Diálogo com o Milênio - A visibilidade e o futuro do potencial criativo humano
Depois de introduzir o tema da visibilidade de forma brilhante, recorrendo a exemplos clássicos na literatura , onde ele foi fundamental (como na obra de Dante por exemplo), Calvino alerta sobre a ” imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.” p. 106
Aprofunda então a questão já levantada no ensaio anterior (Exatidão) nos alertando para os rumos que estamos tomando:
“Resta-me esclarecer a parte que nesse golfo fantástico cabe ao imaginário indireto, ou seja, o conjunto de imagens que a cultura nos fornece , seja ela cultura de massa ou outra forma qualquer de tradição. Esta questão suscita de imediato uma outra: que futuro está reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar a “civilização da imagem”? O poder de evocar imagens in absentia continuará a desenvolver-se numa humanidade cada vez mais inundada pelo dilúvio das imagens pré-fabricadas?
Antigamente a memória visiva de um indivíduo estava limitada ao patrimônio de suas experiências diretas e a um reduzido repertório de imagens refletidas pela cultura; a possibilidade de dar formas a mitos pessoais nascia do modo pelo qual os fragmentos dessa memória se combinavam entre si em abordagens inesperadas e sugestivas.

Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos segundos na televisão. Em nossa memória se depositam, por estratos sucessivos, mil estilhaços de imagens, semelhantes a um depósito de lixo, onde é cada vez menos provável que uma delas adquira relevo.” p.107
Ítalo Calvino, “Visibilidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990
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3 respostas para “ Diálogo com o Milênio - A visibilidade e o futuro do potencial criativo humano ”
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E ele finaliza na página 108:
“Se incluí a Visibilidade em minha lista de valores a preservar foi para advertir que estamos correndo o perigo de perder uma faculdade humana fundamental: a capacidade de pôr em foco visões de olhos fechados, de fazer brotar cores e formas de um alinhamento de caracteres alfabéticos negros sobre uma página branca, de pensar por imagens. Penso numa possível pedagogia da imaginação que nos habitue a controlar a própria visão interior sem sufoca-la e sem, por outro lado deixa-la cair num confuso e passageiro fantasiar, mas permitindo que as imagens se cristalizem numa forma bem definida, memorável, autosuficiente, “icástica”.”
Penso que este alerta que ele nos faz já vale para o que está em curso: antes mesmos de chegar às paginas literárias, estamos perdendo nossa capacidade de ver e ouvir o nosso cotidiano - o que os fatos, as pessoas e circunstancias do dia-a-dia estão nos dizendo e nos indicando? Será que sabemos escuta-los e discernir ou estamos apenas julgando-os e interpretando dentro de nossa estreita visão de um senso comum deformado pela emissão de imagens fragmentadas, parciais e distorcidas que a mídia e a cultura de massa nos impõem? Isso é sério e compromete os resultados concretos de nossas escolhas e de nossas vidas.
Taí nas telas o “Ensaio sobre a Cegueira”, obra magistral de José Saramago transformada em imagens para quem quiser (ou puder!!!) ainda ver …
Querida companheiras de aprendizagem, que grande idéia recuperar Calvino e essa obra singular. Ela me acompanha desde o início dos anos 90, indicada por Ziraldo, veuja só, quando eu dirigia o Menino Quadradinho no Rio. Seis Propostas foi propulsora de muitas transformações no meu ser, no meu pensar e sentir.Foi a abertura para inclusão de olhares ainda não sentidos e experimentados.
A abordagem de Calvino é escancaradamente transD e quando se lê as produções realizadas pelo seu grupo, Oulipo, isso se confirma - inclusão do 3º e contradição escorrega por essas criações.
Meu abraço e carinho
Cléo
Gostei muito do que ele diz sobre a “imaginação como repertório do potencial”, que vai sendo atualizado à medida que se dá uma forma ao que emerge. Fui procurar o significado da palavra “icástico”: 1. que representa nitidamente uma idéia ou um objeto, 2. Sem artifícios ou adorno; sendo sinônimo de icônico.
Calvino nos convida a olhar p/ a imaginação e reconhecer sua importância como função criadora. Ela é o antídoto para o veneno dos clichês.