Date: 2009.08.10 | Category: Diálogo com o Milênio, Sons & Imagens | Tags:

Depois de descrever as nuances do processo criativo e da função capital do imaginário nele, Calvino realça:

(…)”…mas sempre revestida por um invólucro imaginoso, afetivo, de vozes monologantes e dialogantes.” p.105

Concluindo:

(…)“Em suma, meu processo procura unificar a geração espontânea das imagens e a intencionalidade do pensamento discursivo. Mesmo quando o impulso inicial vem da imaginação visiva que põe em funcionamento sua lógica própria, mais cedo ou mais tarde ela vai cair nas malhas de uma outra lógica imposta pelo raciocínio e a expressão verbal. Seja como for, as soluções visuais continuam a ser determinantes, e vez por outra chegam inesperadamente a decidir situações que nem as conjeturas do pensamento nem os recursos da linguagem conseguiriam resolver.” p. 106

E volta a instigar o leitor:

(…) Mas há uma outra definição na qual me reconheço plenamente: a da imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.” p. 106

“Digamos que diversos elementos concorrem para formar a parte visual da imaginação literária: a observação direta do mundo real, a transfiguração fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura em seus vários níveis, e um processo de abstração, condensação e interiorização da experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização quanto na verbalização do pensamento.” p. 110

Finalizando numa declaração apaixonante pelo ato da escrita (mais uma vez, trazendo a complementaridade dos opostos):

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(…)“ Seja como for , todas as “realidades” e as “fantasias” só podem tomar forma através da escrita, na qual exterioridade e interioridade , mundo e ego, experiência e fantasia aparecem compostos pela mesma matéria verbal; as visões polimorfas obtidas através dos olhos e da alma encontram-se contidas nas linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas, , de parêntesis; páginas inteiras de sinais alinhados, encostados uns aos outros como grãos de areia, representando o espetáculo variegado do mundo numa superfície sempre igual e sempre diversa, como as dunas impelidas pelo vento do deserto. “ p. 114<

Ítalo Calvino, “Visibilidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990

2 responses to “Dialógo com o Milenio – Tornar visível o mundo interior”

  1. TCris at 2009/08/10 13:16 says:

    Ampliando nossa percepção sobre nosso próprio potencial criativo (dar “visibilidade”) Calvino diz:

    “Digamos que diversos elementos concorrem para formar a parte visual da imaginação literária: a observação direta do mundo real, a transfiguração fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura em seus vários níveis, e um processo de abstração, condensação e interiorização da experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização quanto na verbalização do pensamento.” p. 110

    Lendo e participando destas últimas postagens sobre aprendizagem também pelos sonhos, antropoformação, reforma do pensamento através (também) da educação ambiental, não posso deixar de ver um fio que liga tudo isso…será?

    TCris

  2. Marly at 2009/08/13 22:20 says:

    Manoel de Barros, poeta mato-grossense, diz:

    “O olho vê, a lembrança revê e a imaginação transvê”.

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