” Esta conferencia não se deixa conduzir na condição que me havia proposto. Eu me propunha falar da exatidão e não do infinito e do cosmo. Queria lhes falar da minha predileção pelas formas geométricas, pelas simetrias, pelas séries, pela análise combinatória, pelas proporções numéricas, explicar meus escritos em função de minha fidelidade a uma idéia de limite, de medida… Mas quem sabe não será precisamente essa idéia de limite que suscita a idéia das coisas que não tem fim, como a sucessão dos números inteiros ou as retas euclidianas?…
Em vez de lhes contar como escrevi aquilo que escrevi, talvez fosse mais interessante falar dos problemas que ainda não resolvi, que não sei como resolver e que tipo de coisa eles me levarão a escrever…
Às vezes procuro concentrar-me na história que gostaria de escrever e me dou conta de que aquilo que me interessa é uma outra coisa diferente, ou seja, não uma coisa determinada mas tudo que fica excluído daquilo que eu deveria escrever: a relação entre esse argumento determinado e todas as suas variantes e alternativas possíveis, todas as manifestações que o tempo e o espaço possam conter. E´uma obsessão devorante, destruidora, suficiente para me bloquear. Para combate-la, procuro limitar o campo do que pretendo dizer, depois dividi-lo em campos ainda mais limitados, depois subdividir também estes, e assim por diante. Uma outra vertigem então se apodera de mim, a do detalhe do detalhe do detalhe. Vejo-me tragado pelo infinitesimal, pelo infinitamente mínimo, como antes me dispersava no infinitamente vasto.”
Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990 P.83

Logo adiante, após aprofundar essa reflexão, ele conclui:
“O universo desfaz-se numa nuvem de calor, precipita-se irremediavelmente num abismo de entropia, mas no interior desse processo irreversível podem aparecer zonas de ordem, porções do existente que tendem para uma forma, pontos privilegiados nos quais podemos perceber um desenho, uma perspectiva. A obra literária é uma dessas mínimas porções nas quais o existente se cristaliza numa forma, adquire um sentido, que não é nem fixo, nem definido, nem enrijecido numa imobilidade mineral, mas tão vivo quanto um organismo.” p.84
Que lindo ! a literatura é uma zona de ordem, tão viva quanto um organismo e que produz sentido! Uma excelente imagem para pautarmos nossa vida. Adorei!
A mente reflete os mecanismos de sua formação, repetindo o modelo fracionado , ampliando, unindo, expandindo, analisando e sintetizando como um gozo a coplexidade posta numa frase precisa.
O deleite do leitor, se refina nas entrelinhas que unidas a logica longitudinal, tenta erguer-se na viga da comunhão literal entre escrita e leitura… gerando novas sinapse viciadas em ler e ler e ler, com os mesmos espasmos que a nossa mente pensa que entendeu,entregando-se repousada em conclusões inacabadas… alimentadas por repetidas leituras.
Em poucas linhas, Calvino nos fala do limite que remete ao ilimitado, do caos que remete à ordem, do macrocosmo que remete ao microcosmo… É todo um universo!
E nessa busca da exatidão ele se defronta com o imprevisível, com o que não se deixa conduzir…
E o ato de escrever se transforma numa espécie de luta entre a vontade concentrada e o desejo de uma variação contínua descentrada: árvore e rizoma…
E ele se vê tragado pelo infinitesimal do mesmo modo que disperso na vastidão infinita… assim em cima como embaixo…
E tudo isso se cristaliza em uma forma… E o cristal se torna um emblema…