Arquivo de 9 de Julho de 2009
Isso e aquilo
Para tratar de um tema que me parece importante na maneira como I. Calvino aborda suas seis propostas, vou utilizar um exemplo extraído de sua própria obra: O visconde partido ao meio (1951).
A trama é centrada na figura de um nobre senhor de terras do século XVII: o visconde Medrado Di Terralba. Ao participar das lutas entre cristãos e turcos, o visconde é atingido e quase estilhaçado por uma bala de canhão. O que sobrou de Medrado é recolhido ao hospital da tropa e, fantástica e maravilhosamente, ele sobrevive com um só braço, uma só perna, meia boca e um único olho.
Essa mutilação do visconde foi desastrosa para os moradores de Terralba, pois parecia ter sido o seu lado mau que sobrevivera, voltando aos seus domínios. Ele cavalgava espalhando pânico e terror por onde passava. Mas, para surpresa dos camponeses, ora ele se divertia com suas crueldades, ora era visivelmente generoso com todos e espalhava o bem. Então, seria a outra parte, a boa, que estava de volta? Os camponeses se viram confusos e divididos devido às peripécias contraditórias de Medrado.
Nessa obra, Calvino expõe a maneira fragmentária com que, em nossa cultura, vemos o mundo e a nós mesmos a partir de uma lógica de pensamento que considera que apenas um lado deve permanecer: ou isso ou aquilo.
A propósito de O visconde partido ao meio Calvino escreveu: “Penso que o divertimento seja uma coisa séria”. Essa lógica que admite a coexistência dos contrários, no caso divertimento e seriedade, pode ser encontrada em cada uma das propostas para o próximo milênio: leveza e peso, rapidez e retardamento (contração e dilatação do tempo), exatidão e imprecisão (cristal e chama) que preparam o terreno para a 5ª proposta: multiplicidade. E como ele mesmo diz: “Qualquer valor que escolha como tema de minhas conferências… não pretende excluir o seu valor contrário”.
Ele acentua, então, a impossibilidade de uma compreensão somente a partir da lógica racional binária (aristotélica), do “ou isso ou aquilo”, indicando a possibilidade de outras lógicas de pensamento que admitem os contraditórios: “isso e aquilo”.

“Dois princípios ou noções antagonistas deveriam aparentemente repelir um ao outro, mas eles são indissociáveis e indispensáveis para compreender uma mesma realidade”, diz Edgar Morin.
Meu objetivo é destacar o quanto é importante estarmos atentos à lógica que orienta os nossos pensamentos e constrói nossa visão de mundo e de nós mesmos, procurando sair do predomínio de uma lógica de exclusão e admitir outras lógicas que abarquem nossa diversidade e nossas contradições.
A importância do tema pode ser medida pela realização dos Ateliês sobre a contradição: nova força de desenvolvimento em ciência e sociedade, pela École Nationale Supérieure des Mines – Saint Etienne – França, em março de 2009, reunindo representantes de diversas áreas do conhecimento: ciência, filosofia, política, arte, religião, etc., com a participação de Basarab Nicolescu (CIRET) e de Maria F. de Mello e Vitória Mendonça de Barros (CETRANS). Lembrando que um dos pilares da Transdisciplinaridade é a lógica do 3º incluído, estreitamente relacionado aos outros dois pilares: complexidade e níveis de realidade.
CALVINO, Ítalo. O visconde partido ao meio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
CALVINO, Ítalo. Os nossos antepassados. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 (contendo, como no original de 1951: O visconde partido ao meio, O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente).
Imagem: Escher – Sol e Lua
Marly
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