Arquivo de Agosto de 2009
Diálogo com o Milenio - Multiplicidade - uma dimensão da Complexidade?

“ Sustentava, entre outras coisas, que as catástrofes inopinadas não são jamais a consequência ou o efeito, como se costumava dizer, de um motivo único, de uma causa singular: mas são como um vórtice, um ponto de depressão ciclônica na consciência do mundo, para os quais conspirava toda uma gama de causalidades convergentes.” p.119. [citação de trecho do romance de Carlo Emilio Garda “ Aquela confusão louca da via Merulana”]
(…) “Quis começar por essa citação por me parecer prestar-se muito bem como intróito ao tema de minha conferência, que é o romance contemporâneo como enciclopédia, como método de conhecimento, e principalmente como rede de conexões entre os fatos, entre as pessoas, entre as coisas do mundo. …Escolhi Gadda não porque se trata de um escritor de minha língua, relativamente pouco conhecido por aqui ( talvez em razão de sua particular complexidade estilística, difícil mesmo para os italianos) , mas sobretudo porque sua filosofia se casa muito bem com seu discurso, no sentido em que ele vê o mundo como um “sistema de sistemas”, em que cada sistema particular condiciona os demais e é condicionado por eles. Carlo Emilio Gadda durante toda sua vida buscou representar o mundo como um rolo, uma embrulhada, um aranzel, sem jamais atenuar-lhe a a complexidade inextricável – ou melhor dizendo, a presença simultânea dos elementos mais heterogêneos que concorrem para a determinação de cada evento.”
Ítalo Calvino, “Multiplicidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.121
Ao Xiquinho nossa sincera homenagem

