Arquivo de 1 de Setembro de 2009
Diálogo com o Milênio - Multiplicidade dos possíveis

Mas será que quanto mais o obra tender para a multiplicidade dos possíveis, mais ela se afastará da singularidade do autor, do self de quem escreve com sua sinceridade interior e sua própria verdade?
“Ao contrário”, diz Calvino, “quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis”.
E ele encerra manifestando um desejo: “quem nos dera fosse possível uma obra concebida fora do self, uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvore na primavera e a árvore no outono, a pedra, o cimento, o plástico…”.
Ítalo Calvino, “Multiplicidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.138.
Imagem: Brian Dettmer
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