Blog da Companhia de Aprendizagem

Isso e aquilo

Para tratar de um tema que me parece importante na maneira como I. Calvino aborda suas seis propostas, vou utilizar um exemplo extraído de sua própria obra: O visconde partido ao meio (1951).

A trama é centrada na figura de um nobre senhor de terras do século XVII: o visconde Medrado Di Terralba. Ao participar das lutas entre cristãos e turcos, o visconde é atingido e quase estilhaçado por uma bala de canhão. O que sobrou de Medrado é recolhido ao hospital da tropa e, fantástica e maravilhosamente, ele sobrevive com um só braço, uma só perna, meia boca e um único olho.

Essa mutilação do visconde foi desastrosa para os moradores de Terralba, pois parecia ter sido o seu lado mau que sobrevivera, voltando aos seus domínios. Ele cavalgava espalhando pânico e terror por onde passava. Mas, para surpresa dos camponeses, ora ele se divertia com suas crueldades, ora era visivelmente generoso com todos e espalhava o bem. Então, seria a outra parte, a boa, que estava de volta? Os camponeses se viram confusos e divididos devido às peripécias contraditórias de Medrado.

Nessa obra, Calvino expõe a maneira fragmentária com que, em nossa cultura, vemos o mundo e a nós mesmos a partir de uma lógica de pensamento que considera que apenas um lado deve permanecer: ou isso ou aquilo.

A propósito de O visconde partido ao meio Calvino escreveu: “Penso que o divertimento seja uma coisa séria”. Essa lógica que admite a coexistência dos contrários, no caso divertimento e seriedade, pode ser encontrada em cada uma das propostas para o próximo milênio: leveza e peso, rapidez e retardamento (contração e dilatação do tempo), exatidão e imprecisão (cristal e chama) que preparam o terreno para a 5ª proposta: multiplicidade. E como ele mesmo diz: “Qualquer valor que escolha como tema de minhas conferências… não pretende excluir o seu valor contrário”.

Ele acentua, então, a impossibilidade de uma compreensão somente a partir da lógica racional binária (aristotélica), do “ou isso ou aquilo”, indicando a possibilidade de outras lógicas de pensamento que admitem os contraditórios: “isso e aquilo”.

Escher   Sol e Lua - Escher   Sol e Lua

“Dois princípios ou noções antagonistas deveriam aparentemente repelir um ao outro, mas eles são indissociáveis e indispensáveis para compreender uma mesma realidade”, diz Edgar Morin.

Meu objetivo é destacar o quanto é importante estarmos atentos à lógica que orienta os nossos pensamentos e constrói nossa visão de mundo e de nós mesmos, procurando sair do predomínio de uma lógica de exclusão e admitir outras lógicas que abarquem nossa diversidade e nossas contradições.

A importância do tema pode ser medida pela realização dos Ateliês sobre a contradição: nova força de desenvolvimento em ciência e sociedade, pela École Nationale Supérieure des Mines – Saint Etienne – França, em março de 2009, reunindo representantes de diversas áreas do conhecimento: ciência, filosofia, política, arte, religião, etc., com a participação de Basarab Nicolescu (CIRET) e de Maria F. de Mello e Vitória Mendonça de Barros (CETRANS). Lembrando que um dos pilares da Transdisciplinaridade é a lógica do 3º incluído, estreitamente relacionado aos outros dois pilares: complexidade e níveis de realidade.

CALVINO, Ítalo. O visconde partido ao meio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

CALVINO, Ítalo. Os nossos antepassados. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 (contendo, como no original de 1951: O visconde partido ao meio, O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente).

Imagem: Escher – Sol e Lua

Marly



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5 respostas para “ Isso e aquilo ”

  1. TCris Julho 10th, 2009 12:15

    “ _Ô Pamela, isso é o bom de ser partido ao meio: entender de cada pessoa e coisa no mundo; a tristeza que cada um e cada uma sente pela própria incompletitude. Eu era inteiro e não entendia, e me movia surdo e incomunicável entre as dores e as feridas disseminadas por todos os lados, lá onde, inteiro, alguém ousa acreditar menos. Não só eu, Pamela, sou um ser dividido e desarraigado, mas você também, e todos. Mas, agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender a sofrer com os males de cada um e tratar dos seus tratando dos deles.” (O visconde partido ao meio - p.73)

  2. leda Julho 10th, 2009 20:38

    A velha questão do bem e mal desde o inicio da genese .
    A arvore da vida, e a arvore do bem x mal.
    Duas árvores:uma conduz e mantem a eternidade , a outra é dual e mortal.
    Optamos pela maça do bem e mal, e caimos por esse mesmo bem e mal…o q cuidou deus para q depois de descobrir essa dualidade ,o homem não se apoderasse da arvore da vida pois seria desastroso entregar o a arvore da vida para um conhecedor apenas do bem e mal.( ego).prisão eterna.
    A questão é que ficamos tambem partidos ao meio( adão-eva), esquecendo que essa dualidade nasce colada uma na outra,prazer e dor, luz e trevas, dia e noite…e tudo q ja experienciamos por esses milhares de anos……..se juntamos o “isso com aquilo” temos o flagrante da nossa realidade. Tentamos encontrar um caminho no meio( BUDA), para que as extremidades fossem minimizadas….ou quem sabe,
    depois de tanto giro entre alegria e sofrimento esse enjoo nos fizesse vomitar a propria vida.
    ..e pela dor que o “isso” e “aquilo” traz como efeito coletaral,alçamos nosso grito de verdadeira libertação.

