Blog da Companhia de Aprendizagem

Diálogo com o Milenio - Multiplicidade - uma dimensão da Complexidade?

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“ Sustentava, entre outras coisas, que as catástrofes inopinadas não são jamais a consequência ou o efeito, como se costumava dizer, de um motivo único, de uma causa singular: mas são como um vórtice, um ponto de depressão ciclônica na consciência do mundo, para os quais conspirava toda uma gama de causalidades convergentes.” p.119. [citação de trecho do romance de Carlo Emilio Garda “ Aquela confusão louca da via Merulana”]

(…) “Quis começar por essa citação por me parecer prestar-se muito bem como intróito ao tema de minha conferência, que é o romance contemporâneo como enciclopédia, como método de conhecimento, e principalmente como rede de conexões entre os fatos, entre as pessoas, entre as coisas do mundo. …Escolhi Gadda não porque se trata de um escritor de minha língua, relativamente pouco conhecido por aqui ( talvez em razão de sua particular complexidade estilística, difícil mesmo para os italianos) , mas sobretudo porque sua filosofia se casa muito bem com seu discurso, no sentido em que ele vê o mundo como um “sistema de sistemas”, em que cada sistema particular condiciona os demais e é condicionado por eles. Carlo Emilio Gadda durante toda sua vida buscou representar o mundo como um rolo, uma embrulhada, um aranzel, sem jamais atenuar-lhe a a complexidade inextricável – ou melhor dizendo, a presença simultânea dos elementos mais heterogêneos que concorrem para a determinação de cada evento.”

Ítalo Calvino, “Multiplicidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.121



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6 respostas para “ Diálogo com o Milenio - Multiplicidade - uma dimensão da Complexidade? ”

  1. TCris Agosto 23rd, 2009 13:32

    Neste último ensaio, Multiplicidade, Calvino enfatiza quais os rumos orientam a literatura do século XX e que já refletem as novas idéias sobre a mudança de paradigma do pensamento.

    Edgar Morin, pensador frances contemporâneo já apresentava ao mundo o pensamento complexo como abordagem capaz incluir a multiplicidade sobre a qual nos fala Calvino na releitura que faz de Gadda(…) “no sentido em que ele vê o mundo como um “sistema de sistemas”, em que cada sistema particular condiciona os demais e é condicionado por eles.”

    Se refletirmos sobre essa premissa em relação ao nosso próprio ser/estar no mundo, certamente vamos nos deparar com surpreendentes descobertas… e alternativas possíveis, que antes não víamos.

  2. leda Agosto 23rd, 2009 16:53

    Devo admitir que a complexidade é mãe dos organismos evoluidos.
    Compreender a complexidade é ainda algo mais elaborado.
    Penso, que na primeira torre vibracional criada pelos homens com o objetivo de vibrar sons ate aos céus divino, com o objetivo de reconectar-se ; com o passar dos tempos a sonoridade foi fragmentada em outros sons, gerando o incidente da torre de babel, eu diria mesmo, o nascimento da complexidade da mutiplicidade das liguagens.
    Assim, como o som é o criador original do tudo, suas diferentes manifestaçoes se espelham diante dos nossos sentidos como flores de infinitos modelos, passaros, plantas, e observando bem , toda natureza assina essa diversidade.
    Por ser filha do mesmo som, toda nota sonora emitida em forma singular , ressoa na primitiva torre da unidade que nos liga a deus.

  3. Adriana Agosto 23rd, 2009 19:24

    Nesta etapa de finalização de Mestrado parece que o tempo urge e o foco para esta finalização faz-se mais que necessário.

    Mas, pegando uma linha de fuga (Deleuze) parti velozmente para o blog da Companhia de Aprendizagem.

    Criei um poema, onde onclui palavras de Calvino, mas
    agora, gostaria de enviar o resumo que segue que está em minha dissertação Multiplicidades:

    Após a descrição de Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade, ele chega à Multiplicidade. Sua morte não lhe permite finalizar a sexta proposta: Consistência.

    Em sua quinta proposta, ele apresenta conceitos como: multiplicidade, estilo, saída do eu individual (para a individuação?), mas para falar o que não tem palavra (o indizível?).

