Apresentamos aqui o Edson Struminski (Du Bois), companheiro de Aprendizagem quando se trata de Calvino. Ele é montanhista e traçou um paralelo entre a proposta de Exatidão de Calvino e o montanhismo, no seu artigo Escalando com Ítalo Calvino, parte 3 postado em Abril de 2009.
Fomos lá conferir, postamos um comentário e ele gentilmente nos retornou. Enquanto isso confira alguns trechos que ele escreveu:
“Calvino nos lança esta pergunta. Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Ele nos lembra, finalmente, que cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis, por isto, para ele, escrever vale à pena.”

Momentos de partilha que o montanhismo oferece…
“Gostaria de terminar esta minha análise do livro do escritor italiano Ítalo Calvino em que ele apresentou propostas para o novo milênio (1), imaginando que se houver um leitor, mesmo que somente um entre os tantos que passam por este blog diariamente, que eventualmente se torne uma pessoa interessada nas propostas de Calvino para aperfeiçoar a literatura e que enxergue nestas propostas uma estranha, ainda que possível fonte de diálogo com o montanhismo (e com possibilidade de aperfeiçoá-lo), então estes textos terão valido a pena ser escritos.”
Valeu, Edson!
Conheça na íntegra o artigo acessando o link.
Edson:
Foi para nós um prazer conhece-lo e aos seus escritos. Esperamos te-lo como um companheiro de aprendizagem!
Avançando na leitura do ensaio sobre a Exatidão, onde a um determinado ponto Calvino tão bem ilustra o binômio exatidão-indeterminação, me lembrei do não menos famoso conto do brasileiro Guimarães Rosa, “A terceira margem do rio”, de onde transcrevo um trecho bem ilustrativo da descrição minuciosa do que se fazia (exatidão de linguagem) com a indeterminação do destino da ação feita (e que se mantem até o final do relato):
(…)” Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. “
Vou atender ao gentil convite da Teresa e falar um pouco do montanhismo, mas para ser coerente com o público deste blog, vou apresentar o montanhismo através da sua faceta literária.
A partir do momento em que as montanhas começaram a ser encaradas (na Europa) não apenas como meros obstáculos naturais ou inutilidades, mas sim como espaço de exploração geográfica, ideais de beleza da natureza, curiosidades científicas ou meros espaços de lazer, surgiu gente escrevendo sobre elas. Eu ignoro quando surgiu a literatura de montanha, mas para mim é bem claro que as montanhas proporcionam bem mais que meras pistas para competições ou para atividades esportivas vazias (esportes radicais como diz a mídia), onde o que conta é somente a quantidade de adrenalina desprendida, como acontece com outros esportes na natureza e sim, espaços para uma profunda reflexão sobre a condição humana. Basta consultar a listagem de livros relacionados ao assunto, a ampla literatura de montanha.
As aventuras que os montanhistas fazem são muito expressivas, algumas estão no limite físico e mental das possibilidades humanas. Só encontrei paralelo do montanhismo em outras situações extremas humanas. Relatos de viagens de navio, aventuras nos pólos da Terra, episódios de guerra, coisas do gênero.
Hoje a literatura de montanha vai bem além do pensamento europeu, pois se pratica montanhismo no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Para um mesmo episódio trágico que aconteceu no monte Everest, a mais alta do mundo, em 1996, já surgiu uma batelada de livros, produzidos, por uma ampla gama de pessoas, como por exemplo, um livro de um jornalista americano (Krakauer), de um montanhista russo (Boukreev) e de um tibetano (Norgay), todos os livros em português, com grande tiragem.
Mas produzir literatura de montanha exige não só currículo e amadurecimento, talvez por isto ainda estejamos tateando, aqui no Brasil, nesta área. Nós temos excelentes montanhistas, homens e mulheres, muita gente escreve por aqui, blogs, até mesmo livros, mas a produção literária exige muito daquilo que Calvino sugeriu nas suas propostas literárias para este milênio: leveza, precisão, etc. e isto não se adquire apenas com experiências maravilhosas e expressivas nas montanhas. Mas acredito que estamos avançando e aos poucos poderemos ver surgir a nossa própria literatura de montanha.