Eukiko, um personagem humorístico concebido, mas nunca desenhado, foi nele inspirado. “Eukiko, e eu com isso… o que faço com isso”, ele dizia, deixando clara a necessidade de um engajamento pessoal em tudo que se faz e de fazer algo com o que é aprendido: saber-ser e saber-fazer entrelaçados.
Aos poucos, fomos nos habituando com sua outra lógica que, muitas vezes, pedia uma interlocução: _ “A Marly pode explicar melhor o que estou querendo dizer…”, ele solicitava. Era preciso tentar acompanhá-lo pelo intrincado labirinto de idéias e pensamentos: “Quando eu vou dormir digo que eu quero parar de pensar e quando acordo já tenho outra idéia”. E íamos percebendo que por trás daquele aparente caos havia uma ordem composta de uma grande afetividade, de um olhar sensível dirigido aos outros e do desejo de compartilhar o que tinha aprendido com todos que encontrava em seu caminho…
São tantas as boas lembranças que temos dele! Sua chegada inesperada no II Congresso Mundial de Transdisciplinaridade, em Vila Velha, onde, à luz da janela que dava para o mar, brotou o desejo de fazer o mestrado com Pascal Galvani (chegou a fazer o esboço do projeto). A sua dedicação e entrega à HOLOS 21, na qual ele acreditava. O trabalho de ecoprofissionalização e formação de jovens, sempre apostando no potencial que via neles. O velho carro que vivia encrencado, mas que subiu a Serra da Cantareira sem poder engatar a 1ª. O Conselho de Transdisciplinaridade da Holos que ele queria criar, numa tarde fresca no sítio Borboleta Azul de Mairiporã. E, mais recentemente, a descoberta de ser avô… Pedaços de vida que partilhamos com essa alma antiga de coração jovem.
E como foram ricos, contundentes e amorosos esses encontros! Com ele, nunca se sabia quando seria o próximo, e nem o último. Agora sabemos! Mas ele se foi como sempre esteve – não tinha hora de chegada e nem de partida, mas sempre estava. E continuará estando. Para nossa alegria!
“Parar não existe. Tudo está em movimento… precisamos estabelecer uma dinâmica para a dinâmica da morte. Estar ao seu lado”, dizia ele em 2005.
Tudo isso relembra a nossa impermanência… Há uma urgência no tempo que nos passa despercebida, mas não impune. Há um tempo que é o nosso e passa. Há o tempo que não nos pertence, no qual estamos e que também passa – o tempo do não-dito, do não-realizado, como diz poeticamente Guimarães Rosa.
Há tantas coisas que querem ouvir de nós e não dizemos; tantas outras que queremos dizer e não nos ouvem. Em que grupo estamos? Em que tempo vivemos? No tempo da presença, do estar inteiro no que se faz, do estar disponível para o necessário? Ou no tempo do desperdício no supérfluo, da reclusão dos pequenos interesses, das fobias pessoais e arbitrárias, da arrogância limitadora do egocentrismo?
Qualquer que seja esse tempo, vivemos no fio da navalha… A diferença será para que lado penderemos no final.
Sem ser absoluto… talvez o Xiquinho tenha nos ajudado a intuir possíveis nuances do melhor lado…
Obrigada amigo!
COMPANHIA DE APRENDIZAGEM
8 comentários »Dialógo com o Milenio - Tornar visível o mundo interior
Depois de descrever as nuances do processo criativo e da função capital do imaginário nele, Calvino realça:
(…)”…mas sempre revestida por um invólucro imaginoso, afetivo, de vozes monologantes e dialogantes.” p.105
Concluindo:
(…)“Em suma, meu processo procura unificar a geração espontânea das imagens e a intencionalidade do pensamento discursivo. Mesmo quando o impulso inicial vem da imaginação visiva que põe em funcionamento sua lógica própria, mais cedo ou mais tarde ela vai cair nas malhas de uma outra lógica imposta pelo raciocínio e a expressão verbal. Seja como for, as soluções visuais continuam a ser determinantes, e vez por outra chegam inesperadamente a decidir situações que nem as conjeturas do pensamento nem os recursos da linguagem conseguiriam resolver.” p. 106
E volta a instigar o leitor:
(…) Mas há uma outra definição na qual me reconheço plenamente: a da imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.” p. 106
“Digamos que diversos elementos concorrem para formar a parte visual da imaginação literária: a observação direta do mundo real, a transfiguração fantasmática e onírica, o mundo figurativo transmitido pela cultura em seus vários níveis, e um processo de abstração, condensação e interiorização da experiência sensível, de importância decisiva tanto na visualização quanto na verbalização do pensamento.” p. 110
Finalizando numa declaração apaixonante pelo ato da escrita (mais uma vez, trazendo a complementaridade dos opostos):

(…)“ Seja como for , todas as “realidades” e as “fantasias” só podem tomar forma através da escrita, na qual exterioridade e interioridade , mundo e ego, experiência e fantasia aparecem compostos pela mesma matéria verbal; as visões polimorfas obtidas através dos olhos e da alma encontram-se contidas nas linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas, , de parêntesis; páginas inteiras de sinais alinhados, encostados uns aos outros como grãos de areia, representando o espetáculo variegado do mundo numa superfície sempre igual e sempre diversa, como as dunas impelidas pelo vento do deserto. “ p. 114<
Ítalo Calvino, “Visibilidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990
ENCONTROS COM PATRICK PAUL NA ARJUNA - SP
A ARJUNA Livraria e Espaço está promovendo dois encontros com Patrick Paul versando sobre os temas:

Dia 17/08 - 2ª. feira - 19h30 / 22h30
O QUE É SONHAR? Existem diversas abordagens sobre os sonhos: antropológica, psicanalítica, científica, apresentando respostas diferentes, que podem ser divergentes ou convergentes. A problemática do sonho depende da nossa própria representação do mundo. Considerando essa pluralidade de representações e a pluralidade dos seres, e contestando qualquer forma de pensamento único, para abordar os sonhos o autor se remeterá aos diferentes níveis de realidade e aos diferentes níveis lógicos a eles associados.

