Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de Setembro de 2009

O PROFUNDO E A PROFUNDIDADE

gaudi escalera 2 1 - gaudi escalera 2 1

O Profundo é imanente, encarnado, aqui e agora, mutável.
A Profundidade é transcendente, inapreensível, não racionalizável, além do tempo e do espaço, inominável, sem nascimento e sem morte, englobante.
Entre o Profundo e a Profundidade, um necessário vínculo de reciprocidade e o espaço do imaginário.
Um dia, a Profundidade é fogo. O Profundo nasce do Superficial, como a labareda da faísca.
A Profundidade conhece sempre o lado primaveril do Superficial. O Profundo é arrancado do Superficial e acredita sonhar.
No mundo dos Superficiais, o Profundo se torna repentinamente cego, surdo e mudo. A Profundidade restitui-lhe a palavra, abre duas vezes seus olhos, fazendo-o ouvir o som da erva sob o aço.
Quando o Superficial acredita ter vencido a Profundidade, abre-se o mundo das imagens fechadas.
O Superficial porta o Religioso como um guarda-sol. O Profundo prefere olhar o sol de frente para compreender de onde vem a noite.
Para roçar a Profundidade é preciso ser profundo como um gato. Para ser Profundo até o fim, é preciso não temer chegar perto da Profundidade.
A relação entre o Profundo e a Profundidade é um princípio de vida e uma ligação com o desconhecido. Ela instaura a categoria do Aberto e do Sagrado no mundo. Ela abre as comportas do Simbólico.
A Profundidade não precisa de dogmas, de rituais e de Grandes Sacerdotes para existir. Ela é dada de antemão à tudo que vive. Ela está na existência como a cor no ramo de flores, o oceano na onda.
A Profundidade dá ao Profundo a sua luz e seu sentido.
O Profundo dá existencia concreta e voz à Profundidade, sempre incompletas.
Por sua existencialidade, o Profundo dá origem às categorías de ambivalencia, complexidade e finitude. Sua relação com a Profundidade é conflituosa, pois o Profundo exige um sentido e a Profundidade é, ao mesmo tempo, o desconhecido do sentido e o chamado para o sentido.
É possível aproximar-se da Profundidade de uma maneira vertical, horizontal ou transversal, entre outras…
Na abordagem vertical, o Profundo se aguça, se aviva, se encrava, se perde, mas também se encerra numa solidão radical e numa incomunicalidade total.
Na abordagem horizontal, o Profundo se amplifica, se doa, se solidariza, se multiplica, sob o risco de perder sua singularidade viva, sua rebelião particular.
Na abordagem transversal, o Profundo atravessa os extremos, afina a ambivalencia, a contradição, o paradoxo, o conflito, a dúvida. Para ele, o azul pavimenta a sua noite cristalina.
Quanto mais a Profundidade se atualiza, mais o Profundo se torna calmo e simples, dando menos importância ao jogo social e ao espírito analítico.
Em sua maior simplicidade, o Profundo está imerso no oceano da Profundidade. Completamente aqui, com seus semelhantes, ele está simultaneamente além daqui, livre como o vôo da águia.
Quanto mais a Profundidade se potencializa, mais o Profundo se torna inquieto e complicado, afirmando sua onipotência sobre as coisas e os seres.
Em sua maior complicação, o Profundo parece sair da Profundidade para chegar ao nada da modernidade, na intolerancia ou na indiferença.
Nos dois modos de existencia, o Profundo canta ao extremo.
No Oriente do primeiro modo, a Profundidade é superficie, o Profundo subterrâneo.
No Ocidente do segundo modo, a Profundidade não tem rosto e o Profundo se existencializa no absurdo.

René Barbier

Tradução livre: Marly Segreto
Fonte: site de René Barbier www.barbier-rd.nom.fr/
Imagem: Escada - Gaudi

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MUTANTE

novo olhar - novo olhar
“Sou mutante. Não anseio a majestades cristalizadas em palavras que não voltam atrás. Eu volto palavras, gestos e sentimentos. Mudam tempos, momentos, situações, mundo… Por que não mudo eu? Livrai-me do engessamento burro da prepotência! Peço desculpas e me sinto aliviada. Se o outro vai desculpar ou não depende do grau de irredutibilidade dele. Aí já não é comigo. Repensar é consertar. Eu não sou sempre da minha opinião. Considero a sua e, se for o caso, reconsidero a minha.” (Paul Valéry)

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Arte deslizante

Este é um famoso quadro chinês, tesouro cultural do país e patrimônio do Museu de Xangai, que leva multidões a apreciá-lo demoradamente.

Ele foi pintado entre 1085 e 1145, mede cerca de 24.5 por 5,28 m.

Apreciem-no, basta clicar no link abaixo, e deslocando o cursor pode-se aumentar e diminuir a velocidade de rolagem da pintura. Quando aparecerem quadrados brancos, cliquem em cima, uma nova tela aparecerá e uma história será contada. É muito bem feito!!!

http://www.npm.gov.tw/exh96/orientation/flash_4/index.html

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Diálogo com o Milênio - Multiplicidade dos possíveis

brian dettmer - brian dettmer
Em sua “apologia do romance como grande rede”, como uma enciclopédia sempre aberta devido à impossibilidade de “exaurir o conhecimento do mundo”, Calvino diz: “os livros modernos que mais admiramos nascem da confluência e do entrechoque de uma multiplicidade de métodos interpretativos, maneiras de pensar, estilos de expressão. Mesmo que o projeto geral tenha sido minuciosamente estudado, o que conta não é o seu encerrar-se numa figura harmoniosa, mas a força centrífuga que dele se liberta, a pluralidade de linguagens como garantia de uma verdade que não seja parcial” (p. 131).

Mas será que quanto mais o obra tender para a multiplicidade dos possíveis, mais ela se afastará da singularidade do autor, do self de quem escreve com sua sinceridade interior e sua própria verdade?

“Ao contrário”, diz Calvino, “quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis”.

E ele encerra manifestando um desejo: “quem nos dera fosse possível uma obra concebida fora do self, uma obra que nos permitisse sair da perspectiva limitada do eu individual, não só para entrar em outros eus semelhantes ao nosso, mas para fazer falar o que não tem palavra, o pássaro que pousa no beiral, a árvore na primavera e a árvore no outono, a pedra, o cimento, o plástico…”.

Ítalo Calvino, “Multiplicidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.138.

Imagem: Brian Dettmer

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