Caro Edson, é um grande prazer tê-lo conosco! Se há uma coisa que apreciamos é a diversidade de olhares, sempre tão enriquecedora. Mesmo que voltadas especificamente ao montanhismo, suas reflexões contribuem com as nossas, mostrando a possibilidade de ampliarmos nosso olhar sobre as propostas de Calvino: da literatura para as diferentes práticas e para a vida.
Como vc diz “as montanhas proporcionam bem mais que meras pistas para competições ou para atividades esportivas vazias (esportes radicais como diz a mídia), onde o que conta é somente a quantidade de adrenalina desprendida, como acontece com outros esportes na natureza e sim, espaços para uma profunda reflexão sobre a condição humana”.
Nesse sentido, a literatura da montanha que vc busca aliada à sua vivência na montanha e às reflexões que vem fazendo me parecem indicar um caminho que, certamente, poderá desembocar em uma obra. Então, escreva e escreva e escreva… E quando estiver escalando, seja um montanhista-escritor- poeta… em formação…
Em homenagem ao Edson e também ilustrando a exatidão, transcrevo um trecho do relato de viagem de Bashô (citado em outra postagem):
“No oitavo dia escalei o monte Gessan [monte da Lua]. Usava um cachecol de algodão nos ombros e um capus branco na cabeça. Conduzido pelo guia, caminhei oito ris sobre neves, sob nuvens e entre névoas. Era como andar por essas paragens de bruma nas rotas do sol e da lua. Ao chegar ao cume, o corpo gelado e a respiração entrecortada, o sol se punha e a lua aparecia. Cortei ervas que nascem junto ao bambu para usá-las como travesseiro, me estendi e esperei que amanhecesse. Quando as sombras se dissiparam e o sol apareceu, pus-me de pé e iniciei minha caminhada em direção a Yudono. (…) Sentei-me sobre uma pedra e enquanto descansava descobria uma árvore de cerejeira (…), com as flores entreabertas. Maravilhosa lição a desta cerejeira tardia, que não esquecia a primavera, mesmo sepultada sobre a neve. (…) Segundo as leis dos peregrinos budistas, está proibido dar pormenores do que veem os olhos neste monte; obedeço e me calo…”
E ele escreve o poema:
Picos de nuvens
sobre o monte lunar:
feitos, desfeitos.
Que beleza de interação!
Escreva Edson, escreva!!! que mundos se pode criar e desvelar a partir da escrita ou como disse Calvino em algum momento, retomando o personagem Sagredo (citado em Diálogo sobre os grandes sistemas, fim da primeira jornada, de Galileu Galilei) que faz o elogio da mais bela invenção humana, a do alfabeto, dizendo:
“Mas pairando acima de todas essas invenções estupendas, a que altura superior estava a mente daquele que se propôs inventar um modo de comunicar seus mais recônditos pensamentos a não importa que outra pessoa, por mais extenso que fosse o intervalo de tempo e espaço existente entre ambos? Falar com alguém que estivesse nas Índias ou com aqueles que ainda não nasceram ou que irão nascer só daqui a mil ou dez mil anos? E com que facilidade! Com as combinações variáveis de vinte pequenos caracteres numa folha de papel”.
quanta coisa bonita escrita aqui…
enquanto vocês escrevem, eu leio…
beijo, companheiros de escalada!
Lana, vc também escreve, escreve e escreve…
Que tal nos brindar aqui com sua poesia premiada? Eu gostei muito e acho que tem tudo a ver com subidas e descidas, peso-leveza, exatidão-indeterminação…
Esses polos opostos que nos confundem e que a poesia integra!
Parabéns pelas escrituras…
Beijão