Dia 21/08 - 6ª. feira - 19h30 / 22h30
Na medicina chinesa tradicional, o corpo é uma imagem do cosmos. Céu e Terra, invisível e visível, temporalidade e espacialidade nele residem, o Yin e o Yang correspondendo, de uma maneira ou de outra, a todo um conjunto de relações dialéticas, nas quais um é inseparável do outro. O real é Um, Dao (Tao), mas sua expressão, sua manifestação passa por um jogo de contraditórios. Portanto, na visão chinesa sempre é necessário pensar em relações e não em separação. No mesmo sentido, a concepção antiga da doença ou da saúde era muito diferente da nossa. A circulação normal das energias, assim como os sintomas da patologia são descritos por dois conjuntos distintos, mas conjugados: um se referindo ao “Céu Anterior”, ao invisível, ao escondido, ator essencial da embriogênese, cuja ação sutil continua ao longo de toda a vida, pois entra na composição da energia circulante nos meridianos; o outro provindo do “Céu Posterior”, particularmente após o nascimento, a fim de entreter a vida física graças à alimentação e à respiração. Essa bipolarização, que todo acupunturista conhece bem, é, na verdade, estruturada pela própria composição dos hexagramas do I Ching.
Inscrições: até 12/08
ARJUNA Livraria e Espaço
Rua Simão Álvares, 923
Vila Madalena 11 3815-8026
São Paulo - SP
agenda@livrariaarjuna.com.br
2 comentários »VI FÓRUM BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Hoje, passados 17 anos, voltou-se a discutir este tratado analisando os pontos que necessitam ser revistos, com foco na sociedade atual, de maneira que este documento realmente possa sair do papel e passar a ser uma prática na vida diária da população. Nesta releitura, foram discutidas as estratégias que precisam ser traçadas para a divulgação dos seus princípios de maneira a potencializar o seu alcance e abrangência.
Os diálogos sobre o tema foram realizados numa metodologia participativa e inclusiva, com a presença do prof. Marcos Sorrentino, coordenador da Comissão Nacional Executora do Tratado de Educação Ambiental, e da profa. Mônica Simons, também integrante desta comissão e que, entre outras atividades, é uma das coordenadoras da Companhia de Aprendizagem.
Neste vídeo, Mônica Simons fala a respeito da II Jornada Internacional do Tratado de Educação Ambiental.
Ref. e Foto: Eduardo Freire
1 comentário »A relação homem/ser é uma relação de identidade?
(…) ” Quando vi a palavra “remembramento” no texto, lembrei-me do mito egípcio de Osiris, que foi enganado por seu irmão Set, aprisionado numa arca e lançado às águas do Nilo.

Depois, para evitar que ele fosse encontrado por Isis, que queria sepultá-lo, Set despedaçou o corpo de Osíris espalhando os pedaços por diversos lugares. Mas Isis, numa busca incansável, conseguiu encontrar e reunir os pedaços, faltando apenas um, que foi engolido por um peixe.
Como Osiris era uma divindade agraria associada ao movimento de germinação-decomposição das plantas, o sentido de morte e regeneração está presente nesse mito. Parece-me que ele também traz um sentido de delimitação, de separação numa individualidade (aprisionamento na arca) que é lançada no fluxo da vida. Em seguida, vem a consciência da mutilação, dissociação, desintegração, fragmentação de um eu plural que ainda não encontrou verdadeiramente a sua singularidade. Isis poderia representar aquela parte em nós que, ciente desse desmembramento, vai em busca dos pedaços para poder reuní-los, uma consciência unificadora. A parte que ficou faltando, engolida pelo peixe, passa o sentido da potencialidade, sempre presente, de uma reintegração em um nível mais elevado e primordial.
Esse mito nos fala dessa busca de uma unidade integrativa de nossas fragmentações.”
Postagem de Marly Segreto sobre a obra Formação do Sujeito e Transdisciplinaridade, de Patrick Paul .
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