    (tentei colocar em outra liguagem o texto:
    ” Mas, agora, tenho uma fraternidade que antes, inteiro, não conhecia: aquela com todas as mutilações e as faltas do mundo. Se vier comigo, Pamela, vai aprender a sofrer com os males de cada um e tratar dos seus tratando dos deles.”

    Esse é o consolo dos partidos ao meio. Dividir e partilhar a dor como forma errada de resgatar a integridade plena.

  3. Isabel Duarte Julho 10th, 2009 20:59

    Eu acho muito interessante essa visão de que cada um de nós possui em si mesmo a condição de superar suas fraquesas.
    Com o nosso lado bom executamos aquelas funções, que o outro lado não consegue executar.Eu vivenciei e ainda vivencio essa dificuldade, quando tive o cancer de mama.
    E a nível psicolológico também conseguimos alcançar bons resultados, que nos ajudam a tolerar e até aceitar os diferentes.Podemos sair duma limitação, considerando que muitos deficientes se comportam com mais coragem e empenho para realizar suas tarefas.

  4. Marly Julho 11th, 2009 01:08

    Tristeza pela nossa incompletude… Aí está uma questão sempre presente. Mas vejo que, por um lado, é salutar, pois quando nos sentimos (ilusoriamente) completos corremos o risco de estagnar. É a percepção e consciência da nossa incompletude que impulsiona as nossas transformações.

    Outra coisa é a fragmentação, a divisão, a separação… a dualidade, pois nos impede de perceber que dentro e fora de nós tudo está inter-relacionado, é interdependente, mesmo que haja uma singularidade em cada expressão de vida.

    Percebo um caminho que inicia quando nos damos conta de que estamos presos na armadilha do “ou isso ou aquilo”: ou bom ou mau, ou belo ou feio, ou saudável ou doente… ou positivo ou negativo. Isso contamina toda a visão, o sentimento, o direcionamento da nossa vida. E começamos a ter consciência de que em nossa existência tudo tem os dois lados, as duas faces da moeda… “isso e aquilo”.

    Então, começamos a perceber que pode haver um positivo do negativo e um negativo do negativo; um positivo do positivo e um negativo do positivo… A saude/doença, a beleza/feiura, o bem/mal começam a adquirir um outro sentido para nós, pois cada dos polos pode conter o outro e o seu contrário, basta estarmos atentos para perceber isso. Quantas descobertas importantes podem ser feitas quando estamos doentes, que não ocorreriam num momento de aparente saúde e nem se só víssemos o seu lado negativo. E quanto podemos nos enganar por uma busca frenetica de saúde, que encobre uma doença.

    E, assim, caminhando para uma ampliação de nossa consciência, quem sabe possamos chegar ao ponto de perceber o “nem isso nem aquilo”, o que É o que É, que ultrapassa todas as dualidades…

  5. TCris Julho 11th, 2009 11:56

    Meninas: que beleza de reflexão!

    Calvino gostaria de saber que o cristal tomou uma de suas formas entre as múltiplas possíveis … através de nossas palavras que criam uma zona de ordem em nós memsmas - um mesmo cristal cujo brilho parece impossível de ser captado por uma única faceta, ela que no entanto, revela o mesmo brilho. Morin diria a Unidade na multiplicidade, Leloup diria A Presença e outros diriam outras coisas para tentar dizer o Indizível. E´o relativo querendo completar-se no Absoluto:

    “Na verdade, minha escrita sempre se defrontou com duas estradas divergentes que correspondem a dois tipos diversos de conhecimento: uma que se move no espaço mental de uma racionalidade desincorporada, em que se podem traçar linhas que conjugam pontos, projeções, formas abstratas, vetores de forças; outra que se move num espaço repleto de objetos e busca criar um equivalente verbal daquele espaço enchendo a página com palavras, num esforço de adequação minuciosa do escrito com o não-escrito, da totalidade do dizível com o não-dizível. São duas pulsões distintas no sentido da exatidão que jamais alcançam a satisfação absoluta: em primeiro lugar porque as línguas naturais dizem sempre algo mais em relação às linguagens formalizadas, comportam sempre uma quantidade de rumor que perturba a essencialidade da informação; em segundo, porque ao se dar conta da densidade e da continuidade do mundo que nos rodeia, a linguagem se revela lacunosa, fragmentária, diz sempre algo menos com respeito à totalidade do experimentável.”

    Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.88

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