Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de 1 de Setembro de 2009

Diálogo com o Milênio - Multiplicidade dos possíveis

brian dettmer - brian dettmer
Em sua “apologia do romance como grande rede”, como uma enciclopédia sempre aberta devido à impossibilidade de “exaurir o conhecimento do mundo”, Calvino diz: “os livros modernos que mais admiramos nascem da confluência e do entrechoque de uma multiplicidade de métodos interpretativos, maneiras de pensar, estilos de expressão. Mesmo que o projeto geral tenha sido minuciosamente estudado, o que conta não é o seu encerrar-se numa figura harmoniosa, mas a força centrífuga que dele se liberta, a pluralidade de linguagens como garantia de uma verdade que não seja parcial” (p. 131).

Mas será que quanto mais o obra tender para a multiplicidade dos possíveis, mais ela se afastará da singularidade do autor, do self de quem escreve com sua sinceridade interior e sua própria verdade?

“Ao contrário”, diz Calvino, “quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis”.

E ele encerra manifestando um desejo: “quem nos dera fosse possível uma obra concebida fora do self, uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvore na primavera e a árvore no outono, a pedra, o cimento, o plástico…”.

Ítalo Calvino, “Multiplicidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.138.

Imagem: Brian Dettmer

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