Companheiro de aprendizagem, de confusão, de riso, de explicações enredadas e interpretações ímpares… o Xiquinho foi sempre assim, na Companhia. Ultimamente, menos presente fisicamente, mas nunca ausente do nosso convívio. Quando ele chegava para os encontros de estudos – a gente nunca sabia quando – sempre tinha uma história interessante, engraçada e inusitada para contar, que sempre terminava em algum tipo de ensinamento para o grupo: “É vital dar sentido a tudo que fazemos. No meu trabalho, ajudar os jovens para que a vida faça sentido”.
Eukiko, um personagem humorístico concebido, mas nunca desenhado, foi nele inspirado. “Eukiko, e eu com isso… o que faço com isso”, ele dizia, deixando clara a necessidade de um engajamento pessoal em tudo que se faz e de fazer algo com o que é aprendido: saber-ser e saber-fazer entrelaçados.
Aos poucos, fomos nos habituando com sua outra lógica que, muitas vezes, pedia uma interlocução: _ “A Marly pode explicar melhor o que estou querendo dizer…”, ele solicitava. Era preciso tentar acompanhá-lo pelo intrincado labirinto de idéias e pensamentos: “Quando eu vou dormir digo que eu quero parar de pensar e quando acordo já tenho outra idéia”. E íamos percebendo que por trás daquele aparente caos havia uma ordem composta de uma grande afetividade, de um olhar sensível dirigido aos outros e do desejo de compartilhar o que tinha aprendido com todos que encontrava em seu caminho…
São tantas as boas lembranças que temos dele! Sua chegada inesperada no II Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, em Vila Velha, onde, à luz da janela que dava para o mar, brotou o desejo de fazer o mestrado com Pascal Galvani (chegou a fazer o esboço do projeto). A sua dedicação e entrega à HOLOS 21, na qual ele acreditava. O trabalho de ecoprofissionalização e formação de jovens, sempre apostando no potencial que via neles. O velho carro que vivia encrencado, mas que subiu a Serra da Cantareira sem poder engatar a 1ª. O Conselho de Transdisciplinaridade da Holos que ele queria criar, numa tarde fresca no sítio Borboleta Azul de Mairiporã. E, mais recentemente, a descoberta de ser avô… Pedaços de vida que partilhamos com essa alma antiga de coração jovem.
E como foram ricos, contundentes e amorosos esses encontros! Com ele, nunca se sabia quando seria o próximo, e nem o último. Agora sabemos! Mas ele se foi como sempre esteve – não tinha hora de chegada e nem de partida, mas sempre estava. E continuará estando. Para nossa alegria!
“Parar não existe. Tudo está em movimento… precisamos estabelecer uma dinâmica para a dinâmica da morte. Estar ao seu lado”, dizia ele em 2005.
Tudo isso relembra a nossa impermanência… Há uma urgência no tempo que nos passa despercebida, mas não impune. Há um tempo que é o nosso e passa. Há o tempo que não nos pertence, no qual estamos e que também passa – o tempo do não-dito, do não-realizado, como diz poeticamente Guimarães Rosa.
Há tantas coisas que querem ouvir de nós e não dizemos; tantas outras que queremos dizer e não nos ouvem. Em que grupo estamos? Em que tempo vivemos? No tempo da presença, do estar inteiro no que se faz, do estar disponível para o necessário? Ou no tempo do desperdício no supérfluo, da reclusão dos pequenos interesses, das fobias pessoais e arbitrárias, da arrogância limitadora do egocentrismo?
Qualquer que seja esse tempo, vivemos no fio da navalha… A diferença será para que lado penderemos no final.
Sem ser absoluto… talvez o Xiquinho tenha nos ajudado a intuir possíveis nuances do melhor lado…
Obrigada amigo!
COMPANHIA DE APRENDIZAGEM