Blog da Companhia de Aprendizagem

Arquivo de Julho de 2009

Os delírios imagéticos de Ghuga Távora

Ele é o homem dos mil braços e idéias; é do Recife - PE , mas sassarica por todo este país (e fora dele) fotografando, criando e reinventando as coisas. Nos seus “delírios imagéticos” Ghuga Távora realizou em Belo Horizonte mais um Happening Hours com a instalação “Quem dera ser um peixe”, da qual faz parte essa bela imagem abaixo que foi projetada no teto do local do evento.

quem dera ser um peixe - Ghuga tàvora - http://www.ima

Sobre o processo de criação desta imagem ele conta:

_ “Eu fotografei no Mercado Central de BH… Dai peguei aqueles filmes plásticos de embalar comida… criei um Rio com ele e as fotos suspensas nele…Super simples… e a Instalação custou R$ 8,00!!! . Tudo é POP UP! Já vem pronto! …[o título] vem da musica do Fagner. É mais rápido que o raciocinio.. um contato direto com a inspiração. O Happening foi todo produzido e ambientado pela produção deles… a galera Imaginauta de Belô! O blog é participativo e cooperativo…é a minha ideia de rede-criativo-produtiva.

Talento é pra quem tem e aproveita!!! O Ghuga tá pensando em fazer uma oficina de fotografia aqui em São Paulo e então, a gente avisa os interessados.

Confira tudo em http://www.imaginautasbelo.blogspot.com/

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Diálogo com o Milênio - A visibilidade e o futuro do potencial criativo humano

Depois de introduzir o tema da visibilidade de forma brilhante, recorrendo a exemplos clássicos na literatura , onde ele foi fundamental (como na obra de Dante por exemplo), Calvino alerta sobre a ” imaginação como repertório do potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.” p. 106

Aprofunda então a questão já levantada no ensaio anterior (Exatidão) nos alertando para os rumos que estamos tomando:

“Resta-me esclarecer a parte que nesse golfo fantástico cabe ao imaginário indireto, ou seja, o conjunto de imagens que a cultura nos fornece , seja ela cultura de massa ou outra forma qualquer de tradição. Esta questão suscita de imediato uma outra: que futuro está reservado à imaginação individual nessa que se convencionou chamar a “civilização da imagem”? O poder de evocar imagens in absentia continuará a desenvolver-se numa humanidade cada vez mais inundada pelo dilúvio das imagens pré-fabricadas?

Antigamente a memória visiva de um indivíduo estava limitada ao patrimônio de suas experiências diretas e a um reduzido repertório de imagens refletidas pela cultura; a possibilidade de dar formas a mitos pessoais nascia do modo pelo qual os fragmentos dessa memória se combinavam entre si em abordagens inesperadas e sugestivas.

1116830 reflections - 1116830 reflections

Hoje somos bombardeados por uma tal quantidade de imagens a ponto de não podermos distinguir mais a experiência direta daquilo que vimos há poucos segundos na televisão. Em nossa memória se depositam, por estratos sucessivos, mil estilhaços de imagens, semelhantes a um depósito de lixo, onde é cada vez menos provável que uma delas adquira relevo.” p.107

Ítalo Calvino, “Visibilidade”, in Seis propostas para o próximo milênio.
Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990

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Diálogo com o Milenio - O elo entre dois níveis de realidade

[Calvino citando Francis Ponge] (…) “o melhor exemplo de um poeta que se bate com a linguagem das coisas, que parte das coisas e retorna a nós trazendo consigo toda a carga humana que nelas havíamos investido…que reconstrói a fisicidade do mundo por meio da impalpável poeira das palavras”.

Ele continua citando direções divergentes e complementares que o texto pode tomar:

“em Mallarmé a palavra atinge o máximo de exatidão tocando o extremo da abstração e apontando o nada como substância ultima do mundo; em Ponge o mundo tem a forma das coisas mais humildes, contingentes e assimétricas, e a palavra é o meio de dar conta da variedade infinita dessas formas irregulares e minuciosamente complexas.”

www.sxc.hu//   dna   -

E finaliza: “A palavra associa o traço visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil passarela improvisada sobre o abismo.”

Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.90

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Coração de água e madeira

Da Amazonia, Du Bois, nosso companheiro de aprendizagem tem mandado Cartas amazônicas.

Du Bois - gigante da amazonia

De madeira lilás ( ninguém me crê )
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e porque abriga
em seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói?, pergunta quem me vê
os braços verdes, os olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas densas que me deram raça
e cantam nas raízes do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras.
Já não faz mal que doa
meu bravo coração de água e madeira.

Thiago de Mello - O animal da floresta
Barreirinha, fim de 2000

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Isso e aquilo

Para tratar de um tema que me parece importante na maneira como I. Calvino aborda suas seis propostas, vou utilizar um exemplo extraído de sua própria obra: O visconde partido ao meio (1951).

