Dialogo com o Milênio - sob a lógica da complementaridade
Depois de um longo passeio por aguns exemplos literários que incluem a poética do italiano Giacomo Leopardi que sustentava “que a linguagem será tanto mais poética quanto mais vaga e imprecisa for[lembrando que partindo do significado original (wandering) , a palavra “vago” traz consigo uma idéia de movimento e mutabilidade, que se associa em italiano tanto ao incerto e indefinido quanto à graça e ao agradável]:

“…a luz do sol ou da lua, vista de um lugar de onde não se possa vê-los ou não se possa descobrir a fonte luminosa, um lugar somente em parte iluminado por essa luz; o reflexo dessa luz; e os vários efeitos materiais que dela resultam; o penetrar dessa luz em lugares onde ela se torne incerta e impedida, e mal se possa distingui-la, como através de um canavial, uma floresta, uma porta de varanda entreaberta, etc. … todos estes lugares onde a luz se confunde, etc…com as sombras, como sob um pórtico, uma varanda elevada e pênsil, em meio aos penhascos e despenhadeiros, ou num vale, sobre as colinas vistas da parte da sombra, de modo a que estejam dourados os cimos; …todos esses objetos, em suma, que por diversas circunstâncias materiais e ínfimas se apresentam à nossa vista, ouvido, etc de maneira incerta, imperfeita, incompleta ou fora do ordinário, etc.”
Eis o que Leopardi exige de nós para podermos apreciar a beleza do vago e do indeterminado! Para se alcançar a imprecisão desejada, é necessário a atenção extremamente precisa e meticulosa que ele aplica na composição de cada imagem, na definição minuciosa dos detalhes, na escolha dos objetos, da iluminação, da atmosfera. Assim Leopardi, que eu havia escolhido como contraditor ideal da minha apologia da exatidão, acaba se revelando uma testemunha decisiva a meu favor. O poeta do vago só pode ser o poeta da precisão, que sabe colher a sensação mais sutil com olhos, ouvidos e mãos prontos e seguros. “
Ítalo Calvino, “Exatidão”, in Seis propostas para o próximo milênio. Trad. de Ivo Barroso, São Paulo: Companhia das Letras, 1990. p.75
| Enviar por e-mail | Hits para esta publicação: 100
Uma resposta para “ Dialogo com o Milênio - sob a lógica da complementaridade ”
Deixe uma resposta.
Logo adiante ele cita:
” Exatidão e indeterminação são igualmente os pólos entre os quais oscilam as conjeturas filosóficas de Ulrich, no imenso e mesmo assim inacabado romance de Robert Musil [O homem sem qualidades]:
“… Se o elemento observado for a própria exatidão, se o isolarmos e o deixarmos desenvolver, se o considerarmos como um hábito do pensamento e uma atitude de vida, e permitirmos que a sua força exemplar aja sobre tudo que entra em contato com ele, chegaremos então a um homem no qual se opera uma aliança paradoxal de precisão e indeterminação. Ele possuirá esse sangue frio deliberado, incorruptível, que é o próprio sentimento da exatidão; mas afora tal qualidade, todo resto será indeterminado.” (p.79)
Fiquei com vontade de ler esse livro…imenso…do Musil! Os livros ainda não lidos sempre nos reaparecem, nos “assombram”…