    Após exemplificar com Carlo Emilio Gadda, Robert Musil, Proust, Borges e Paul Valery, ele decide pôr “um pouco de ordem nas propostas”, o que lhe permite definir tipos de textos como exemplos de multiplicidade:

    1. Texto unitário, como única voz, mas interpretável a vários níveis. Ex. Alfred Jarry, em L’amour absolu (O amor absoluto);

    2. Texto multíplice, que substitui a unicidade de um eu pensante pela multiplicidade de sujeitos, vozes, olhares sobre o mundo. Mikhail Bakhtin chama este tipo de texto de dialógico, polifônico ou carnavalesco;

    3. Obra inconclusa por vocação constitucional, pois no anseio de conter todo o possível, não consegue dar a si mesma uma forma nem desenhar seus contornos Ex. Musil e Gadda;

    4. Obra que corresponde em literatura ao que em filosofia é o pensamento não sistemático. Procedendo por aforismos, por relâmpagos puntiformes e descontínuos. Ex. Paul Valery, em Cahiers.

  4. Marly Agosto 25th, 2009 17:55

    “Qual é a importância de um livro que nem mesmo é capaz de nos levar para além de todos os livros?”, diz Nietzsche em “A gaia ciência”.

    “Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura com seus meios específicos nos pode dar”, diz Calvino logo no início do livro.

    Sua própria obra é um exemplo de multiplicidade: caminhos variados e experimentos diversos sob outras óticas, outras lógicas, outros meios de conhecimento, incluindo o alimento oferecido pela ciência. E é com essa disposição que, em suas seis propostas, ele vai desemaranhando as linhas agenciadoras de seu discurso e vamos percorrendo com ele as obras de outros autores, naquilo que têm de semelhante e/ou de contraditório.

    Redes de conexões, tecer em conjunto (complexus), multiplicidade das relações, rizoma em ato e em potencialidade… “ânsia de dar consistência à multiplicidade do escrevível na brevidade de uma vida que se consome”.

    O conhecimento como multiplicidade é um fio…

    El poema continuo,
    la escritura continua,
    el texto que nunca se termina
    y nunca se interrumpe,
    el texto equivalente a ser.

    La vida se convierte
    en una forma de escritura
    y cada cosa es una letra,
    un signo de pontuación,
    la inflexión de una frase.

    Inaugural metabolismo
    de una filología
    que ha descubierto un nuevo verbo:
    el verbo siempre.

    La poesía se escribe siempre,
    vivir se vive siempre,
    algo despierta siempre:
    poema-siempre.

    El ser es escritura.
    Y una palabra es suficiente
    para toda la acción:
    siempre.

    El otro verbo,
    nunca,
    es tan sólo su sombra

    (Roberto Juarroz)

  5. TCris Agosto 26th, 2009 10:53

    Um fio que se tece também através do tempo…

    “Nesta conferencia creio que as remissões às literaturas do passado podem ficar reduzidas ao mínimo, a quanto bastar para demonstrar como em nossa época a literatura se vem impregnando dessa antiga ambição de representar a multiplicidade das relações, em ato e potencialidade.

    A excessiva ambição de propósitos pode ser reprovada em muitos campos da atividade humana, mas não na literatura. A literatura só pode viver se propõe a objetivos desmesurados, até mesmo para além de suas possibilidades de realização. Só se poetas e escritores se lançarem a empresas que ninguém mais ousaria imaginar é que a literatura continuará a ter uma função. No momento em que a ciência desconfia das explicações gerais e das soluções que não sejam setoriais e especialísticas, o grande desafio para a literatura é o de saber tecer em conjunto os diversos saberes e os diversos códigos numa visão pluralística e multifacetada do mundo.” Ítalo Calvino, “Multiplicidade”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.127

    Pergunto: minha vida daria um romance? Posso ve-la como um fio condutor de multiplicidades que se entretecem e oferecem um desenho? Sou capaz de incluir o avesso de mim mesma - o não saber, o não aceito, o não suspeito, no motivo desenhado?

  6. leda Agosto 26th, 2009 14:05

    É preciso uma linguaguem mais louca que nosso limitado raciocinio logico para que a literatura consiga penetrar o verdadeiro ser.
    Algo como um misto de mito, historia e imaginação…

    Organizacional ,vibraciona ,kabalistico, alguma coisa que nos tire da memoria comum e crie uma nova memoria de SER.

    Os parametros de Calvino são um bom começo, mas entendo q so podemos criar algo que tem o rosto do seu criador, portanto, é preciso primeiro criar o escritor…

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