A trama é centrada na figura de um nobre senhor de terras do século XVII: o visconde Medrado Di Terralba. Ao participar das lutas entre cristãos e turcos, o visconde é atingido e quase estilhaçado por uma bala de canhão. O que sobrou de Medrado é recolhido ao hospital da tropa e, fantástica e maravilhosamente, ele sobrevive com um só braço, uma só perna, meia boca e um único olho.

Essa mutilação do visconde foi desastrosa para os moradores de Terralba, pois parecia ter sido o seu lado mau que sobrevivera, voltando aos seus domínios. Ele cavalgava espalhando pânico e terror por onde passava. Mas, para surpresa dos camponeses, ora ele se divertia com suas crueldades, ora era visivelmente generoso com todos e espalhava o bem. Então, seria a outra parte, a boa, que estava de volta? Os camponeses se viram confusos e divididos devido às peripécias contraditórias de Medrado.

Nessa obra, Calvino expõe a maneira fragmentária com que, em nossa cultura, vemos o mundo e a nós mesmos a partir de uma lógica de pensamento que considera que apenas um lado deve permanecer: ou isso ou aquilo.

A propósito de O visconde partido ao meio Calvino escreveu: “Penso que o divertimento seja uma coisa séria”. Essa lógica que admite a coexistência dos contrários, no caso divertimento e seriedade, pode ser encontrada em cada uma das propostas para o próximo milênio: leveza e peso, rapidez e retardamento (contração e dilatação do tempo), exatidão e imprecisão (cristal e chama) que preparam o terreno para a 5ª proposta: multiplicidade. E como ele mesmo diz: “Qualquer valor que escolha como tema de minhas conferências… não pretende excluir o seu valor contrário”.

Ele acentua, então, a impossibilidade de uma compreensão somente a partir da lógica racional binária (aristotélica), do “ou isso ou aquilo”, indicando a possibilidade de outras lógicas de pensamento que admitem os contraditórios: “isso e aquilo”.

Escher   Sol e Lua - Escher   Sol e Lua

“Dois princípios ou noções antagonistas deveriam aparentemente repelir um ao outro, mas eles são indissociáveis e indispensáveis para compreender uma mesma realidade”, diz Edgar Morin.

Meu objetivo é destacar o quanto é importante estarmos atentos à lógica que orienta os nossos pensamentos e constrói nossa visão de mundo e de nós mesmos, procurando sair do predomínio de uma lógica de exclusão e admitir outras lógicas que abarquem nossa diversidade e nossas contradições.

A importância do tema pode ser medida pela realização dos Ateliês sobre a contradição: nova força de desenvolvimento em ciência e sociedade, pela École Nationale Supérieure des Mines – Saint Etienne – França, em março de 2009, reunindo representantes de diversas áreas do conhecimento: ciência, filosofia, política, arte, religião, etc., com a participação de Basarab Nicolescu (CIRET) e de Maria F. de Mello e Vitória Mendonça de Barros (CETRANS). Lembrando que um dos pilares da Transdisciplinaridade é a lógica do 3º incluído, estreitamente relacionado aos outros dois pilares: complexidade e níveis de realidade.

CALVINO, Ítalo. O visconde partido ao meio. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

CALVINO, Ítalo. Os nossos antepassados. São Paulo: Companhia das Letras, 1997 (contendo, como no original de 1951: O visconde partido ao meio, O barão nas árvores e O cavaleiro inexistente).

Imagem: Escher – Sol e Lua

Marly

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Diálogo com o Milênio - Uma ponte da exatidão ao infinito

www.sxc.hu// -  fog over the golden gate bridge


” Esta conferencia não se deixa conduzir na condição que me havia proposto. Eu me propunha falar da exatidão e não do infinito e do cosmo. Queria lhes falar da minha predileção pelas formas geométricas, pelas simetrias, pelas séries, pela análise combinatória, pelas proporções numéricas, explicar meus escritos em função de minha fidelidade a uma idéia de limite, de medida… Mas quem sabe não será precisamente essa idéia de limite que suscita a idéia das coisas que não tem fim, como a sucessão dos números inteiros ou as retas euclidianas?…

Em vez de lhes contar como escrevi aquilo que escrevi, talvez fosse mais interessante falar dos problemas que ainda não resolvi, que não sei como resolver e que tipo de coisa eles me levarão a escrever…

Às vezes procuro concentrar-me na história que gostaria de escrever e me dou conta de que aquilo que me interessa é uma outra coisa diferente, ou seja, não uma coisa determinada mas tudo que fica excluído daquilo que eu deveria escrever: a relação entre esse argumento determinado e todas as suas variantes e alternativas possíveis, todas as manifestações que o tempo e o espaço possam conter. E´uma obsessão devorante, destruidora, suficiente para me bloquear. Para combate-la, procuro limitar o campo do que pretendo dizer, depois dividi-lo em campos ainda mais limitados, depois subdividir também estes, e assim por diante. Uma outra vertigem então se apodera de mim, a do detalhe do detalhe do detalhe. Vejo-me tragado pelo infinitesimal, pelo infinitamente mínimo, como antes me dispersava no infinitamente vasto.”

Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990 P.83

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