes seus olhos, fazendo-o ouvir o som da erva sob o aço.
Quando o Superficial acredita ter vencido a Profundidade, abre-se o mundo das imagens fechadas.
O Superficial porta o Religioso como um guarda-sol. O Profundo prefere olhar o sol de frente para compreender de onde vem a noite.
Para roçar a Profundidade é preciso ser profundo como um gato. Para ser Profundo até o fim, é preciso não temer chegar perto da Profundidade.
A relação entre o Profundo e a Profundidade é um princípio de vida e uma ligação com o desconhecido. Ela instaura a categoria do Aberto e do Sagrado no mundo. Ela abre as comportas do Simbólico.
A Profundidade não precisa de dogmas, de rituais e de Grandes Sacerdotes para existir. Ela é dada de antemão à tudo que vive. Ela está na existência como a cor no ramo de flores, o oceano na onda.
A Profundidade dá ao Profundo a sua luz e seu sentido.
O Profundo dá existencia concreta e voz à Profundidade, sempre incompletas.
Por sua existencialidade, o Profundo dá origem às categorías de ambivalencia, complexidade e finitude. Sua relação com a Profundidade é conflituosa, pois o Profundo exige um sentido e a Profundidade é, ao mesmo tempo, o desconhecido do sentido e o chamado para o sentido.
É possível aproximar-se da Profundidade de uma maneira vertical, horizontal ou transversal, entre outras…
Na abordagem vertical, o Profundo se aguça, se aviva, se encrava, se perde, mas também se encerra numa solidão radical e numa incomunicalidade total.
Na abordagem horizontal, o Profundo se amplifica, se doa, se solidariza, se multiplica, sob o risco de perder sua singularidade viva, sua rebelião particular.
Na abordagem transversal, o Profundo atravessa os extremos, afina a ambivalencia, a contradição, o paradoxo, o conflito, a dúvida. Para ele, o azul pavimenta a sua noite cristalina.
Quanto mais a Profundidade se atualiza, mais o Profundo se torna calmo e simples, dando menos importância ao jogo social e ao espírito analítico.
Em sua maior simplicidade, o Profundo está imerso no oceano da Profundidade. Completamente aqui, com seus semelhantes, ele está simultaneamente além daqui, livre como o vôo da águia.
Quanto mais a Profundidade se potencializa, mais o Profundo se torna inquieto e complicado, afirmando sua onipotência sobre as coisas e os seres.
Em sua maior complicação, o Profundo parece sair da Profundidade para chegar ao nada da modernidade, na intolerancia ou na indiferença.
Nos dois modos de existencia, o Profundo canta ao extremo.
No Oriente do primeiro modo, a Profundidade é superficie, o Profundo subterrâneo.
No Ocidente do segundo modo, a Profundidade não tem rosto e o Profundo se existencializa no absurdo.

René Barbier

Tradução livre: Marly Segreto
Fonte: site de René Barbier www.barbier-rd.nom.fr/
Imagem: Escada - Gaudi

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